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Obesidade aumenta nos EUA, sobretudo entre latinos e negros

Os números de sobrepeso e obesidade aumentaram nos Estados Unidos entre todas as etnias e grupos raciais, mas o impacto é maior entre adultos latinos e negros, segundo um estudo divulgado na quinta-feira (4) pela Fundação Robert Wood Johnson.

Obesidade aumenta nos Estados Unidos entre todas as etnias PA

O estudo assinala que seis estados mostraram “grandes aumentos” estatísticos de obesidade entre adultos — Alasca, Delaware, Idaho, Nova Jersey, Tennessee e Wyoming. Mississipi e Virgínia Ocidental tiveram as taxas mais altas com 35,1%, ambos, enquanto Colorado teve a mais baixa com 21,3%.

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Entre os quatro estados com as maiores taxas de obesidade, também estão os maiores números de adultos que reconhecem que não fazem exercício, pelo contrário, Oregon tem a maior porcentagem de atividade física entre adultos com 83,7%. Neste sentido, adverte que os números entre os adultos continuam sendo “altos demais” em todo o país, pondo milhões de americanos em “risco” de sofrer de uma série de doenças que vão desde problemas cardíacos a diabetes tipo 2.

 

Apesar de ser um problema que afeta uma grande parte da população, ele se torna mais patente entre as mulheres afro-americanas, já que 82% sofre algum tipo de sobrepeso, contra 63,2% das brancas e 77,2% das latinas. O estudo, que analisa dados das agências de saúde do governo, assinala que os números de obesidade entre os afro-americanos aumentaram em mais de oito pontos percentuais desde 2002 e dez pontos percentuais entre os latinos nesse mesmo período.

 

O estudo destaca alguns “sinais de progresso” perante a obesidade infantil pois, após décadas de “aumentos alarmantes”, conclui que as taxas estabilizaram-se na última década. No entanto, nos Estados Unidos 16,9% das crianças sofrem de obesidade e 31,8% tem algum tipo de sobrepeso.

Concretamente, 22,4% das crianças latinas sofre de obesidade e 20,2% dos afro-americanos, contra 14,3% dos brancos. Os especialistas assinalam a importância de manter uma dieta saudável e fazer exercício e fazem um apelo para que se apliquem políticas para prevenir a obesidade desde a infância, com insistência nas povoações mais afetadas.

R7

‘Tratamos o câncer com drogas que não foram feitas para a genética dos latinos’

RemédiosSabe-se muito pouco sobre o real cenário do câncer na América Latina. Além de existirem mais estimativas do que dados sobre a incidiência da doença, a região corresponde a apenas 1% de todas as pesquisas clínicas feitas em oncologia no mundo. Por aqui, pesquisas, tratamentos e medicamentos são “importados” principalmente dos Estados Unidos e Europa.

 

De acordo com o colombiano Andrés Felipe Cardona, diretor científico da RedLano (Rede Latino Americana de neuro-oncologia), a carência de pesquisas tem um preço alto: ainda não se sabe exatamente como se comportam os tumores na população latino-americana nem se os medicamentos usados na região são tão eficientes quanto são para as populações norte americanas ou europeias.

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Vale ressaltar que cada vez mais os novos medicamentos oncológicos são baseados na genética tumoral e, de acordo com o pesquisador, no que se refere à oncologia, a heterogênea e diversa população latino-americana teria, curiosamente, maior semelhança com a asiática. Leia abaixo a entrevista:

 

A maioria dos medicamentos e tratamentos contra o câncer é oriunda de pesquisas feitas nos Estados Unidos ou na Europa. Quanto de pesquisa clínica em oncologia é feita na América Latina?
Andrés Felipe Cardona:
 Digamos que de 100% de toda a pesquisa feita sobre câncer no mundo atualmente, apenas 1% seja feito na América Latina. Deste 1% , 60% é feito no Brasil. Os outros 40% correspondem principalmente a pesquisas clínicas feitas no México e na Argentina. Os outros países fazem muito pouco. Então não sabemos ainda como se comportam os nossos tumores, os nossos cânceres.

 

Por que não dá para saber como se comportam os nossos tumores?
Cardona:
 Nossa genética é completamente diferente da dos americanos e dos europeus. Antes, nos guiávamos por estudos norte-americanos e acreditávamos que os comportamentos sobre as doenças seriam iguais aos deles. Agora sabemos que, curiosamente, a genética dos nossos tumores se parece mais com a dos asiáticos. Então o câncer de pulmão na América Latina, por exemplo, é muito mais parecido ao câncer de pulmão na Ásia, principalmente a genética.

 

Por que nos parecemos mais com asiáticos?
Cardona:
 Acreditamos que isto pode ter relação com genes muito antigos, que provavelmente têm a ver com as migrações feitas a 14 ou 18 milhões de anos da Ásia. Estes genes estavam nos aborígenes da América Latina e quando nós nos mesclamos com os europeus estes genes ficaram exacerbados, digamos assim, e são eles que por acaso têm relação com as doenças. Bom, é importante ressaltar também que a América Latina é um continente muito heterogêneo, existe muita diferença.

 

Quais são as especificidades destes tumores?
Cardona:
 O comportamento de um tumor entre os peruanos, por exemplo, é completamente diferente do comportamento entre os brasileiros. O que estamos aprendendo, a passos muito lentos, é como se comportam estas populações para saber como vão se comportar os medicamentos quando aplicados a elas. No Peru, por exemplo, há uma relação importante de tumores criados por um vírus chamado Epstein-Barr e ainda não sabemos a razão disso. Acredita-se que tenha uma provável relação com as migrações de japoneses para lá, assim como ocorreu no Brasil, uma vez que os japoneses também têm uma prevalência alta de câncer por este vírus, coisa que não ocorre no resto da América Latina. São questões difíceis de explicar, mas aos poucos vamos caminhando.

 

Então o problema não está só na falta de diagnóstico precoce, tratamento, sistema de saúde, mas também no desconhecimento da genética?
Cardona:
 Sim, mas é preciso considerar todos estes fatores. Um exemplo importante entre os latino-americanos é a infecção pelo HPV, que cria não só canceres de colo uterino, como também de cabeça e pescoço e que poderia estar gerando cânceres de pulmão e outros tantos. A infecção por HPV entre as mulheres latino-americanas é muito alta. Em Bogotá, mais ou menos 25% das mulheres com menos de 40 anos estão ou estiveram infectadas. No Brasil, o porcentual é de 15%. Se olharmos o total da população sexualmente ativa na América Latina, estaríamos falando provavelmente de 35%. Por isso o câncer de colo uterino é tão alto aqui. A infecção por HPV está relacionada com o subdesenvolvimento, mas ele pode gerar também tumores. São muitas transformações que fazem com que os nossos tumores sejam completamente diferentes daqueles que surgem nos norte-americanos e europeus. O maior problema é que os 40% dos casos de câncer em 2020 ou 2030 estarão relacionados ao subdesenvolvimento, à pobreza.

 

O senhor poderia me dar exemplos de características no Brasil que são diferentes nos Estados Unidos e na Europa?
Cardona:
 No Brasil, a população de pessoas negras é maior e os tumores de mama são muito mais agressivos na população negra. Esses genes também estão na população miscigenada. Logo, o câncer de mama na população brasileira e na colombiana (onde a população negra também é maior) tem uma dominância maior para um tipo de câncer chamado triplonegativo, mais agressivo. É isso que temos aprendido pouco a pouco, mas infelizmente a pesquisa em câncer é muito limitada.

 

Isso é um pouco preocupante, pois os medicamentos estão cada vez mais baseados no genoma.
Cardona:
 Grande parte desta informação de inovação em oncologia se deu por conta do genoma tumoral. Desde o ano de 2002 quando completou o projeto do genoma humano, começou-se a tratar de tipificar uma variedade de informações genéticas, a “impressão digital” dos tumores. Hoje em dia, ao menos dos tumores maiores, conhecemos 60% desta “impressão digital”. Assim, conhecemos os genes que estão ativados, os mais quentes, digamos assim. As investigações em todo o mundo têm se dado para apagar estes incêndios, digamos assim. Na década de 1960, existiam 40 medicamentos em pesquisa, todos quimioterápicos. De 1960 a 2000 foram investigados 300 medicamentos em oncologia. Entre 2000 e 2010, foram pesquisados mais de 500 medicamentos. Então há uma multiplicação de informação. É fantástico.

 

Como funciona isso?
Cardona:
 Só para explicar melhor, vamos colocar que a genética de cada tumor é como um ônibus. O motorista é o gene quente e os passageiros são os genes que indicam onde o motorista vai buscar a informação da doença. Hoje em dia temos conhecimento sobre quem são esses genes quentes e temos medicamentos que conseguem inibí-los e cosequentemente apagar a doença. Boa parte desses medicamentos são dirigidos a esses genes, produzem menos efeitos colaterais e são tomados por via oral.

 

 Mas se a revolução nos tratamentos contra o câncer está exatamente no genoma e você me diz que nossa genética é diferente da genética usada como base para estes remédios, então não temos medicamentos feitos para a gente.
Cardona:
 Não, eles são muito caros. Um estudo para uma nova molécula custa, em média, entre 50 e 100 milhões de dólares. Agora temos pesquisas em câncer de pulmão e em câncer de mama na América Latina para entender por que nós nos comportamos de modo tão diferente, por que os tumores se comportam de modo diferente. É muito importante fazer pesquisas na América Latina, mas acontece que os nossos países investem muito pouco em pesquisa.

 

Onde está o problema? Falta de dinheiro, desconhecimento sobre as populações, prioridades, tempo regulatório?
Cardona:
 Há mais coisas. A fatia do produto interno bruto dos nossos países para a pesquisa é muito baixa. Os países desenvolvidos investem de 5% a 6% do PIB em pesquisa. Na América Latina, os países que mais investem em pesquisa no geral, que são o Chile e o Brasil, estão em 2%. Existem ainda casos mais dramáticos, como o do meu país, que investe menos de 1%. Temos também um problema muito grande são os tempos, como você disse. Em geral, os tempos regulatórios na América Latina são muito lentos. O caso mais extremo é o Brasil, onde o tempo regulatória varia de 200 e tantos e 500 dias. A grande maioria dos países – exceto Equador, Peru e México, que são mais rápidos – estão mirando a política regulatória da Anvisa e passando 300 ou 450 dias até a aprovação dos medicamentos. Fora isso, a grande maioria dos medicamentos saem com restrições, então não temos o acesso universal, por eles serem caros. No Brasil, a nova tecnologia tem acesso de 8%, na Colômbia é de 4% e o problema é que nós como latinos somos diferentes dos norte americanos e dos europeus. Muitos países também reprimem o acesso a estas novas tecnologias, não só o medicamento, mas também pesquisa, plataformas de tipificação e também para a inclusão de reativos.

 

Você se refere à entrada de medicamentos?
Cardona:
  Sim. O tempo que a tecnologia evolui e a necessidade de cumprir muitos passos e requisitos é muito grande. Para que vocês entendam em 1960 ou 70 o tempo que levava para introduzir um novo medicamento para uma doença tumoral estava ao redor de 15 anos de pesquisa. Agora este tempo está ao redor de sete anos. O problema da América Latina é que a tecnologia demora muito mais para chegar. Os medicamentos que estão hoje nos EUA demoram três ou quatro anos para chegar e o acesso não é global, nem todos os pacientes terão estes medicamentos.

 

Na sua opinião, se aumentasse o investimento em pesquisa haveria redução nos gastos de saúde?
Cardona: Claro. Saberíamos mais das nossas doenças e poderíamos aprender a cuidar e tratá-las melhor. Saberíamos se os medicamentos que estamos usando são tão eficientes quanto são para norte-americanos ou europeus.

 

Uma critica muito grande que se tem sobre a pesquisa em câncer é que ela está sempre no quase e que isto poderia indicar que se está no caminho errado. Qual a resposta que o senhor dá a esta crítica?
Cardona:
 Se olharmos os dados mais recentes o mundo teria morrido de câncer nos próximos 20 ou 30 anos. Hoje em dia morrem cerca de 8 milhões de pessoas de câncer por ano em todo o mundo. Nos anos de 2025 e 2030 vão morrer 30 milhões de pessoas por ano por esta doença. E uma quantidade gigantesca de pessoas. Em 1960, só podíamos curar 10% das doenças tumorais. Hoje em dia podemos curar 40%. Veja que ganhamos 30% em capacidade de cura e não é só por causa de diagnósticos mais precoces, mas também em grande proporção e também ao acesso a novos medicamentos que apagam estes genes e mudaram em mais de 40% a evolução das doenças mais importantes como o câncer de mama, de pulmão. Então não estamos em um quase, mas conseguindo cada vez mais curar mais pessoas e aqueles que não conseguimos curar conseguimos dar uma qualidade de vida maior, por um tempo de vida maior.

 

*A repórter viajou a convite da Roche para o congresso que discutiu Oncologia

IG

Entrevista Lucio Costilla: latinos estão mais autônomos, mas continuam dependentes

luciocostillasApesar do visível fortalecimento institucional da América Latina no cenário político e econômico internacional, os países da região ainda não conseguiram romper com a dependência das grandes potências. Com exceção do México, Colômbia e Panamá, que ainda mantêm uma profunda relação de submissão aos Estados Unidos, as nações latino-americanas têm hoje mais autonomia para definir políticas internas, possuem governos mais progressistas. Ainda assim, não conseguiram vincular essa autonomia interna na mesma proporção de sua emancipação.

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Em entrevista a Adital, o professor titular do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade Autônoma do México (Unam) e atualmente professor visitante da Universidade Federal do Ceará (UFC), no Brasil, Lucio Oliver Costilla traça um panorama da reconfiguração por que passaram os Estados latino-americanos, após as crises do socialismo e, mais recentemente, das grandes economias capitalistas. Da extrema relação de dependência, como no caso do México, ao chamado sub imperialismo do Brasil na América do Sul, ele avalia que a grande novidade é que os Estados e o capital estão tendo que competir com a sociedade pela gestão do que é público. A Bolívia teria sido o país que mais perto chegou de uma verdadeira refundação.

Costilla participou, esta semana, do seminário “América Latina: reconfiguração do Estado no contexto contemporâneo da política”, promovido pela Rede Universitária de Pesquisadores sobre a América Latina (Rupal), em Fortaleza.

Adital: Na sua opinião, qual é hoje o papel das nações latino-americanas diante de um cenário em que os regimes socialistas ruíram, não deram certo, e os regimes capitalistas estão passando por uma grave crise, tanto política como econômica? Como o senhor enxerga que eles estão posicionados diante disso?

Lucio Costilla: Eu acho que os países estão procurando mudanças, mas não têm um caminho certo. Estão procurando mudanças na relação Estado-sociedade, colocando o público no centro, o que é o mais importante. Já não tem mais um modelo pré-estabelecido, não tem um sujeito especial que seja condutor das lutas. O importante é que, sobretudo nas últimas décadas, nos últimos 15 anos, os países estão colocando no centro das lutas sociais a concepção de que a sociedade tem que se apropriar do que é público. A coerência e a profundidade dessa postura é muito mais importante que qualquer modelo de transformação social. Porque, na verdade, esse é o sentido profundo da crítica ao domínio do capital.

A: O senhor acha que o papel do Estado está sendo reconfigurado? O Estado enquanto condutor das políticas?

LC: Está sendo reconfigurado pela participação das sociedades, mas ainda é um Estado que mantém a condução burocrática e o núcleo duro de políticas de ajustes, sempre em posição de concorrência dentro da órbita do capital. Porém, houve mudanças, sobretudo na América do Sul, mudanças importantes que podem ser chamadas de retorno à regulamentação do Estado na política e na economia.

A: Com a diferença que agora a sociedade está assumindo um controle maior, é isso?

LC: Exatamente, a diferença é que agora a sociedade está começando a disputar o que é público. Já não é somente como na época do desenvolvimentismo, quando a sociedade acreditava que a burocracia tinha a verdade, tinha a condução. Eu acho que essa mudança histórica da sociedade disputar o público, perante a condição dos políticos, perante a condução da burocracia, é uma mudança histórica fundamental.

A: Então, os Estados ganharam ou perderam terreno?

LC: De fato, o que aconteceu é que, nas duas últimas décadas do século passado, os Estados se entregaram a políticas de valorização do grande capital transnacional, ao domínio quase total do mercado, quer dizer, deixaram de ser representantes das nações e dos povos. Isso foi à origem da crise política que ocorreu na primeira década do século XXI, que levou ao extremo a ebulição da sociedade, a desintegração do controle social. A pobreza aumentou o dobro, a instabilidade econômica começou a dominar.

A: Os Estados estão retomando seu papel?

LC: As sociedades é que exigiram que os Estados fossem de novo representantes das nações e dos povos, esta é a diferença. Apareceram forças políticas que aceitaram atender a essa reclamação e promoveram o retorno do Estado como entidade reguladora da política e da economia. Só que a partir de um projeto de forças políticas e de particulares e não de atender às reivindicações que a sociedade já estava colocando. Aí começou uma tensão entre Estados e sociedade. Houve um tempo que essa tensão parecia dominada pelas forças políticas, a partir do crescimento econômico e das políticas sociais. O crescimento econômico na América do Sul foi o maior do mundo.

B: Só isso não adiantava mais?

LC: Não, porque esse crescimento econômico, o maior acesso das camadas ao consumo e ao emprego, não estavam criando uma cidadania com direitos claros, sobretudo, diretos para definir as política públicas. Então, essa situação, fez a tensão crescer. Por exemplo, no caso da saúde, esta não foi colocada como uma política estruturante. Mas apenas como acesso da população à saúde privada. Essa dificuldade gerou uma submissão do direito a saúde ao interesse do mercado.

A: Na América Latina, quem são, em sua opinião, os países que estão puxando esse posicionamento, essa liderança, com o Estado atuando como mediador do controle social? Quais Estados mais avançados e desenvolvidos nesse projeto?

LC: Eu acho que houve experiências diversas. O país que mais se aprofundou no inicio desse processo foi a Bolívia, porque abriu espaço para uma refundação da sociedade boliviana. Permitiu que houvesse uma transformação do Estado Republicano liberal num Estado plurinacional, com participação comunitária. Mas essa refundação do Estado na Bolívia e nos outros países não aconteceu como consequência de uma verdadeira transformação da sociedade. Todos os processos, inclusive na Venezuela, foram processos de compromissos. Crescer não depende só da vontade dos dirigentes, da sociedade, mas às vezes da relação de forças que não permitem medidas mais radicais.

A: Se fala muito nas nações bolivarianas, a Venezuela, Bolívia e Equador liderando esse projeto. Como é que a gente pode definir esses governos em sua opinião?

LC: Eu acho que eles são governos que colocaram na pauta o interesse de refundar as sociedades e os Estados.

A: Isso não quer dizer que eles tenham conseguido…

LC: É essa é a questão. Eles colocaram na pauta e isso foi muito bom. Porque outros países, como a Argentina, Uruguai, Brasil, colocaram o retorno do Estado, mas não para refundar a sociedade e as instituições. Eles mantiveram as velhas instituições, enfatizando a questão de criar novas políticas, novas regulamentações, mas não de transformar as instituições.

A: O que chegou mais perto foi a Bolívia?

LC: O que chegou mais perto foi a Bolívia porque atendeu a revindicações históricas de integrar sociedades, não só culturas, mas sociedades, formas produtivas, modos de ver o mundo dentro do Estado. Quer dizer, realmente, mudou o Estado oligárquico boliviano para se tornar um Estado mais amplo. Os demais tiveram processos de ampliação do poder do Estado, mas não mudaram o padrão de acumulação de riquezas. E essa questão fez com que logo eles começassem a ter dificuldades e limites. Por exemplo, a manutenção dos modelos extrativistas, do padrão extrativista na Bolívia e Equador, logo criou uma dificuldade.

A: Tanto que o Rafael Correa há poucos dias já cedeu a exploração de petróleo no Parque Yasuní…

LC: Exatamente, já aceitou que não é possível desenvolver uma política sem colocar o extrativismo no meio. Na Venezuela, por exemplo, a obtenção de recursos através da indústria petroleira, baseada no mercado mundial, na exploração dos recursos naturais, continua como a principal forma de acumulação.

A: A posição internacional da América Latina em relação à política e economia principalmente melhorou nas últimas décadas?

LC: Melhorou com certeza.

A: Hoje a América Latina tem mais força?

LC: Tem mais força. Tem maior autonomia para definir políticas internas do que antes, mas não em todos os países. O México, por exemplo, não desenvolveu essa capacidade de autonomia, ao contrário,entrou numa situação de maior subordinação às políticas e à economia dos Estados Unidos. Mas vários outros países, realmente, definiram o que fazer com o gasto público, que políticas sociais têm prioridades, como planejar investimentos públicos, como se posicionar perante a dívida externa. Quer dizer, desenvolveram com maior autonomia a suas políticas. Eu acho que isso foi o mais importante.

A: Com exceção somente do México?

LC: Com exceção do México, da Colômbia, do Panamá. Que dizer, nem todos os países da América Latina conseguiram romper com a dominação.

A: Principalmente romper com a dependência?

LC: Exatamente. Porém, nenhum dos países latino-americanos conseguiu romper totalmente com a dependência. Alguns tiveram uma virada progressista, desenvolveram uma política de transição, para possibilitar o retorno do Estado, essa maior participação da sociedade em assuntos públicos, mas não conseguiram vincular isso a uma emancipação. Quer dizer, a emancipação ficou fora, ficou para outro dia. Então, isso fez com que o padrão de acumulação não fosse tocado, o domínio do capital, os interesses do capital, não fossem tocados. O que fez ficar mais longe a possibilidade de uma emancipação. Emancipação em qual sentido? De realmente resolver as profundas contradições da sociedade. No fim de 2010, parecia que esse ciclo de medidas progressistas, do retorno do Estado, de uma maior autonomia, tinha quase acabado. Parece mesmo que esse ciclo já terminou. O que pode ser feito agora está nas mãos das sociedades, que não deixaram de colocar em pauta sua participação nos assuntos públicos.

A: Então, o senhor quer dizer, a dependência ainda não acabou?

LC: Não, não acabou!

A: O que houve foram ações pontuais, é isso?

LC: Realmente, hoje, há mais políticas voltadas à universalização e ao social. Mas a dependência não acabou porque o padrão da acumulação é muito importante para resolver essa questão da dependência, que é o que a gente gostaria. E por que? Porque o padrão de acumulação continuou baseado na rentabilidade, na indústria extrativista, voltada para a produção especializada e para a exportação de commodities. O único país com mais opções de acabar com a dependência é o Brasil, que tem um mercado grande, próprio e que investiu um pouco na indústria interna e numa política para entrar na concorrência regional. Mas dentro desse processo criou-se uma política chamada de sul imperialismo brasileiro. Quer dizer, uma política voltada para a apropriação dos recursos naturais e dos investimentos dos países vizinhos. Só que com uma forte presença estatal, que é a única coisa que realmente detém esse processo de expansão do domínio.

A: O senhor acha que guardadas as devidas proporções da América do Sul, o Brasil, hoje, aparece como sub-império dentro da América do Sul?

LC: Aparece sim como um sub império. A única questão é que o Estado cria limites para esse império. Se fosse um outro governo, outras políticas, essas políticas de potência, de domínio, de imposição, seriam estimuladas.

A: O senhor acha que os movimentos sociais latino-americanos estão mais fortes?

LC: Eles ainda têm uma grande força. Por exemplo, na Bolívia, as comunidades indígenas ainda se movimentam com muita força. Os movimentos sociais de bairros na Argentina ainda se movimentam. E o que vem acontecendo no Brasil, desde junho, também demonstra a força da sociedade, sobretudo da juventude, que tem condição de se expressar publicamente, de reclamar direitos e exigir participação nas decisões públicas. Existem muitas temáticas que a juventude está questionando, como assuntos que não devem ser decisão da burocracia, como o gasto público para servir a interesses privados. Quando a juventude reclama de transporte geral, pelo passe livre; quando a juventude reclama avaliação das políticas de gasto público para os jogos da Copa do Mundo, estão na verdade reclamando um diálogo com a sociedade dos responsáveis por esses gastos. Então, nesse sentido, podemos dizer que as ações coletivas ainda estão vivas.

A: Mas já foram mais fortes? Principalmente em comparação com os movimentos sociais da América Latina nas décadas de 1970 e 1980, quando esses movimentos, por serem muito reprimidos, tinham uma luta mais forte, mais violenta.

LC: Nesse ponto temos aí que ter muito cuidado! Violência não quer dizer Fortaleza. É diferente. Violência pode ser feita com submissão a grandes oligarquias, por exemplo.

A: Os movimentos indígena, camponês, eram muito fortes naquela época, em plena ditadura. A impressão que temos, ao menos no Brasil, é que os movimentos sociais meio que se calaram, não sei se por conta do atual governo, de tendência progressista. Por exemplo, a gente não vê mais o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) com aquela força toda. Aí eu lhe pergunto, será que eles estão se rendendo?

LC: Não, esses movimentos tinham uma definição política e interesses setoriais mais claros que agora. Essa definição política significou ganhos e perdas. Mas eu acho que a diferença hoje é que esse movimento pela coisa pública, chamemos assim, é mais fraco em definições políticas e mais forte no sentido de que está colocando um reivindicação que é difícil de impedir. É a exigência da sociedade de participar das decisões principais.

A: É menos localizado?

LC: É menos localizado e mais difícil de combater. E pode ser mais indefinido politicamente do que definido, mas expressa um grande horizonte de possibilidades.

A: Por exemplo, no México, eu me lembro que até 10 anos atrás o movimento zapatista ainda era muito forte. Enfim, como é que isso hoje? Como é que os movimentos sociais do México estão atuando?

LC: É interessante fazer uma diferença entre manifestações populares e movimentos sociais. Porque os movimentos sociais já têm uma carga política mais forte de construção de sujeitos com organização e consciência. Já as manifestações populares pela coisa pública, por exemplo, pelos direitos, é outra coisa. Como estão os movimentos sociais? Eu acho que estão vivendo um período de resistência, resistência para não morrer. Porque as políticas estatais têm sido muito agressivas para impor essa dominação do mercado e a algumas dessas políticas têm sido militarizadas. Por exemplo, a segurança pública do México é militarizada. Então, isso gera mudanças na vida social, tem resultados nos movimentos sociais.

A: Mas é correta a minha impressão, realmente houve um enfraquecimento?

LC: Houve um enfraquecimento, também porque existem novos fenômenos que a sociedade ainda não entende. Por exemplo, o domínio do narcotráfico na metade dos estados do país é uma realidade. E esse domínio cria temor na sociedade, cria uma decomposição das instituições. Nessas condições, os movimentos sociais existem como resistência. Estão subsumidos em uma situação de violência que não conseguem entender e superar. E parece que vai ser difícil uma superação. Alguns movimentos sociais estão aparecendo agora pelas políticas estatais que contrárias a direitos adquiridos. Por exemplo, contra o direito de trabalho dos professores do ensino fundamental, o governo mexicano aprovou uma lei para introduzir critérios comerciais e transnacionais na avaliação dos educadores. Esses critérios desconhecem toda a realidade dos educadores e o processo histórico da educação no México. É apenas um veiculo das concepções da burocracia. Portanto, os professores estão lutando contra isso, porque sabem que será uma política que vai piorar a educação e a situação dos trabalhadores.

A: Há movimentos contra as privatizações também?

LC: Também. Acrescentamos ainda os movimentos pela defesa dos recursos naturais, da energia pública.

A: Eu não sei se o senhor acompanhou o processo das privatizações que houve no Brasil na década de 90. Empresas de mineração, de telefonia, algumas empresas de geração de energia. Enfim, várias delas foram privatizadas. Isso ta acontecendo hoje no México, também?

LC: Está acontecendo sim. Está ocorrendo desde 1988. Agora, se aprofunda e se legaliza porque já foi privatizado quase tudo. Restam apenas as empresas públicas de produção de petróleo e alguns serviços como saúde e educação. Mas já misturado com o privado. Agora se dá a última ofensiva para privatizar tudo que é público. Essa é a marca do novo governo, legalizar e regulamentar a privatização do público.

A: Como ficará a situação da Pemex (Petróleos Mexicanos)?

LC: O governo está querendo entregar os recursos petrolíferos para empresas internacionais, o que não vai ser fácil. Primeiro, por causa da resistência, tendo em vista que o caráter público do petróleo, da energia, é uma conquista política da sociedade desde os anos 1930. Quanto à decisão do governo de entregar esses recursos às empresas privadas, a população está sentindo que é grave e vai deixar o país como ficou a Argentina, totalmente desprotegido.

A: O México, hoje, é um Estado menos soberano?

LC: Eu acho que perdeu soberania militar, porque as políticas militares já não são decididas no México. Parte da política contra o narcotráfico, contra o terrorismo e de controle e segurança do exército está nas mãos dos Estados Unidos. Perdeu a soberania econômica por causa do Tratado do Livre Comércio com os EUA. Atualmente, 95% da produção e comercialização do México estão voltadas para o mercado estadunidense. Quer dizer, não existe uma diversificação que permita capacidade de autonomia e negociação. É uma política de servir a indústria e a economia dos EUA. E a soberania política diminuiu muito, porque um governo sem capacidade econômica, sem capacidade de definir suas próprias políticas, fica refém.

A: A perspectiva para melhorar seria romper ou pelo menos reduzir drasticamente a submissão aos Estados Unidos?

LC: É, reduzir não quer dizer romper. E não tem nem como, nem é preciso. O que é preciso é gerar autonomia dentro dessa relação. Estabelecer limites, estabelecer políticas próprias dentro dessa relação.

A: O Brasil seria um exemplo para o México?

LC: Seria um exemplo sim.

A: Até por conta das dimensões, porque são os dois maiores países da América Latina.

LC: Exatamente. Só que teríamos que colocar em pauta também o padrão da acumulação, que aqui não foi colocado em pauta. Porque também se fala muito do exemplo do Brasil, do estímulo às políticas autônomas internacionais e do Brics (bloco dos países em desenvolvimento), dos projetos de integração latino-americana, mas não foi colocado em questão esse padrão de acumulação que limita muito as possibilidades do Brasil. Seria um exemplo, mas aproveitando a experiência brasileira, o México deveria colocar em questão a criação de uma nova economia social e uma economia estatal que criasse uma capacidade para ter uma verdadeira autonomia. Nós temos que aprender a lição de que essas políticas públicas devem ser criadas em diálogo com a sociedade. Eu sempre falo que nós temos que olhar a experiência da América do Sul, não para repetir. Temos que enxergar as limitações das políticas que foram aplicadas aqui para ter um desenho melhor dessas políticas.

A: Uma impressão que eu tenho é que o México está cada vez menos latino-americano, por causa da sombra dos Estados Unidos.

LC: Interessante a sua colocação! No México, a elite política está criando uma ideia de que o país tem que ser aproximar dos Estados Unidos até assimilar a cultura deles. Mas a resistência popular a isso é muito forte. O México tem uma cultura popular vinculada com a América Latina, e não com os Estados Unidos. Portanto, existe muita resistência a esse projeto das elites. Só que para o exterior o que aparece é o projeto das elites, como se fosse o modo de ver todo o país, e isso não é verdade. Muitos estrangeiros quando chegam ao México se surpreendem com a força da língua, da cultura, das referencias do imaginário mexicano, que são mais próximos da América Latina que dos Estados Unidos. Então, isso que vocês veem não é verdade para a sociedade e é verdade para as elites.

 

 

Adital