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Família luta contra preconceito aos soropositivos e mãe carrega culpa pelo HIV

Carol (mãe, 35 anos), Mateus (pai, 38 anos), Paulo (filho, 10 anos), Bernadete (filha, 14 anos) e Carla (filha, 4 anos) é uma família típica do interior da Paraíba. O pai trabalha com gado. A mãe é  empregada doméstica. E os filhos costumam brincar, estudar e ajudá-los no dia-dia. Em 2009, porém, um fato mudaria completamente a vida dessa família simples, que mora na zona rural do município de Patos (na região do Sertão paraibano, a 294 quilômetros de João Pessoa). Um teste de sangue confirmou Carol como soropositiva. Ela portava o vírus da Aids.

Carol (assim como todo os outros dados à essa família, é um nome fictício) mora na zona rural e descobriu por acaso a doença. Ela estava no final da gestação da última filha, Carla, quando uma ginecologista solicitou-lhe um exame de HIV (vírus da imunodeficiência humana).

“Se eu tivesse pensado antes teria evitado muita coisa ruim com minha família. Hoje, eu faria qualquer coisa para voltar ao tempo. Tenho vergonha de estar com meu marido, do que fiz para os meus filhos. Vê-los sofrendo me corta o coração”, disse Carol.

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O medo dos filhos e o marido estarem contaminados mudou a sua vida. Paulo, de 10 anos, é o filho do meio de Carol. Uma criança alegre e comunicativa que sonha em ser jogador profissional. Ele não esconde sua preferência pelo Flamengo (time do coração). Recentemente, também descobriu que estava contaminado pelo vírus da Aids. Ele foi infectado na gestação.

A descoberta só foi possível após Paulo ter uma forte crise de tuberculose e pneumonia. Agora todos os dias, na hora marcada, Paulo tem que tomar um coquetel com quatro tipos de remédios (antiretrovirais) para manter o corpo protegido. Ele ainda não tem noção sobre a gravidade da doença e brinca como uma criança normal.

Filhos da AidsFoto: Paulo (nome fictício) em uma das atividades da Ong
Créditos: Reprodução/Portal Correio

“Tenho um sonho de ser jogador de futebol. Quero brilhar como os jogadores do Flamengo. Tomo estes remédios para ficar igual aos jogadores (história contada pela mãe para forçá-lo tomar o coquetel). Eu até já me acostumei com eles. Não quero ficar mais doente”, revelou o menino.

Esta semana a filha mais nova, Carla, de apenas 4 anos fará um teste para saber se também foi contaminada no período da gravidez da mãe. Já a filha de 14 anos (Bernadete), grávida do primeiro filho, está com medo de fazer o teste de sangue.

Mateus, marido de Carla, culpa a mulher por toda essa situação familiar. Ele também foi contaminado pelo HIV. Quando se descobre a doença, uma crise se instala no casal, é inevitável, segundo os psicólogos. “Quando um casal descobre que tem o vírus, o normal é começar culpar o outro pelo acontecimento. Isto gera uma crise entre os casais que, em sua maioria, acabam se separando”, relatou a psicóloga Juliana Rodrigues.

Esta família é apenas uma das muitas que se infectam com o vírus HIV todos os dias na Paraíba. Segundo Hospital Clementino Fraga (referência no tratamento da doença na Paraíba), no ano passado, foram registrados sete casos de crianças e adolescentes com Aids. As notificações entre paraibanos com idades de 0 a 4 anos saltaram de dois, em 2011, para 7, em 2012. Este ano, já são três registros. No entanto, os números podem não refletir a realidade, visto que ainda há casos de subnotificação, principalmente no interior da Paraíba.

Há algum tempo só nas grandes cidades da Paraíba era possível realizar o teste e isso impedia o controle da doença. Hoje a Paraíba trabalha com a política da descentralização da testagem do HIV. “Entendemos que o teste de HIV tem que ser realizado no município que a pessoa mora para facilitar o tratamento da doença. Temos testes em quase todas as cidades da Paraíba”, disse Roberto Maia, Coordenador do Centro de Testagem e Aconselhamento DST/Aids.

Vitor Buriti é fundador e presidente da ONG Missão Nova Esperança (cuida de crianças soropositivas) disse que, atualmente, as crianças vivem mais tempo e com qualidade de vida. Há na ONG crianças que nasceram com a doença e hoje já tiveram filhos que, provavelmente, não foram contaminados na gestão. “Hoje os coquetéis ajudam a melhorar a qualidade de vida dos pacientes. As crianças quando seguem o tratamento completo vivem uma vida normal e com muita saúde”, explicou Vitor.

Vitor Buriti - presidente da ong Missão Nova EsperançaFoto: Vitor Buriti – presidente da ong Missão Nova Esperança
Créditos: Portal Correio

É o caso de Maria (nome fictício). Soropositiva, ela deu a luz à Fernanda (nome fictício) em 1995. A criança foi infectada pelo vírus da Aids através de transmissão vertical –  uma infecção ou doença a partir da mãe para o seu feto no útero ou recém-nascido durante o parto. Há três meses, Fernanda teve seu primeiro filho.

A doutora Maria Benalva de Medeiros, infectologista do Hospital Clementino, chama este caso de ‘Netos da Aids’. “Hoje o tratamento da Aids tem avançado muito. Podemos dizer que temos até netos da Aids. E se Deus quiser o neto não será contaminado. Mas ainda temos que esperar dois anos para descartar totalmente a doença (são necessários, no mínimo, dois anos para se criar o sistema imunológico da criança)”, disse a doutora Benalva.

O Serviço de Assistência Especializada Materno Infantil do Hospital Universitário Lauro Wanderley (HU) é referência no tratamento nacional de gestantes com Aids. Graças, ao trabalho do médico obstetra Otávio Soares, que desde 2002 implantou metas de qualidade, a unidade conseguiu índice zero de infecções maternas entre as mulheres atendidas no HU. Ele recebe mensalmente cerca de 100 mulheres HIV positivo, entre gestantes e não gestantes, além de realizar o acompanhamento de 400 crianças de até 13 anos que tem o vírus. “Em 1997 chegou até mim o primeiro caso de gestante com HIV. A partir daí montei um projeto que começou a usar o AZT (um dos primeiros tipos de remédios anti Aids) em 45 gestantes. Conseguimos negativar (não transmitir) o vírus em 43 dessas mães”, explicou o médico Otávio Soares.

Aids

O vírus da Aids apareceu primeiro na África no começo do século 20 e se transformou em um problema de saúde global na década de 1980. Nos primeiros anos da epidemia, não havia tratamento. O vírus matou mais de 25 milhões de pessoas nas últimas três décadas, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

A partir da metade da década de 1990 surgiram as terapias com antiretrovirais, e o impacto que tiveram no número de mortes por Aids foi dramático.

 

 

Priscila Andrade