Arquivo da tag: herói

Pai herói: disciplina e responsabilidade marcam a vida de carteiro na cidade de Areia que completa 35 anos de serviço sem faltar a nenhum expediente

correio areiaPrestes a completar 35 anos de trabalho dedicados exclusivamente ao serviço público, o único carteiro da cidade de Areia, brejo paraibano, por 32 anos, Elias Alves Pereira, mais conhecido como ‘Mero dos Correios’, 59 anos, bate às portas da aposentadoria em outubro deste ano depois de trilhar uma intensa jornada de disciplina e responsabilidade aliada à obstinação.

Sem nunca ter faltado a nenhum expediente nesse período e sem nem mesmo ter apresentado um único atestado médico para justificar uma possível ausência, o empregado público do interior da Paraíba possui uma história exemplar de esforço e dedicação que contraria a imagem, muitas vezes negativa, do serviço público no Brasil.

CURTA o FOCANDO A NOTÍCIA no Facebook

Exercendo uma profissão cansativa e que requer, além de muita atenção, um bom condicionamento físico, o carteiro ingressou na profissão em outubro de 1978, com 24 anos, quando, após uma seleção para uma vaga, ficou na segunda colocação. Após 15 dias de trabalho, o primeiro colocado para a função, no entanto, entregou o cargo por considerá-lo exaustivo e sobrecarregado para apenas uma pessoa ‘dá conta’ e Mero acabou sendo convocado para assumir a vaga.

Hoje pai de três filhas, Mero dos Correios, que à época estava com a esposa grávida da primeira filha, tomou a responsabilidade para si e decidiu encarar o desafio de (sozinho), entregar as correspondências para os mais de 25 mil habitantes da cidade. Ele explica que esse senso de responsabilidade, todavia, veio com a paternidade.

Em uma época que não havia a facilidade do mundo virtual existente nos dias de hoje, o carteiro acordava mais cedo e saia mais tarde para não ter que deixar serviços pendentes para os dias posteriores, mesmo trabalhando mais que o horário do expediente e sem ganhar nenhuma hora extra por isso.

“Quando nos é dada uma oportunidade nós temos que agarrá-la e foi isso que fiz, tinha uma família para cuidar e aprendi que o homem é o responsável por sustentar sua família, se fui homem para fazer, também tinha que ser homem para assumir e manter uma casa e uma família então, quando fui chamado para o serviço, não pensei duas vezes e hoje estou completando meus 35 anos de serviço sem nenhuma mancha que pudesse sujar meu currículo”, comemorou.

Filho de mãe e pai agricultores, foi na infância que o carteiro aprendeu a importância da disciplina e o senso de responsabilidade, quando via os pais acordarem cedo para trabalhar no roçado. Um trabalho também cansativo, mas que, segundo ele, feito com dedicação sempre rendeu bons frutos.

SEM RECONHECIMENTO

Único carteiro da cidade durante 32 anos, Mero dos Correios, todavia, nunca recebeu o mérito do reconhecimento da empresa pelo empenho e esforço dedicados à estatal. Pelo contrário. Em vez de reconhecimento, o carteiro só recebia cobranças e pressões para bater as metas estipuladas pela diretoria regional dos Correios, sendo inclusive, em determinada época, obrigado a não só entregar cartas, mas também a vender os produtos oferecidos pela ECT (Empresa de Correios e Telegráfos).

Nesse mesmo período a empresa pública passou por várias greves, mas o funcionário paraibano, mesmo cobrado e pressionado, nunca aderiu a nenhuma paralisação. Não por medo de represálias, mas sim para que a população não fosse prejudicada com atrasos ocasionados pela intransigência da direção em ceder às negociações salariais.

“O reconhecimento e consideração ficaram apenas para os funcionários dos grandes centros, nós do interior, principalmente da Paraíba, somos apenas um número, uma matrícula e nada mais, nunca fui contemplado com gratificação ou até mesmo uma carta de parabéns, nada, nada, nada, apenas trabalho”, desabafou.

O funcionário dos Correios ainda lembra que sempre fez seu trabalho de acordo com o que considera correto, com uma boa conduta.

“Para a empresa, o funcionário fazer algo a mais é uma obrigação e não um diferencial. Nós do interior da Paraíba não somos e nem nunca fomos reconhecidos, fiquei 32 anos sozinho como carteiro na cidade e só nos últimos três anos é que enviaram mais um funcionário para cá e porque eu tive um acidente de trabalho e recebi a recomendação que não mais poderia fazer grandes esforços”, desabafou o carteiro, ao lembrar que em cidades vizinhas, com uma população menor, já havia um efetivo maior de carteiros, enquanto em Areia, para a empresa, apenas um era suficiente, já que esse ‘um’, que era ele, sempre deu conta do trabalho.

Apesar de não ter o reconhecimento da empresa, o carteiro disse que encontra no amor da família que construiu nessa jornada, a esposa Magna Dias e as três filhas, Vera, Eliagna e Márcia, a verdadeira motivação para ter se empenhado no trabalho todos esses anos.

“Saber que com meu trabalho proporcionei às minhas três filhas a oportunidade de estudar e adquirirem o diploma de curso superior é uma das minhas maiores recompensas, elas que só me deram e me dão orgulho mostram que o esforço dedicado nesses anos todos de trabalho valeu a pena”, disse emocionado.

Ao lembrar-se da esposa, Magna Dias, que na cidade ficou conhecida como Magna de Mero dos Correios, o carteiro não esconde o amor que ainda é latente, mesmo passados mais de 35 anos de união matrimonial.

“Minha esposa é meu maior reconhecimento, ela me deu filhas maravilhosas, sempre esteve do meu lado, sempre me incentivou, sempre me amou, sempre ouviu meus desabafos, às vezes reclamava por eu me dedicar demais à empresa, enfim, não só uma mulher, mas uma companheira que esteve e está comigo nesses mais de 35 anos”, declarou.

DIAS DIFÍCEIS

Após mais de três décadas sem ter apresentado um único atestado médico, em 2010, Mero dos Correios teve a jornada interrompida ao descobrir que estava com o baço rompido devido a uma queda de moto sofrida dias antes em um acidente de trabalho. A doença só foi detectada graças à exigência de exames periódicos solicitados anualmente pela empresa.

“Quando tenho que fazer entregas em locais distantes, uso a moto dos Correios e certo dia ao realizar um desvio, acabei passando por um monte de terra e caindo na moto. Na ocasião o guidão bateu forte na região da minha barriga, mas achei que era apenas uma pancada normal. Como nunca tinha apresentado um atestado, achei que por aquela pancada também não era necessário, mas quando fiz os exames, graças a Deus o rompimento do baço foi detectado a tempo, o médico disse que ele estava apenas por uma película e se tivesse estourado eu poderia ter morrido devido a uma hemorragia interna”, lembrou.

Por determinação médica, o carteiro teve que se afastar dos trabalhos pela primeira vez. Recebendo auxílio doença através do INSS, Mero dos Correios ficou três meses longe das ruas e essa foi a primeira vez que seu trabalho e esforço recebeu o reconhecimento verbal da gerência local.

“Areia não tinha nenhum outro carteiro e como eu estava impossibilitado à empresa tinha que encontrar um substituto e encontrou, no entanto, quando voltei eles disseram que preferiam a mim com 50% da capacidade, a um novato com 100% de saúde plena”, lembrou Mero, ao destacar que sempre teve consciência de que fez mais pela empresa, do que a empresa fez por ele em todos esses anos de serviço dedicados à estatal.

Além de perder o baço, o tempo de serviço também deixou o carteiro com algumas enfermidades, a exemplo de hipertensão e diabetes. Hoje ele toma remédio controlado para amenizar o impacto das doenças e teme pela possibilidade de perder o Plano de Saúde dos Correios quando se aposentar.

“Espero que o Sindicato consiga a manutenção do plano de saúde também durante a aposentadoria, pois já velhos, precisamos de mais assistência e mais cuidados, principalmente porque perdemos uma boa parte da nossa saúde pelo trabalho na empresa durante todos esses anos”, disse.

HONESTIDADE TESTADA

Nem mesmo a trajetória sem manchas e sem deslizes foi suficiente para isentar o assíduo carteiro da prerrogativa da dúvida. Há cerca de cinco anos Mero dos Correios passou, literalmente, por uma prova de honestidade, quando teve sua conduta testada por uma investigação que tentava descobrir quais funcionários estavam envolvidos em receptação de mercadorias adquiridas de forma ilícita.

“Veio uma pessoa até minha casa fazer uma proposta para que eu ficasse recebendo umas mercadorias com endereços fictícios e me solicitaram que eu repassasse o material em troca de uma quantia em dinheiro. Eu logo vi que aquilo era coisa errada, pois quando não encontramos o endereço temos que fazer a devolução da mercadoria para o endereço do remetente, e foi isso que eu disse, que não queria, que não contassem comigo, pois não iria sujar minha carreira por conta de uma mixaria”, lembrou. Ainda segundo o carteiro, tempos depois foi descoberto que os homens que fizeram a tal proposta estavam tentando descobrir a existência de corrupção na estatal.

O DIA A DIA

O carteiro lembra que uma história de 35 anos no serviço público não tem apenas glórias, mas também altos e baixos. “Arrebente e estafe quantos cavalos necessários, mas entregue a carta com toda a urgência. Se não arrebentar uma dúzia de cavalos, no caminho, nunca mais será correio, tenha consciência do que faz!” Estas foram às palavras do Conselheiro José Bonifácio de Andrada e Silva, que sintetizam muito bem o quão significativa é a profissão.

Mero diz que adora ser carteiro, e que se fosse para reclamar de alguma coisa seria dos próprios receptores, que no descaso do dia-a-dia, entres outras coisas não prendem seus cães, o que faz com que o carteiro tenha que manter distância da residência.

“Já levei muito susto de cachorro e até mordida, mas nada de grave, mas é bom manter a distância sempre”, disse.

Mero ainda destaca que as pessoas deveriam se preocupar mais com as caixas receptoras, que na maioria das vezes não existem, e que sem elas o documento pode ser facilmente extraviado.

“Chegamos às seis da manhã, paramos ao meio-dia e trabalhamos até o final da tarde. Aprendi a gostar do que me foi dado, e o que me foi dado foi à oportunidade de ser carteiro. Gostaria de ter estudado mais, me formado em um curso superior, mas naquela época tudo era mais difícil, então tive que trabalhar para manter minha família. Hoje, graças a esse trabalho, consegui manter a casa e transmitir o valor e a importância dos estudos para as minhas três filhas, hoje todas formadas em curso superior”, destacou.

‘CAUSOS’ ENGRAÇADOS

Falta de reconhecimento à parte, a profissão carteiro rendeu a Mero dos Correios também boas histórias, principalmente devido à exposição ao sol, à chuva e aos animais domésticos que ora atrapalhavam, ora o colocavam para correr. Como o trabalho é exaustivo, Mero conta algumas situações que, se não fossem trágicas, seriam cômicas.

“Areia tem muita ladeira, certa vez eu já havia percorrido todo o percurso e já voltava para o Centro da cidade quando uma pessoa lá no final da ladeira começou a gritar, Meroo…Merooo…Meroo…e eu cansado, um sol de lascar, ainda com um malote cheio de correspondências para entregar nas outras ruas, desci, fui ao encontro da pessoa e lá ela me pergunta: tem correspondência pra mim?. ..(risos) Desci tudo só para dizer que não tinha, se tivesse eu teria entregado”,contou.

Antes de sair para o trabalho, uma das funções do carteiro é separar as correspondências por endereços, fazer a triagem, para poder fazer a entrega. “Era véspera de Natal, eu tinha uma pilha de correspondências pra entregar, a maioria cartões de boas festas. Fiz um bolo de correspondência, separei por ruas e coloquei na mão e comecei a caminhada e a entrega, de repente chega um cidadão bêbado, pega no meu braço e começa a chacoalhar dizendo: Merooo há quanto tempo, você é um caba bom danado. E foi assim que eu fiquei de coro quente, ao ver as cartas todas caindo da minha mão e o trabalho de triagem todo jogado por água abaixo”, lembrou dando risadas da situação que naquele momento o irritou.

Também no Natal, vez por outra o carteiro se vestia de papai Noel dos Correios e uma história com uma criança de quatro anos o marcou, pela inocência da situação.

“Em Areia todos me conhecem, desde os adultos, idosos até criancinhas também. Me vesti de papai Noel e fui fazer a entrega dos presentes em uma casa da periferia, de repente a minha barba de papai Noel caiu. A criança, uma menininha de quatro anos olhou para mim como se tivesse descoberto a identidade secreta do bom velhinho e surpresa disse para a mãe: MAMÃE!!!! PAPAI NOEL É MERO (risos). Ela não achava que Mero era papai Noel e sim que Papai Noel era Mero, foi muito engraçado, todos rimos bastante”, lembrou.

Assim como o município de Areia, a história do carteiro Mero entra para o Patrimônio Cultural da cidade, com destaque para um legado de superação, disciplina, dedicação, responsabilidade e acima de tudo honestidade.

Infelizmente hoje, em pleno século XXI, esse tipo de dedicação é muitas vezes substituído pelo ócio e falta de determinação de jovens que poderiam, em um amanhã, também virarem mais um paraibano que se destaca no meio de tantas pessoas.

Márcia Dias

PB Agora

Foto: Clemilson Irmão/ Márcia Dias

Marido herói pula do 2º andar e salva a mulher de roubo em Piracicaba, SP

Homem teve pernas e o braço imobilizados após salvar a esposa de um assalto (Foto: Fernanda Zanetti/G1)
Homem teve pernas e o braço imobilizados após salvar a esposa de um assalto (Foto: Fernanda Zanetti/G1)

O gerente operacional de transportes Gilmar Gomes, de 47 anos, pulou do segundo andar de um prédio no bairro Santa Terezinha, em Piracicaba (SP), ao ver sua mulher sendo roubada quando chegava em casa com o veículo da família. O homem teve ferimentos nas duas pernas, no braço esquerdo e aguarda transferência para um hospital para passar por cirurgia. O carro foi levado pelos criminosos e recuperado nesta sexta-feira (26), mas a mulher não foi ferida.

CURTA o FOCANDO A NOTÍCIA no Facebook

“Foi tudo muito rápido. Vi da sacada minha esposa em perigo. Ela estava desesperada e gritando. Então, calculei mais ou menos a altura. A intenção era parar na sacada do primeiro andar e depois descer no térreo, mas não deu certo e escorreguei e cai de lá de cima. Mas não me arrependo. Se tivesse que pular de novo para salvá-la, eu pularia”, contou Gomes.

Marido vê mulher ser roubada e pula do 2º andar para salvá-la em Piracicaba (Foto: Fernanda Zanetti/G1)Marido pulou do 2º andar do prédio para salvar
mulher de assalto (Foto: Fernanda Zanetti/G1)

A mulher dele, a professora Nubia Botelho Gomes, de 44 anos, disse que foi rendida por dois assaltantes armados quando abria o portão da garagem. “Cheguei por volta das 21h. Eu já estava fora do carro quando os dois homens me abordaram e entraram no veículo. Na hora vi meu marido na sacada e gritei para ele não pular, mas ele fez isso para me salvar. Fiquei desesperada.”

O assalto ocorreu na quinta-feira (25). “Meu marido pensou que os ladrões iam fazer alguma coisa comigo”, afirmou Nubia. “Na hora eu me preocupei com ela. O carro tem seguro, mas não quis descer pelas escadas, pois talvez não desse tempo de tirá-la do perigo. Achei melhor saltar dali mesmo”, disse o marido.

O veículo da família, um Gol ano 2012, foi encontrado no bairro Jardim São Vicente por conhecidos do casal. O automóvel foi apresentado à Polícia Civil e passará por perícia antes de ser liberado para o casal.

Estado de saúde
A Secretaria Municipal da Saúde informou que o gerente operacional foi socorrido pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e levado à COT (Central de Ortopedia e Traumatologia), onde foram constatadas fraturas múltiplas. A assessoria relatou ainda que Gomes aguarda a liberação de vaga por parte dos hospitais contratados pela Prefeitura para a realização de cirurgia ortopédica.

 

 

G1

Censura impediu morte de herói de novela para que ele não virasse mártir

Dina Sfat, Jardel Filho e Juca de Oliveira, personagens principais de "Fogo Sobre Terra" (1974)
Dina Sfat, Jardel Filho e Juca de Oliveira, personagens principais de “Fogo Sobre Terra” (1974)

Dentre as novelas de Janete Clair, “Fogo sobre Terra” (1974) foi uma das mais censuradas. Liberada apenas um ano depois de escrita, o folhetim sobre a construção de uma hidrelétrica ia contra os recentes investimentos da ditadura nesse tipo de matriz energética. Itaipu começaria a ser construída em janeiro de 1975 e causaria desapropriações além de desastres ambientais como a destruição do Parque Estadual de Sete Quedas, no noroeste do Paraná.

Os censores achavam que a trama se tornaria uma “conclamação à revolta”, especialmente por conta de seu protagonista, Pedro Azulão (Juca de Oliveira), um líder comunitário que queria evitar que a cidade fictícia de Divineia fosse inundada. A autora havia previsto para o último capítulo a cena da inundação em que o protagonista se deixaria morrer afogado pelas águas da barragem, mas a censura impediu com medo que ele virasse mártir.

“Em ‘Fogo sobre Terra’, a censura queria que a Janete não fizesse a inundação, pois consideravam a cena um estímulo à população para protestar contra a construção de novas represas. Mas não queriam registrar isso, pedindo que a alteração parecesse uma ideia da autora. Como não quiseram assumir a orientação, prosseguimos com a sinopse original”, contou o ex-superintendente de produção e programação da Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni.

Pedro Azulão, portanto, acabou não morrendo. Nem a ideia inicial de Janete, que decidiu aplicar o mote à personagem Nara (Neuza Amaral), que se recusa a abandonar a cidade e é tragada pelas águas em sequência que, segundo os produtores, foi emocionante.

Janete também programara uma rebelião popular em Divineia, na qual Azulão sairia como herói. A censura enxergou no episódio uma apologia à guerrilha e obrigou a autora a puni-lo com prisão por seu ato.

“’Fogo sobre Terra’ teve problemas do início ao fim, o que obrigou Janete a reformular a novela algumas vezes (comprometendo a coesão da trama). Mesmo após 12 capítulos inutilizados, a censura foi impiedosa, mas a capacidade criativa de Janete Clair superou as incômodas interferências”, conta o autor e doutor em teledramaturgia brasileira e latino-americana pela USP, Mauro Alencar.

Quem dá mais detalhes sobre a perseguição a Pedro Azulão é seu intérprete, Juca de Oliveira, em entrevista exclusiva por e-mail. Leia:

UOL – Seu personagem era uma espécie de líder comunitário que a censura encarou como subversivo. Eles pedem diversas vezes para interferir no comportamento desse personagem. Você lembra exatamente o que teve que mudar ao interpretá-lo?

Juca de Oliveira – Meu personagem era um camponês, líder natural da sua gente, caipira, boiadero de Divineia, cidade fictícia do Mato Grosso. A ditadura da época tinha pavor de que se repetisse aqui a revolução cubana, um movimento a partir do campo, e via fantasmas em todas as cenas. O Pedro Azulão seria, no imaginário deles, um eventual modelo de Fidel a ser seguido pelos camponeses brasileiros. Uma enorme bobagem. Daí a frequente perseguição dos censores ao pobre Pedro. Vivíamos em pânico. Janete Clair se desdobrava pra aprovar cena por cena, argumentando, tentando convencer aquela gente de que Pedro Azulão era só um boiadeiro simplório apaixonado por sua terra e não um guerrilheiro comandado por Guevara. Um dia, em plena gravação, um assessor da Globo que estivera numa tumultuada reunião na censura entrou apavoradíssimo pelo estúdio aos gritos: “Tem que prender o Pedro Azulão! Pedro Azulão não pode continuar solto por aí!”. A fantasia se misturava à realidade. Não entendo onde a Janete, o Boni, o Avancini, encontraram forças pra continuar. Nós mesmos, os atores, estávamos permanentemente preparados para a prisão. Muitos adotavam o sábio conselho de Mário Lago: “Nunca deixa de ter no bolso sabonete, pasta e escova de dente, porque por lá a higiene é precaríssima…” Depois de tudo isso dá pra acreditar que ainda hoje tem uma meia dúzia de idiotas clamando pelo controle da liberdade de imprensa?

  • Arte/UOL

A novela retratava a construção de uma usina hidrelétrica e a consequente desapropriação de uma pequena cidade. Enquanto isso, era construída a hidrelétrica de Itaipu. Por que os militares viram paralelos com a realidade na novela?

Janete era, além de excepcional escritora, uma ambientalista. Já naquela época, décadas antes de Belo Monte, ela já prenunciava a tragédia das hidrelétricas sobre o homem e o meio ambiente. Não havia nada de político no conflito entre os dois irmãos, mas luta pela preservação ambiental.

Qual era o problema que a censura via na relação entre os personagens Pedro Azulão e Chica Martins [Dina Sfat]?

Chica era uma mulher livre, uma cabocla segura de si e independente. Os militares, além de terríveis reacionários, eram também moralistas e a visão deles sobre a mulher não comportava umaa personagem íntegra como aquela. Pra eles a mulher devia cuidar do tanque e do fogão e só!

Por que a Janete Clair chegou a mandar um documento aos censores reclamando das dificuldades em escrever “Fogo Sobre Terra”? Em que a história original mudou até o final?

Janete foi uma heroína. Brigou, lutou com todas as armas de que dispunha. A censura era tacanha, mas Janete, inteligentíssima, usava também de muita astúcia e quase sempre conseguia dribla-los. E acabava impondo a sua mensagem e a sua ideia absolutamente na íntegra.

O público percebia essas mudanças que ocorriam? Mesmo a novela sendo uma obra aberta, há certas mudanças que tiram o sentido da trama… Rolava muito isso?

Não, a luta contra a censura era uma luta de bastidores. Sabia-se da censura, mas não se conheciam os detalhes.

Os protagonistas das novelas da Janete Clair não eram necessariamente galãs. Eram homens, como dizia meu avô, “da lida”, ou seja, que trabalhavam na terra. Pedro Azulão (ao que parece) era um desses. Por que esse perfil do herói mudou?

COMO PESQUISAR SOBRE CENSURA?

  • Divulgação/Arquivo NacionalBasta marcar horário pelo fone 0/xx/61-3344-8242; o Arquivo Nacional fica no Setor de Indústrias Gráficas, Quadra 6, Lote 800, em Brasília

O protagonista é parte da história. Se a história se passa no campo, na lida, o protagonista deve ser o espelho dessa realidade. A sociedade muda. Em 1970, aproximadamente a metade da população vivia no campo. Hoje, no Estado de São Paulo, por exemplo, 94% da população vive nas cidades e apenas 6% no campo. Claro que a ambientação das novelas também segue essa contingência.

Nas novelas de hoje, quem manda são as mulheres, em especial as vilãs. Você acha que um Pedro Azulão faria sucesso hoje em dia?

O sucesso de um ou uma personagem depende do talento dos artistas envolvidos no processo de criação. Nada é previsível. A tentativa de repetir o sucesso, de copiar, dá sempre em desastre. Uma vilã ou uma freira, se houver verdadeiros talentos envolvidos, dará certo. Ao contrário, qualquer vilã afundará como um prego.

Que novela que você fez ultimamente que vc acha que nunca seria aprovada na época da censura?

“Avenida Brasil”.

 

Uol

Joaquim Barbosa, o herói da mídia

De fato, a jornada do ministro do STF, desde o nascimento, mostra a trajetória de um jovem que não aceitou o destino dos pobres do Brasil. Atentem para o Benedito do seu nome, que longe está de ser algo abençoado, bendito. Benedito é marca com foros de genética, pois era o nome desde a senzala em homenagem ao santo dos pobres, o franciscano negro São Benedito, que virou um qualificativo do passado de violência e exclusão.

No breve resumo da sua vida, Joaquim Benedito Barbosa é filho mais velho entre oito crianças de pai pedreiro e mãe doméstica. Aos 16 saiu de Minas sozinho para Brasília, onde arranjou emprego na gráfica do Correio Braziliense. Então se formou em Direito na Universidade de Brasília e concluiu o mestrado em Direito do Estado. Mais adiante, informa a montagem do seu perfil no STF, seguiu uma reta somente para cima: Chefe da Consultoria Jurídica do Ministério da Saúde, Oficial de Chancelaria do Ministério das Relações Exteriores, ministro do Supremo Tribunal Federal. Ali será presidente. Mas pelo andar da carruagem, ocupará, depois desse estágio, a direção da revista Veja ou da Rede Globo.

Entendam. Na parte Barbosa do seu nome, o ministro Joaquim Benedito tem sido fiel discípulo das aulas de Direito Constitucional, Penal e Administrativo dos jornais brasileiros. No chamado Julgamento do Mensalão, a sua reta vem sendo também ascendente, desde o roteiro montado pela mídia no Brasil, repetido em todas tevês e jornais com pequenas alterações, já antes do julgamento:
O mensalão seria – não, era! – um esquema clandestino de financiamento político organizado pelo PT para garantir apoio ao governo Lula no Congresso em 2003 e 2004, logo após a chegada dos petistas ao poder. Três grupos organizaram e puseram o esquema para funcionar, a saber: o núcleo político, organizado pelo então ministro da Casa Civil, José Dirceu, e integrado por outros três dirigentes partidários que integravam a cúpula do PT no início do governo Lula; o núcleo operacional, de Marcos Valério, dono de agências de publicidade que tinham contratos com o governo federal, para usar empresas com o fito de desviar recursos dos cofres públicos para os políticos indicados pelos petistas; e o núcleo financeiro, o Banco Rural, que deu suporte ao mensalão, alimentando o esquema com empréstimos fraudulentos. Etc. etc.

Além de seguir esse roteiro monótono, repetido à exaustão, em que os jornais anunciam o crime e o relator confirma, o ministro Joaquim Benedito Barbosa nesta semana foi mais longe, em sessão pública, filmada: ele comentou que os partidos políticos no Brasil são todos iguais, pois não se registram diferenças ideológicas entre eles. O que vale dizer, no mundo brasileiro não há diferenças de classe na luta parlamentar, pois os petistas são petralhas, e os socialistas, comunistas e o governo Lula são um saco de gatos ou negócios. Com tal descrédito, o ministro paga o pedágio contra o passado Benedito: os tribunais hão de corrigir o que o povo ignorante elegeu pelo voto.

É natural que Joaquim Benedito recolha agora os frutos da sua glória Barbosa. Todas as noites, até os rincões profundos, em todos os noticiários o ministro aparece. Ele jamais acordará para o que um dia disse de si um personagem de Tchekhov: “Eu não gosto da fama do meu nome. É como se ela estivese me enganando”. Pelo contrário. Diferente do Benedito da sua origem, sobre quem a lenda conta que, preocupado com os mais pobres, furtava alimentos do convento, escondendo-os dentro de suas roupas, mas foi surpreendido um dia pelo novo Superior do Convento, que desconfiado perguntou: “O que escondes aí, debaixo do teu manto, irmão Benedito?”. E o santo humildemente respondeu: “Rosas, meu senhor!” e, abrindo o manto, de fato apareceram rosas de grande beleza e não os alimentos de que suspeitava o Superior…

Diferente das rosas do santo, o ministro Joaquim exibe todas as noites o furto pautado na imprensa. No processo do chamado mensalão, o ministro saiu do STF para um novo STJ, o Superior Tribunal dos Jornais. Lá ele tem os seus diários 5 minutos de fama. Tão pouco, para mudar a glória de uma vida que começou por Benedito e virou Barbosa.

Portal Vermelho