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Leonardo DiCaprio responde acusações de Bolsonaro sobre Amazônia

O ator e ativista ambiental, Leonardo DiCaprio, divulgou um comunicado em resposta às acusações do presidente Jair Bolsonaro: “Embora valha a pena apoiar, certamente não financiamos as organizações que estão atualmente sob ataque. O futuro desses ecossistemas insubstituíveis está em jogo e tenho orgulho de fazer parte dos grupos que os protegem.”

Ainda segundo noticiou a BBC, ele elogiou “o povo do Brasil que trabalha para salvar seu patrimônio natural e cultural”.

O WWF também comunicou que não recebeu doações do ator, cuja Fundação Leonardo DiCaprio se concentra em projetos ambientais. A acusação de Bolsonaro foi ridicularizada pelos oponentes. O senador Randolfe Rodrigues twittou: “Que desesperado. Nosso presidente negligente e incompetente, responsável pelo desmantelamento ambiental sem precedentes, culpa DiCaprio, mas não seu próprio governo, que é incapaz de dar um único passo sem destruir nada”.

Leia abaixo o comunicado completo emitido por Leonardo DiCaprio.

“Neste momento de crise para a Amazônia, apoio o povo do Brasil que trabalha para salvar seu patrimônio natural e cultural. Eles são um exemplo incrível, comovente e humilde do compromisso e paixão necessários para salvar o meio ambiente. O futuro desses ecossistemas insubstituíveis está em jogo e tenho orgulho de apoiar os grupos que os protegem. Embora dignos de apoio, não financiamos as organizações visadas. Continuo comprometido em apoiar as comunidades indígenas brasileiras, governos locais, cientistas, educadores e público em geral que estão trabalhando incansavelmente para garantir a Amazônia para o futuro de todos os brasileiros.”

Leonardo DiCaprio
Ator e ambientalista

O ator publicou o comunicado em suas redes sociais acompanhado de outros dois comunicados de Wes Sechrest Ph.D que fundou a Global Wildlife Conservation e atua como cientista-chefe. E também de Jon Paul Rodriguez  Ph.D que preside a Comissão de Sobrevivência de Espécies da IUCN,

O que o presidente disse?

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, acusou o ator de Hollywood de “dar dinheiro para incendiar a Amazônia” durante um vídeo ao vivo compartilhado na noite dessa quinta-feira (28.11) em seu Instagram. O presidente não tinhas provas, mas no passado acusou as ONGs críticas às suas políticas de iniciar incêndios que devastaram a floresta este ano. DiCaprio, que prometeu US $ 5 milhões para a Amazônia, negou a alegação de Bolsonaro.

Segundo o presidente que voltou a criticar ONGs ambientalistas, a organização seria a mesma responsável pelos incêndios criminosos na Amazônia. “Primeiro me atacaram na questão de derrubada na Amazônia. Depois vieram as queimadas, me acusaram de ser conivente. Falei que suspeitava de ONG’s, pronto. A imprensa comendo meu fígado pelo Brasil, disseram que era irresponsabilidade… Bem, a casa caiu”, disse ele citando a prisão preventiva de quatro brigadistas da organização Brigadas de Alter do Chão do Pará, acusados de serem os responsáveis por queimadas no mês de setembro.

Grupos de direitos humanos, ONGs e críticos afirmaram que a operação policial contra eles era politicamente motivada e uma tentativa de assediar grupos ambientais. Os incêndios que queimaram em agosto deste ano causaram preocupação global pelos “pulmões do planeta”.

Sua mais recente acusação ocorreu durante breves comentários na residência presidencial na sexta-feira. “Este Leonardo DiCaprio é um cara legal, certo? Dando dinheiro para incendiar a Amazônia”, disse citando a organização ambiental, o World Wildlife Fund (WWF), e as alegações, negadas pelo WWF, de que haviam pago pelas imagens tiradas pelos bombeiros presos, que foram libertados desde então.

Bolsonaro disse: “Então, o que a ONG fez? Qual é a coisa mais fácil? Atire fogo na floresta. Tire fotos, faça um vídeo. [WWF] faz uma campanha contra o Brasil, entra em contato com Leonardo DiCaprio, doa US $ 500.000. Uma parte disso foi para as pessoas que estavam incendiando. Leonardo DiCaprio, você está contribuindo para o incêndio na Amazônia, isso não serve”, disse ele.

 

vogue

 

 

Cientistas alertam para incêndios mais intensos na Amazônia

Os incêndios na floresta amazônica provavelmente se tornarão mais intensos, frequentes e generalizados no futuro, a menos que medidas sejam adotadas para conter o desmatamento e a mudança climática, alertaram cientistas antes de uma cúpula de presidentes de países da região, nesta sexta-feira, para discutir o problema.

No Brasil, que abriga a maior parte da maior floresta tropical do mundo, as chamas praticamente dobraram neste ano até o momento na comparação com 2018, e os incêndios também ardem na vizinha Bolívia.

No mês passado, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) informou que o número de incêndios na Amazônia brasileira foi o mais alto desde 2010, o que provocou clamores internacionais por mais proteção.

Pesquisadores disseram que a expansão agrícola em áreas mais profundas da floresta e secas ligadas ao aquecimento global provavelmente desencadearão mais incêndios no ecossistema frágil.

“Existe uma correlação clara entre o número de dias sem chuva, a escala do desmatamento e o número de incêndios florestais”, disse André Guimarães, diretor-executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).

Líderes de nações que fazem parte da bacia amazônica estão se reunindo na cidade colombiana fronteiriça de Letícia, nesta sexta-feira, para debater a melhor maneira de frear o corte de árvores e os incêndios na floresta, que é vista como um escudo vital contra a mudança climática.

Os presidentes de Colômbia, Peru, Equador e Bolívia estarão presentes, além do vice-presidente do Suriname.

O presidente Jair Bolsonaro cancelou planos de viagem devido a uma cirurgia no domingo, mas participará por teleconferência e está enviando uma delegação comandada pelo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

A Colômbia espera que a reunião leve a um plano de ação regional —o Pacto de Letícia para a Amazônia— para proteger a floresta tropical e promover seu uso sustentável.

O ministro do Meio Ambiente colombiano, Ricardo Lozano, disse que o encontro procurará levar em conta “eventos extremos e temperaturas altas”.

MENOS “IMUNE A INCÊNDIOS”

Na floresta amazônica brasileira, o desmatamento diminuiu acentuadamente entre 2004 e 2012, período após o qual o índice voltou a tender para um aumento — e outros países amazônicos também estão testemunhando uma elevação.

Mais árvores estão sendo cortadas ou queimadas para liberar terras para a agricultura e a pecuária, além da mineração e do corte ilegal que continuam sem freios, dizem ambientalistas.

Quando clareiras são abertas na floresta, esta se torna mais suscetível a pegar fogo, disse Mark Cochrane, professor da Universidade do Centro Maryland de Ciência Ambiental.

“Quando você começa a construir estradas, conecta aquela paisagem, por isso os incêndios podem seguir pela vegetação”, explicou.

Florestas que foram danificadas ou desmatadas têm buracos em sua copa, além de mais extremidades que “desprendem umidade”, o que as seca e aumento o risco de incêndios, segundo Cochrane.

“Quando você danifica estas florestas, elas não são mais tão imunes a incêndios quanto eram. Então, ao invés de precisar de meses sem chuva, basta um par de semanas”, acrescentou.

Guimarães, do Ipam, disse que o agravamento das secas também está deixando a floresta mais ressecada, o que aumenta o risco de incêndios.

“As flutuações na umidade na Amazônia estão se tornando cada vez mais perigosas por causa da mudança climática”, disse, acrescentando que atualmente a seca está acontecendo de uma maneira que não se viu nas décadas anteriores.

“LUZ VERDE” DE BOLSONARO

Em agosto, um relatório do painel de ciência climática da Organização das Nações Unidas (ONU) pediu um uso mais sensato da terra, o que inclui impedir que florestas sejam derrubadas e diminuir o consumo de carne, para ajudar a manter o aumento das temperaturas globais dentro dos limites combinados.

Mas o desmatamento na Amazônia brasileira aumentou 67% nos primeiros sete meses de 2019 na comparação anual, e mais do que triplicou só em julho, de acordo com o Inpe.

Os planos de Bolsonaro para desenvolver a agricultura e a mineração na Amazônia, somados aos cortes de financiamento para a fiscalização ambiental, estimularam um salto nas taxas de desmatamento, disseram ambientalistas e cientistas.

“Bolsonaro está essencialmente dizendo aos latifundiários ‘vão em frente, este governo não vai persegui-los’. Ele deu luz verde”, disse William Laurance, professor de pesquisa destacado da Universidade James Cook, da Austrália.

“Alguns cientistas argumentam que 30% de desmatamento da Amazônia bastaria para a floresta tropical entrar em um novo território que destruiria a reciclagem natural de água da floresta, o que teria impactos amplos na precipitação de chuvas, nos incêndios e no clima global”, disse.

Reuters / Brasil 247

 

 

Imprensa nacional aponta deputado Chió como defensor da Amazônia

O deputado estadual Chió (REDE-PB) foi listado pela imprensa nacional como defensor da Amazônia, ao cobrar ações pró-floresta “acima de discussões partidárias e ideológicas”.

Ao lado de deputados, senadores, prefeitos e vereadores de 14 legendas de todo o Brasil que fazem parte da Rede de Ação Política pela Sustentabilidade – RAPS, o parlamentar assinou o manifesto divulgado pela imprensa nacional, a exemplo da Folha de São Paulo, Diário de Pernambuco, entre outros jornais.

O manifesto foi entregue ao presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ) no dia 28 de Agosto, chamando atenção do Brasil para “desatenção do governo federal” com a questão climática e pedindo prioridade para a discussão da Amazônia, acima de qualquer debate partidário e ideológico.

 “O mundo celebra neste 05 de Setembro, o dia da Amazônia. Precisamos unir o Brasil em torno de um debate de proteção da nossa floresta, que supere divergências políticas. Estamos falando da sobrevivência da planeta. Nada é mais importante que garantir a proteção de um bioma responsável direto pelo equilíbrio climático e ambiental em todo o mundo. Estamos pautando essa discussão na Paraíba, através da Assembleia Legislativa”, destacou Chió.

Confira, na íntegra, o manifesto:

“Os acontecimentos recentes em relação à Amazônia colocaram no centro do debate nacional e internacional a política ambiental brasileira e sua importância para o desenvolvimento do país e para a estabilização do clima global.

Nós, líderes políticos eleitos, membros da Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (RAPS), nos manifestamos em defesa da agenda climática, de sua emergência e da necessidade de que o tema, assim como a Amazônia, de interesse de toda a sociedade brasileira, ultrapasse discussões partidárias e ideológicas e seja tratado como prioridade por agentes políticos em distintas posições e esferas.

Ressaltamos, em especial, nossa preocupação com a desatenção do Governo Federal com a questão climática, expressa na diminuição de recursos para o combate efetivo às mudanças do clima, em alterações nas regras para licenciamento ambiental que o tornem mais brando, no crescimento do desmatamento e na desqualificação dos dados científicos sobre o assunto, no avanço de atividades econômicas em áreas de proteção e terras indígenas, nos embates diplomáticos que podem resultar, entre outros, em alterações no Fundo Amazônia e na redução dos espaços de diálogo sobre o tema envolvendo a sociedade civil e outros níveis de governo.

Reiteramos, ainda, nosso compromisso com essas ações, em defesa de um país mais justo, com mais oportunidade e qualidade de vida para todos, capaz de respeitar seus recursos naturais disponíveis e seus compromissos internacionais.”

 

Fonte: Ascom Deputado Estadual Chió (REDE/PB) com Ascom RAPS e Folha de São Paulo.

 

 

PF investigará incêndios criminosos na Amazônia, diz Moro

O ministro da Justiça e Segurança Pública,Sergio Moro, afirmou neste domingo que a Policia Federal investigará possíveis ações incendiárias criminosas na região da Amazônia, após solicitação do presidente Jair Bolsonaro de apuração rigorosa sobre possíveis atos nesse sentido.

De acordo com reportagem publicada no site da revista Globo Rural, mais de 70 pessoas — de Altamira e Novo Progresso, no Pará — entre sindicalistas, produtores rurais, comerciantes e grileiros, combinaram em um grupo do WhatsApp incendiar em 10 de agosto as margens da BR163, rodovia que liga essa região do Pará aos portos fluviais do Rio Tapajós e ao Estado de Mato Grosso.

“A Polícia Federal vai, com sua expertise, apurar o fato. Incêndios criminosos na Amazônia serão severamente punidos”, escreveu Moro no Twitter.

A intenção do grupo, conforme a reportagem da Globo Rural, era mostrar ao presidente Jair Bolsonaro que apoiam suas ideias de ‘afrouxar’ a fiscalização do Ibama e quem sabe conseguir o perdão das multas pelas infrações cometidas ao Meio Ambiente. A data ficou conhecida como o “dia do fogo” no Pará.

Também no Twitter, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, acrescentou que Bolsonaro determinou “abertura de investigação rigorosa para apurar e punir os responsáveis pelos os fatos narrados”.

Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que acompanham as queimadas afirmaram à Reuters no começo da semana que registraram aumento dos focos nos dias 10 e 11 nas regiões de Novo Progresso e Altamira.

O governo brasileiro vem sofrendo forte pressão externa em razão dos recentes incêndios e do aumento no desmatamento na Amazônia. Mais cedo, Bolsonaro afirmou no Twitter que o Brasil é um país comprometido “com a proteção ambiental”.

Neste domingo, o presidente da França, Emmanuel Macron, disse que os líderes do G7 estavam próximos de um acordo sobre como ajudar a combater os incêndios na floresta amazônica e tentar reparar a devastação.

 

Reuters

 

 

Desmatamento na Amazônia cresce 215% em um ano, segundo o Imazon

amazoniaEm um ano, o desmatamento na Amazônia aumentou mais de 200%. O número foi calculado pela organização não-governamental Imazon.

O instituto de pesquisa Imazon, em Belém, monitora o desmatamento na Amazônia há mais de 20 anos. No levantamento divulgado esta semana, foram derrubados 1.700 quilômetros quadrados de floresta nativa, entre agosto de 2014 e fevereiro deste ano. A área desmatada é maior que a cidade de São Paulo. Comparando essa derrubada com o período anterior, o desmatamento na Amazônia aumentou 215%.

“A perspectiva é se continuar nessa tendência de aumento do desmatamento, a gente ainda vai detectar um crescimento nas estatísticas do desmatamento nos próximos meses”, diz Marcelo Justino, pesquisador do Imazon.

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Segundo o Imazon, quase a metade do desmatamento ocorreu em áreas particulares, onde a floresta veio abaixo para a expansão da pecuária, principalmente no Mato Grosso. No Pará, o desmatamento foi provocado em grande parte pela grilagem, que é a invasão de terras públicas. Já em Rondônia, segundo os ambientalistas, as árvores vêm sendo destruídas para dar lugar à agricultura.

Do total desmatado nos últimos sete meses, o estado que mais destruiu a floresta foi Mato Grosso (35%), depois Pará (25%) e Rondônia (20%).

Os analistas também fazem outro alerta: como os satélites do Imazon só detectam o desmatamento em áreas acima de dez hectares, os números da derrubada da floresta podem ser ainda mais altos.

O Ministério do Meio Ambiente disse que não comenta os dados de desmatamento da Amazônia divulgados pelo Imazon por não considerá-los oficiais.


G1

Operação na Amazônia visa sobrevivência da etnia mais ameaçada do mundo

indioEstá em curso no Amazônia maranhanse uma das maiores operações já realizadas pelo Estado brasileiro para desintrusão de uma terra indígena. Trata-se da desocupação de uma área de 116 mil hectares destinada à etnia awá-guajá desde 1992, onde atividades ilegais como a extração de madeira e até o plantio de drogas já consumiram mais de 40% da cobertura florestal e colocam em risco a existência da etnia que está entre os últimos remanescentes dos povos amazônicos sem contato com o que é chamado de “civilização”. Em 2012, a ONG Survival Internacional a classificou como a mais ameaçada do planeta.

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Nômades, coletores e caçadores, os awá-guajá são classificados pela Fundação Nacional do Índio (Funai) como índios isolados, que demandam farto território para preservar seu modo de vida tradicional. Entretanto, com as ocupações irregulares dos últimos anos, vêm sofrendo um extermínio progressivo, causado pelas doenças provenientes do contato. Há suspeitas até mesmo de execuções sumárias comandadas pelo crime organizado que atua na região. “A situação da etnia é de vulnerabilidade extrema. É o processo mais próximo do que se pode chamar de genocídio, hoje, no Brasil”, alerta o chefe da Coordenação Geral de Índios Isolados da Funai, Carlos Travassos.

Embora as terras dos awá-guajás tenham sido destinadas aos índios há duas décadas, ela só foi demarcada oficial por ato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003. A luta judicial pela posse da terra se arrastou por dez anos, e a decisão que determinou a desintrusão tramitou em julgado somente em 2013.

Para cumpri-la, o governo federal destacou para a área um contingente não divulgado de servidores públicos de diferentes áreas, incluindo Incra, Ibama, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Abin e Forças Armadas, além da Funai e da Secretaria Geral da presidência da República, que coordenam a operação.

Mesmo assim, a tarefa não tem sido fácil. Além das dificuldades geográficas inerentes à mata fechada, a força econômica que se impôs no local resiste. E usa, para tal, centenas de brasileiros simples, humildes, que se estabeleceram na área em busca do sonho de ter seu próprio pedaço de terra. Segundo o coordenador-geral dos Movimentos do Campo da Secretaria Geral da Presidência da República, Nilton Tubino, os invasores entraram ali ciente de que as terras pertenciam aos índios. Portanto, não têm direito a nenhum tipo de indenização.

O Estado, porém, reconhece entre eles uma maioria de brasileiros simples – pequenos agricultores que vivem da plantação de mandioca, do extrativismo na floresta ou que trabalham nas grandes fazendas vizinhas. Por isso, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) acompanha a operação com o intuito de identificar e cadastrar possíveis beneficiários da reforma agrária, que serão inseridos em lotes vagos de assentamentos já criados e em outros, em estudos, em terras a serem adquiridas na região ou em terras devolutas da União e do Maranhão. Mas na área também há médios e grandes grileiros, inclusive na atividade pecuária, que terão que deixar o local.

Na semana passada, o governo concluiu a notificação para retirada voluntária das 427 famílias que vivem na área. O prazo termina no final de fevereiro. Até o momento, só 235 famílias requisitaram cadastramento no Incra. De acordo com Tubino, os motivos da baixa adesão vão desde a falta de documentos pessoais até a incredulidade de que o governo irá levar a cabo a missão de desobstruir à área. O problema da falta de documentação, mais fácil de resolver, levou outras equipes de servidores públicos à regiçao. Até o início desta semana, foram expedidas 105 carteiras de trabalho e 75 CPFs. E 28 famílias foram inscritas no Bolsa Família, o principal programa social do governo. A campanha termina nesta sexta (7).

Já o problema da desinformação é mais grave. Os madeireiros que lucram com a devastação da área não querem abrir mãos de suas atividades criminosas e, por isso, incitam os pequenos a permaneceram na terra indígena, prometendo que a terra deles será regularizada. Informação oficial e contrainformação do poder econômico local disputam corações e mentes de pouca instrução e pouca fé em um Estado que demorou décadas para se fazer presente.

Histórico awá-guajá 

De acordo com Carlos Travassos, há relatos da presença dos índios awá-guajá na região desde o século XVII. O primeiro contato oficial, entretanto, ocorreu em 1979, quando a política indigenista da ditadura promovia a atração dos grupos classificados como arredios, com o objetivo de fixá-los em uma área específica e, assim, facilitar o atendimento médico e a segurança alimentar do grupo. O pano de fundo, entretanto, era a necessidade de extinguir os conflitos na Amazônia para a construção dos grandes projetos do regime, como a Estrada de Ferro Carajás.
Nos anos seguintes, mais seis contatos foram realizados. Deles, resultaram a criação de duas aldeias awá-guajás que possuem hoje, juntas, 400 índios. “A desintrusão chega em um momento em que a aldeia Juriti, por exemplo, tem seu espaço de caça restrito há 6 km, enquanto antes era de vários dias de caminhada.Se o Estado não intervir, eles morrerão de fome”, explica Travassos.

Há também outros grupos que, para evitar o contato com as frentes de atração, embrenharam-se cada vez mais na mata. O número de indivíduos nessas condições é impreciso. Monitoramento que vem sendo realizado pela Funai, desde 1997, aponta que pelo menos dois grupos familiares ainda vagam pela região.

Entretanto, suas condições de sobrevivência estão cada vez mais difíceis.

O coordenador da Funai lembra também que, desde o fim da ditadura, a política indigenista brasileira mudou. Se antes a meta era o aldeamento forçado, o objetivo hoje é respeitar o modo de vida tradicional das etnias, demarcando território suficiente para que possam viver isolados, se assim o quiserem. “O contato traz, historicamente, uma média de perda de 50% da população”, justifica o indigenista.

Planos futuros

De acordo com o coordenador-geral dos Movimentos do Campo da Secretaria Geral da Presidência da República, a previsão inicial é que a operação de retirada dos não-índios esteja concluída até o final de março, inclusive com a destruição de todas as construções erguidas na área. A etapa seguinte constará do fechamento de todas as estradas abertas por madeireiros e plantadores de drogas, o que dificultará o acesso ao local.

O chefe da Coordenação Geral de Índios Isolados da Funai acrescenta que há planos também para a construção de uma estrada perimetral, no contorno da terra indígena, que permita ao poder público efetuar um monitoramento mais intenso da área. Além disso, está em andamento a construção de uma base de operações do poder público na área. Há ainda, projetos de reflorestamento da área descoberta da floresta que envolve, inclusive, índios que vivem em aldeias vizinhas.

Uma outra ação prevê uma campanha de educação etnoambiental a ser efetivada nos quatro municípios em que a terra indígena está cravada, além de outros cinco do entrono. “São municípios pobres, que vivem basicamente da madeira. Se não houver uma ação pontual do poder público federal em parceria com estado e municípios, as invasões vão continuar e as doenças e outros problemas sociais, como alcoolismo e drogas, acabarão atingindo os awá-guajás”, afirma Travassos.

Créditos da foto: Arquivo
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Operário da Arena da Amazônia sofre grave acidente e vai para o hospital

Na manhã desta sexta-feira, a Arena da Amazônia, estádio de Manaus para a Copa 2014, teve mais um capítulo ruim. O operário Antônio José Pita Martins, de 55 anos, sofreu um grave acidente e foi encaminhado ao Pronto Socorro 28 de Agosto, na Zona Centro-Sul de Manaus. O trabalhador estava desmontando um dos guindastes da cobertura quando uma peça caiu em sua cabeça, segundo informações de operários.

Operário Arena da Amazônia (Foto: Camila Henriques)Operário teve traumatismo craniano (Foto: Camila Henriques)

A assessoria de imprensa da Unidade Gestora do Projeto Copa no Amazonas (UGP Copa) confirmou o acidente com o operário e informou que o trabalhador era de uma empresa terceirizada. Apesar do fato, a UGP confirmou que o rapaz está vivo, foi levado para o Pronto-Socorro 28 de agosto, e, em seguida, foi transferido para outro Pronto-Socorro, o João Lúcio, na Zona Leste.

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Segundo informações do secretário de saúde do Estado, Wilson Alecrim, o operário está com escoriações no ombro direito, alterações na respiração e traumatismo craniano. No momento está sedado, passando por tomografias, para avaliar se será necessário realizar cirurgia e encaminhá-lo para UTI.

Info ACIDENTE ARENA DA AMAZÔNIA (Foto: Infoesporte)Local onde Antônio trabalhava no momento do acidente (Foto: Infoesporte)

De acordo com um dos operários que presenciou o acidente, mas que nãos quis se identificar, o episódio ocorreu por volta das 8h (10h de Brasília). Ele informou que o socorro demorou por volta de 40 minutos para chegar. Um dos diretores do sindicato dos trabalhadores, Francisco Sarmento, tentou entrar no estádio, mas foi impedido pelos seguranças.

Logo após o acidente, peritos do Ministério Público do Trabalho do Amazonas visitaram o local onde ocorreu o acidente. De acordo com a assessoria do órgão, ainda nesta sexta deverá ser dado um posicionamento.

O coordenador da UGP Copa, Miguel Capobiango, informou que o acidente não alterará o cronograma das obras do estádio. Isso porque o fato ocorreu fora do estádio, na área do sambódromo. Nesta manhã, um dos representantes da empresa Martfer, responsável pelo setor de guindastes entrou no estádio, mas não quis falar com a imprensa. Já a Andrade Gutierrez, responsável pela obra da Arena da Amazônia, disse, por meio da assessoria de imprensa, que encaminhará nota.

Histórico de acidentes

No ano passado, a Arena da Amazônia teve duas mortes de operários. A primeira ocorreu no dia 28 de março. O operário Raimundo Nonato Lima Costa morreu após ter caído de uma altura aproximada de 5 metros, após tentar passar de uma coluna para um andaime. A outra morte ocorreu no dia 14 de dezembro do mesmo ano. O operário Marcleudo de Melo Ferreira, de 22 anos,caiu de uma altura aproximada de 40 metros, quando trabalhava no guindaste que fazia a instalação da cobertura.

Visita do governador cancelada

Na manhã desta sexta-feira, estava prevista uma vistoria do governador do Amazonas, Omar Aziz. No entanto, com a notícia do acidente, a visita foi cancelada. A Arena da Amazônia está com 98,58% das obras concluídas e deverá ter as obras finalizadas no dia 14 de fevereiro.

Por Alírio Lucas (com supervisão de Silvio Lima) e colaboração de Camila Henriques, do G1 Amazonas

Justiça determina interdição de obra na Arena da Amazônia, no AM

estadioA Justiça do Trabalho determinou a interdição das obras na Arena da Amazônia, que receberá os jogos da Copa do Mundo de 2014, em Manaus (AM). O órgão acatou o pedido do Ministério Público do Trabalho da 11ª região (MPT 11ª região) feito na noite do sábado (14), devido a morte de um operário que caiu de uma altura de 35 metros durante a madrugada.

No documento, os procuradores Maria Nely Bezerra de Oliveira, Renan Bernardi Kalil e Jorsinei Dourado do Nascimento afirmam que o pedido de interdição das obras está baseado na reincidência de acidentes no local. Segundo eles, os operários foram vítimas de acidente de trabalho devido ao descumprimento de normas de segurança.

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“A partir do meio dia de hoje a obra está interditada. Nós acompanhamos o processo de entrega da notificação. Amanhã [segunda-feira[ será feita perícia a partir das 8h [hora local]”, disse o procurador Jorsinei Dourado do Nascimento.

Visita à obra
No fim da manhã do domingo (15), os procuradores acompanharam a entrega da notificação da empresa responsável pelas obras na Arena da Amazônia, estádio de Manaus para a Copa do Mundo de 2014.

O pedido de interdição imediata de todos os setores da obra da Arena da Amazônia que envolvem atividades em altura foi protocolado na tarde desse sábado, após a morte de um operário.

A Construtora responsável pela obra terá que apresentar um atestado de atendimento dos requisitos mínimos e das medidas de proteção para trabalho em altura, previstos nas Normas Regulamentadoras nº 35 e 18 do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

De acordo com MPT, em caso de descumprimento do previsto, a empresa deverá pagar multa no valor diário R$ 200 mil, para o caso de descumprimento da medida judicial de interdição.

G1 tentou contato com a Unidade Gestora do Projeto (UGP) Copa e com a Construtura Andrade Gutierrez, em Manaus, mas as ligações não foram atendidas.

Mortes
O operário da Arena da Amazônia Marcleudo de Melo Ferreira, de 22 anos, caiu de uma altura de 35 metros por volta das 4h deste sábado (14). Ele foi encaminhado a um hospital, mas faleceu nesta manhã. Um outro trabalhador, José Antônio da Silva Nascimento, de 49 anos, morreu enquanto trabalhava nas obras do Centro de Convenções do Amazonas (CCA), ao lado da Arena da Amazônia, no fim da manhã. Agência de Comunicação do Amazonas (Agecom) confirmou a causa da morte por infarto.

Em março deste ano, outro operário da arena, Raimundo Nonato Lima da Costa, de 49 anos, morreu enquanto trabalhava. Ele teria se desequilibrado e caído de uma altura estimada de cinco metros após tentar passar de uma coluna para o andaime, segundo a Polícia Militar (PM). A morte foi ocasionada por traumatismo craniano.

Fifa lamenta
Após a morte do operário Marcleudo de Melo Ferreira na Arena da Amazônia, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, lamentou a fatalidade em um comunicado no Twitter. “Muito triste com a morte trágica de um jovem trabalhador na Arena Amazônia hoje. Meus sentimentos à família dele”, disse.

 

G1

Desmatamento na Amazônia recebe pouca atenção da imprensa

desmatamentoApesar de ter reduzido consideravelmente as taxas anuais de desmatamento na Amazônia, o Brasil ainda é o País que mais desmata no mundo. No último ano (agosto de 2012 a julho de 2013), o desmatamento aumentou 28% em relação ao ano anterior. Mesmo assim, nos seis anos entre 2007 e 2012, a média de matérias sobre desmatamento em 44 jornais regionais e nacionais analisados pela ANDI foi de uma matéria por semana. Muito pouco, se comparada à média de matérias de outros temas analisados pela ANDI no passado.

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Se apenas os jornais de circulação nacional forem considerados (O Globo, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Correio Braziliense), a média de matérias passa para três matérias por semana. Mesmo assim, apenas 1% das matérias publicadas no período são investigativas e 2% são editoriais, com os veículos tomando posição sobre o assunto.

Apesar disto, a Análise de Mídia “Imprensa e Desmatamento na Amazônia” traz algumas boas notícias:

– A imprensa brasileira faz a ligação entre desmatamento e mudanças climáticas (que foi o tema principal de 11,7% dos textos) e políticas ambientais (11,3%).

– A mobilização das ONGs ambientalistas repercute na pauta. Elas têm credibilidade enquanto fontes de informação.

– As organizações da Sociedade Civil foram ouvidas em 15,6% dos textos. Aquelas voltadas a causas ambientais foram ouvidas em 12,3%.

– Temas relacionados ao Desenvolvimento têm presença significativa na cobertura sobre o desmatamento: um terço dos textos (33,4%) relaciona de alguma forma o desmatamento com o debate sobre Desenvolvimento.

A Análise, que também incluiu as quatro principais revistas semanais de notícias (Veja, Época, Isto É e Carta Capital) compilou alguns dados que podem balizar o esforço em cobrir mais e melhor uma pauta que tem desdobramentos importantes e alcançam desde o modelo de desenvolvimento escolhido para o País, até a integridade da maior floresta tropical do mundo, que funciona como reguladora de umidade e clima para outras regiões e cuja destruição pode afetar o País e o mundo.

– As ações governamentais impulsionaram o noticiário dosjornais: quase metade (47,8%) das matérias têm origem em cobertura de atos das três esferas de governo e somente 14,2% das matérias foram realizadas por iniciativa da própria imprensa.

– O foco institucional (enquadramento) da cobertura sobre desmatamento é fortemente associado ao Poder Executivo (49,6%).

– Menos de um quarto dos textos (23,4%) mencionam soluções para o desmatamento. Nesse conjunto, o Governo Federal é apontado como principal responsável pelas soluções (54% das vezes).

– Produtores rurais são ouvidos como fonte de informação em menos de 3% das notícias.

– Demandas e ações da Sociedade Civil motivaram 4,6% da cobertura dos jornais.

– Somente 16% das matérias citam alguma população vulnerável ao problema. Povos indígenas são os mais mencionados (51,4%), seguidos por povos da floresta (17,3%) e população rural (11,6%).

– Organizaçõesda Sociedade Civil foram ouvidas em 15,6% dos textos. Aquelas voltadas a causas ambientais foram ouvidas em 12,3%.

“Trabalhamos com 1,5 mil matérias e há material de ponta, matérias premiadas inclusive. Mas esta é uma pauta complexa e estratégica e precisa de cobertura cotidiana”, afirmou Veet Vivarta, secretário-executivo da ANDI, no debate de lançamento da análise, realizado no dia 10 de dezembro, em São Paulo.

A repórter especial do Valor Econômico, Daniela Chiaretti, que participou do debate argumenta que “é caro enviar jornalistas para a Amazônia” e lembra que jornais locais enfrentam dificuldades maiores para cobrir o tema. Além de ressaltar que é “difícil saber o que está acontecendo no meio da floresta” e admitir que é um problema “tornar a Amazônia interessante para quem não conhece a sua realidade”.

O analista ambiental Mauro Pires, que foi o consultor técnico da análise produzida pela ANDI com apoio da Aliança para o Clima e Uso da Terra (CLUA), resume: “Sem mostrar para a imprensa que ela cobre pouco a questão, a situação não vai mudar”.

Confira na íntegra a publicação Imprensa e Desmatamento na Amazônia.

 

Portal Andi

A substância retirada de um anfíbio da Amazônia, usada pelos índios em rituais

Vacina-do-sapoRemédio ou veneno? Uma substância extraída de um sapo da Amazônia vem sendo usada como um suposto remédio pra várias doenças. Só que na verdade pode até matar. A polícia investiga quem está por trás desse comércio proibido, como mostra agora o repórter Marcelo Canellas.

Maravilha curativa? “O kamboa é um depurativo da limpeza do sangue, da pele, corta tipo de diabetes, colesterol, problema de doenças infecciosas. Ele vai curando tudo”, explica o ambulante José de Sousa.

 

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Ou um veneno mortal? “Ele tomou o negócio e, em um minuto ou dois, ele passou mal, foi para o banheiro, evacuou e enfartou no banheiro, lembra uma testemunha.

Uma substância retirada de um anfíbio da Amazônia – usada pelos índios em rituais xamânicos e pelos caboclos como remédio – foi proibida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

Conhecida como vacina do sapo, ela é objeto de uma investigação policial que envolve contrabando, biopirataria e até a morte de uma pessoa.

Estivemos no oeste do estado do Amazonas, a caminho de Atalaia do Norte. No local não há quem ao menos não tenha visto os poderosos efeitos da vacina do sapo.

“Já vi, mas não tive coragem, porque a pessoa passa mais de vinte minutos fazendo efeito, o negócio lá”, diz o taxista Raimundo Falcão. Ele conta que já levou muita gente ao local.

O táxi nos leva a um aldeamento dos índios marubos. Eles acabam de chegar da mata. Eis o famoso kambô, kampô ou kamboa, como é chamado dependendo da região da Amazônia, cujo nome científico é philomedusa bicolor.

“Ele tem hábito noturno, então de dia parece que fica meio molinho. Os índios amarram as patas do bichinho e o esticam entre duas estacas.

O pajé raspa levemente o corpo do animal para extrair o veneno. Ao fim da retirada, os índios devolvem o bicho à mata. A substância pastosa é colocada numa palheta de madeira. Os marubos tomam a vacina desde cedo.

O pajé usa um pedaço de cipó incandescente para queimar a pele do garoto. Depois, aplica a secreção diretamente na queimadura. O veneno entra na corrente sanguínea e começa a agir. Sabendo que vai passar mal em poucos segundos, o garoto corre para a beira do rio. A irmã dele, Neidilene Marubo, tenta ajudá-lo. “Ele está se sentindo tonto. Sente a cabeça rodando e dá vontade de vomitar”, conta.

Em seguida, é ela quem toma a vacina. “Tenho medo, mas tem que tomar para tirar a preguiça e poder trabalhar”, diz Neidilene.

Eles acreditam em poderes mágicos. Tomando a vacina, os homens se tornam caçadores hábeis. As mulheres ganham destreza para o artesanato.

E todos sentem o mesmo desconforto. São poucos minutos e o efeito é quase imediato. Apesar desse sofrimento todo, os índios vivem assediados por gente que vem de longe em busca da secreção. Horácio Marubo de Oliveira revela: “Já veio gente de vários lugares, estrangeiros”.

“Nos preocupa muito na Funai a venda desse conhecimento agregado também, o conhecimento xamânico do povo marubo, como vocês estão aqui entrevistando eles”, afirma o coordenador regional do Vale do Javari Bruno Pereira.

A Funai já recebeu dezenas de denúncias: estrangeiros estariam comprando o veneno do kampô em várias partes da Amazônia.

Fantástico: O estado brasileiro teria como fiscalizar isso e impedir a retirada dessa substância?

Bruno: É como procurar uma agulha num palheiro. Qualquer turista com acesso a essa região pode chegar aqui facilmente e conseguir um mateiro, independente de ser índio ou não, e ter acesso ao sapo.

No Acre, o assédio é sobre os kashinawás. Quem os procura? “Eles são brancos, altos e outra língua, a pessoa não entende a língua deles. Vêm à procura da palheta com o veneno. E vêm outras pessoas pra traduzir a língua deles”, conta o agente de saúde Nonato Kashinawá.

Só na aldeia dele, já saíram muitas palhetas. “Venderam mais de cem palhetas já”.

Tudo por causa da fama nunca comprovada de remédio potente capaz de curar da dor de cabeça ao diabetes.

É justamente esse mistério que envolve as supostas propriedades medicinais da vacina do sapo que atrai pessoas de outras regiões do Brasil e até do exterior. A Polícia Federal monitora o movimento de estrangeiros que estariam assediando índios e caboclos em busca da secreção extraída do animal.

Com a ajuda da Embrapa, que desenvolveu um método para identificar a secreção, os peritos conseguiram analisar o material apreendido. “Todas, até o momento, que chegaram com a suspeita, ela foi confirmada. Era a vacina, a secreção da philomedusa bicolor”, afirma o perito da PF César Silvino Gomes.

A investigação corre sob sigilo, mas a polícia já ouviu as primeiras testemunhas. “Algumas pessoas, inclusive estrangeiros, que estariam extraindo produtos oriundos do sapo. Há notícias de que essas pessoas estariam, inclusive, enviando ao exterior esse material”, conta a delegada Anne Vidal Moraes.

Qual a razão dessa procura? Quais seriam os efeitos medicinais de uma substância tão agressiva?

O biólogo do Instituto Butantan de São Paulo Carlos Jared esclarece: “Vacina do sapo! Eu sempre falo: não tem outro nome de falar, mas é totalmente errado. Porque não é vacina. E também não é sapo”.

O professor explica que o kampô é, na verdade, uma perereca. E que a secreção que ela libera é um veneno com centenas de componentes.
“Você tem um monte de contraindicações que seriam as substâncias do caldeirão da bruxa, que é a glândula de veneno da perereca. Tem substância que causa vômito, que causa diarréia, e outras tantas substâncias, que é exatamente o problema, que não se conhece. Esse caldeirão da bruxa é muito pouco conhecido”.

Cruzeiro do sul, Acre. Campus da Universidade Federal. Um pesquisador estuda o kampô há sete anos. O biólogo Paulo Sérgio Bernarde é fascinado pela philomedusa bicolor.
“Tem umas ventosas, almofadas digitais. Praticamente ele escala”, explica.

Para ele, a aplicação medicinal da vacina ainda é um mistério: “Nós não sabemos ainda, cientificamente, qual é o benefício da aplicação do veneno bruto em uma pessoa”.

O professor já tomou dez doses da vacina. “A primeira vez foi curiosidade científica. Eu tinha que experimentar”, explica Paulo Sérgio.

Ele está indo tomar sua décima primeira. E, desta vez, vai monitorar seus batimentos cardíacos.

“O batimento cardíaco está 76. Esse vai ser o melhor indicativo para gente ver a alteração durante o processo. Ele vai queimar a minha pele no ombro. Ele coloca bem no local dos pontos das queimaduras. Agora a reação vai ser praticamente imediata. A gente já percebe que tem alguma coisa estranha no corpo. Você sente um calor agora percorrendo o corpo, O batimento cardíaco foi para 117. Agora começou a outra parte também desagradável da aplicação, que é uma dor no estômago. Eu devo estar vermelho, o olho deve estar ficando vermelho, inchado. A dor  na região do estômago  está aumentando. Como se o corpo inteiro formigasse”, descreve o professor.

Só vinte minutos depois os batimentos cardíacos começam a cair. “Está 100, está voltando ao normal”.

Não deixa de ser muito estranho que as pessoas procurem tanto isso para passar tão mal. O professor completa: “Eu até brinco: nos primeiros cinco minutos você pensa que vai morrer, com dez minutos, você tem certeza!”

Em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, a morte veio de verdade. “Chamaram o resgate e ele morreu lá mesmo. Quando o resgate chegou ele já estava morto”, lembra uma testemunha.

O irmão deste homem morreu em 2008, minutos depois de receber a vacina. Quem aplicou foi um comerciante que trouxe uma palheta do Acre. “Diz que sarava colesterol, diabetes, até câncer. Na hora que ele teve a aplicação e começou a acelerar o batimento cardíaco dele”, conta.

O comerciante foi embora da cidade. Denunciado por curandeirismo, e com direito de permanecer em liberdade, ele ainda está sendo processado. Embora a necropsia não tenha detectado nenhuma substância estranha no corpo da vítima, a polícia acredita que foi a vacina que a matou.

“Não pelo veneno, mas sim pelos efeitos. Se ele tivesse uma pré-doença, uma pré-doença cardíaca, e ele tem o aumento significativo da pressão e do batimento cardíaco, isso pode levar a um infarto, que foi a causa indicada como morte”, explica o delegado Vicente Lagioto.

“O kambô é milenar e ocorreu uma morte. E a gente não reclama das mortes que acontecem todos os dias nos hospitais. Acho que a proporção é injusta falar que o kambô gerou uma morte”, diz um psicoterapeuta. Quem defende a aplicação da vacina do sapo como método da chamada medicina da floresta é o terapeuta Amir El Aouar.

“Eu não sou médico. Eu sou psicoterapeuta de formação na linha transpessoal, da psicologia transpessoal, que é uma coisa pouco conhecida no Brasil, mas largamente difundida no mundo afora”, explica Almir.

Ele nos recebe numa casa ampla, na Vila Madalena, Zona Oeste de São Paulo. “Eu não só recomendo como faço uso e sinto os benefícios. Justamente por sentir esses benefícios é que eu recomendo”.

Amir diz que elimina os riscos ao monitorar pessoalmente os pacientes: “A capacidade no âmbito psicoterapêutico e uma avaliação através de perguntas se a pessoa está usando determinado tipo de medicamentos, a gente já não corre o risco”.

E nos apresenta dois aplicadores de kampô, que vieram do Acre: Francisco e Francisca. Todos sabem que a Anvisa proibiu a venda da vacina do sapo, no que dizem estar de acordo.

“Ocorreu de venderem uma palheta de kambô a R$ 18 mil aqui. Já aconteceu isso, e a gente não admite esse tipo de coisa”, diz Almir.

E, para não infringir as regras da Anvisa, propõe demonstrar a aplicação em uma pessoa conhecida. A atriz Anna Fecker é nora de Francisco e Francisca. Ela já tomou a vacina várias vezes.

“O kambô vai buscar no seu organismo o que está errado e aí ele vai consertando, entendeu?”. Sob a supervisão de Amir, Anna toma uma dose.

“As pessoas confundem o passar mal com essa reação, que a é uma reação natural do tratamento”, esclarece o terapeuta.

Depois, o próprio Amir recebe a sua. “Sagrada medicina cura. Minha mão já começa a formigar. Sagrada medicina cura, desvela o ser e cura”, canta. Com o complemento do rapé e de um colírio feito com uma raíz da Amazônia.

Em Brasília, a Anvisa informa que, não apenas o comércio, mas o uso terapêutico de uma substância sem registro oficial é proibido.

“O que a legislação sanitária prega é que qualquer insumo que você não tenha conhecimento da procedência dele, que não tenha nenhuma garantia da eficácia terapêutica, a recomendação é de que não seja utilizado”, explica José Agenor Alvares da Silva, da Anvisa.

Perguntado se não tem receio de, ao recomendar a pacientes em São Paulo, ele possa estar cometendo alguma ilegalidade em função dessas proibições, Almir esclarece: “Na verdade, eu, particularmente, não recomendo que seja feito a aplicação aqui em são Paulo. Eu recomendo que ela seja feita no Acre”.

Para a polícia de São Paulo, qualquer terapia que use a vacina do sapo está fora da lei.

“Às vezes, para a população se vende assim: esse produto é natural, então eu posso tomar, isso não vai fazer mal para mim. E não é assim. Na natureza, essa substância tem uma função de veneno”, alerta o delegado Vicente Lagioto.

Fonte: Fantástico