Arquivo da tag: haitiano

Le Figaro mostra que tragédias não abalaram a fé do povo haitiano

Porto Príncipe é uma cidade onde as desigualdades “são gritantes”, onde o belo e o medo se confundem. É assim que uma reportagem publicada na sexta (27) pelo jornal francês Le Figaro relata as duas faces da capital do Haiti, país caribenho que por tantas décadas viveu sob o jugo da França e até hoje paga as consequências de uma interminável dívida econômica questionada por muitas organizações internacionais, e que ainda teve sua situação piorada com o terremoto que abalou a ilha em 12 de janeiro de 2010.

Le Figaro

 

O texto de Laurent Gaude descreve que na parte mais baixa de Port-au-Prince está a maioria, os afetados pelo terremoto que deixou 300 mil mortos e milhares de desabrigados. Nessa região estão os bairros mais pobres como Martissant, La Saline e Cité Soleil, que é considerada a maior favela do Caribe. “Um pouco mais longe da costa, no centro histórico, com o palácio presidencial destruído, o Champ de Mars, está a rua principal. O entulho foi liberado, mas ainda há muitos edifícios em frangalhos, vazios, como estruturas fantasmas”.

 

CURTA o FOCANDO A NOTÍCIA no Facebook

Sobre as colinas, estão os bairros “mais exclusivos” como Petionville ou Black Mountain, onde “a vista é linda, as ruas são limpas”. De acordo com a reportagem, em Porto Príncipe, quanto mais alto você mora, mais rico você é. Mas, quanto ao resto, a capital haitiana não lembra nada o que foi em seus tempos áureos, pois a contínua expansão da cidade com o aumento da população em êxodo, mudou os padrões que o terremoto terminou por transformar em caos.

 

Passados três anos do abalo, o poder político parece agora querer começar a limpar os vestígios da tragédia na cidade com a retirada de entulhos e acampamentos provisórios. Segundo a reportagem, as autoridades haitianas distribuíram vales para cada família poder se realocar, mas os refugiados afirmaram que a distribuição foi aleatória e muitos ficaram sem o recurso.

 

Então, “para onde irão os refugiados do terremoto, com a demolição do acampamento da Place Sainte-Anne?”, questiona o jornal. Sem destino certo, muitos dos ainda desabrigados buscam refúgio – e esperança – na Igreja de St. Anne, o símbolo de que a fé e a religiosidade do povo haitiano não se enfraqueceu, apesar das tragédias sofridas e a prova de que o povo tem força e a cidade tem luz.

 

Para cada haitiano e haitiana, a luz representa algo diferente na cidade ainda frágil e ameaçada, e assim, o país lentamente renasce de suas cinzas, pois ali existem vidas tentando se reerguer e seguir adiante dando um passo de cada vez. E foi neste sentido que a Agência de Informação Frei Tito – ADITAL – lançou o livro Haiti por si: reconquista da independência roubada.

 

A obra foi organizada pela jornalista e editora da agência, Adriana Santiago, e prefaciada pelo Prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel. O livro aborda a história do Haiti, a soberania alimentar, economia, reconstrução, cultura e democracia participativa. Para adquirir o livro clique aqui.

 

 

Adital

Padre haitiano diz que tráfico de pessoas sustenta imigração ilegal para o Brasil

A imigração ilegal de haitianos para o Brasil pode ser caracterizada hoje como tráfico de pessoas. A avaliação é do padre haitiano Onac Axenat estabelecido no Acre, estado que há dois anos  mais recebe imigrantes sem visto.

O missionário da Sociedade dos Sacerdotes de São Tiago (SSST), da Igreja Católica, disse à Agência Brasil que os haitianos gastam até US$ 4 mil, por pessoa, para se submeter a uma “rede de tráfico” composta por vários coiotes que atuam em seu país.

“Alguns [dos imigrantes] venderam tudo no Haiti. A promessa era de que receberiam salários no Brasil entre US$ 1 mil e US$ 2 mil”.

Axenat chegou ao país em 2010, pouco depois do terremoto que atingiu a capital haitiana, Porto Príncipe, e tem atuado no apoio psicológico aos imigrantes ilegais. Para ele, como compatriota e sacerdote é mais fácil fazer com que essas pessoas contem o que passaram e como chegaram ao Brasil.

Um fato que chamou a atenção do missionário foi a mudança de postura dos haitianos que se submeteram às viagens promovidas pelos coiotes. Ele disse que os primeiros a chegar, em 2010, eram mais “abertos e alegres”. Aos poucos eles foram se fechando e nem a ele contam o porquê da alteração de comportamento.

Onac Axenat disse que a última vez em que esteve em Brasileia (AC), cidade fronteiriça com a Bolívia, a única coisa que conseguiu ouvir dos haitianos é que tinham medo. “Padre, eu não posso falar nada ainda. Eu sofro” relatou um deles, segundo o padre.

Ele admitiu que os imigrantes que entram pela Bolívia são vulneráveis ao narcotráfico. O sacerdote ressaltou, entretanto, que “não se pode fazer qualquer colocação negativa [sobre eles] porque não se sabe o que está acontecendo”.

Para conseguir conquistar a confiança dos imigrantes que chegaram mais recentemente, Axenat disse que precisou ser enfático com eles, e lembrar-lhes sua condição de haitiano também, o que ajudou na abertura do diálogo.

Com os olhos marejados, o missionário destacou que apesar do acolhimento do Brasil aos haitianos, em especial dos acrianos, vê com tristeza essa imigração crescente. “O Brasil acolheu muito bem o meu povo, mas o que estou esperando é que se corte esse tráfico de pessoas”.

Onac Axenat destacou que alguns dos imigrantes têm boa escolaridade inclusive com formação profissional. Para ele, depois da devastação causada pelo terremoto, seu país precisa dessa força de trabalho.

“Tudo está concentrado em Porto Príncipe, tudo é centralizado na capital e o terremoto nos paralisou. O emprego não é fácil, mas há o que fazer. O Haiti é o meu país e está no meu coração, temos que pensar no futuro e esse futuro é estar no país e fazê-lo crescer”, desabafou o pároco.

Axenat frisou que os US$ 4 mil pagos por pessoa aos coiotes podem ser usados para se abrir um negócio no Haiti, especialmente no comércio. “Isso [a imigração ilegal e a situação dos haitianos] me faz mal”, admitiu o padre.

Agência Brasil