Sensação térmica em ônibus que circulam em Niterói bate 50 graus

Publicado em sábado, Fevereiro 15, 2014 ·

Niterói embarcou, na última quarta-feira, em quatro ônibus que circulam pela Região Oceânica, pelas zonas Sul e Norte e pelo Centro para registrar a temperatura e calcular a sensação térmica a bordo dos veículos. 

Técnico da UFRJ, Igor Balteiro, registra a temperatura e a umidade em um ônibus da linha 49 ( Fonseca-Centro) fábio rossi
Técnico da UFRJ, Igor Balteiro, registra a temperatura e a umidade em um ônibus da linha 49 ( Fonseca-Centro) fábio rossi

A equipe de reportagem suou a camisa – literalmente – para cumprir a missão. Assim como o valor da tarifa, que aumentou hoje de R$ 2,75 para R$ 3, a marca do termômetro subiu assim que a viagem começou. Na Alameda São Boaventura, no Fonseca, o termômetro marcou 43,4 graus a bordo de um ônibus. A sensação térmica era de 50 graus.

Melhora mesmo, apenas em 2016

De acordo com o Sindicato das Empresas de Transportes Rodoviários do Estado do Rio de Janeiro (Setrerj), somente 21% dos ônibus de Niterói têm ar-condicionado. Isso corresponde a 170 veículos — a frota da cidade conta com 799. Segundo o Setrerj, o município ganhará 27 ônibus refrigerados no mês que vem. Porém, o sufoco da maioria dos passageiros só deverá passar mesmo em 2016. Esse é o prazo previsto num contrato assinado entre as concessionárias que exploram o sistema e a prefeitura. Ainda assim, o acordo só determina que 80% da frota tenha ar-condicionado.

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Numa nota, o sindicato justifica a situação atual: “O contrato não prevê que todos os carros tenham obrigação de oferecer ar-condicionado. Pelo acordo firmado em 2012, as empresas poderiam ter até 45% da frota com ar, cobrando uma tarifa diferenciada. Essa diferenciação de tarifas, no entanto, foi revogada por decreto do prefeito em junho de 2013”.

Passageiros reclamam do calor

Espremida num ponto de ônibus em frente ao Trevo de Piratininga, a vendedora Regiane Souza tentava fugir da incidência dos raios solares. Era quarta-feira e o relógio marcava 10h30m, em horário de verão. O termômetro – embora faltasse muito para o sol ficar a pino — já se aproximava da casa dos 40 graus. Outros dez passageiros disputavam um espaço na sombra. Foi naquela parada que O GLOBO-Niterói deu início à reportagem. Um veículo da linha 46 (Várzea das Moças-Centro) chegou e a equipe do jornal embarcou. Regiane preferiu ficar: estava decidida a viajar num ônibus com ar-condicionado. Já esperava por um há 20 minutos, mas se recusou a pegar um “quentão’’. Dava para entender, pois a sensação térmica a bordo era de 42 graus. E esse não foi o maior sufoco no caminho.

A experiência contou com aferições do técnico Igor Balteiro, que utilizou um termômetro de confiabilidade do Departamento de Meteorologia da UFRJ. O aparelho mostrava que as temperaturas registradas estavam pareadas com o percentual de umidade relativa no ar (dado utilizado para medir a sensação térmica). Dentro de um veículo da linha 49 (Fonseca-Centro), o equipamento provou que os passageiros estavam cheios de razão ao reclamarem do calor: quando entrou na Alameda São Boaventura, marcou 43,4 graus, e a sensação térmica a bordo chegou a 50 graus. E um detalhe: o ônibus viajava com pouco menos de 20 passageiros.

– Imagine se estivesse lotado. É um absurdo encarar esse calor dentro de um ônibus. Não tinha noção de que o termômetro registraria uma temperatura tão alta, e com o veículo praticamente vazio – reclamou a psicóloga Lione Berber.

Motoristas e cobradores, que pediram anonimato para não serem punidos por suas empresas, contaram que ouvem reclamações de passageiros o tempo inteiro e perderam a conta das vezes que tentaram explicar que não têm culpa alguma pelo problema. Eles também são vítimas e, além do corpo, ficam de cabeça e ouvidos quentes.

– Os micro-ônibus são os verdadeiros “quentões”. O ar não circula dentro deles, e a sensação fica quase insuportável quando ficamos retidos em congestionamentos – disse um motorista.

De fato, a bordo de um micro-ônibus da linha 26 (Caramujo-Centro), a equipe de reportagem teve a impressão de estar dentro de uma pequena sauna móvel. Enquanto o veículo passava pela Rua Teixeira de Freitas, o termômetro marcava 43,1 graus, e a sensação térmica era de 50. Num micro-ônibus com ar-condicionado da linha 47 (Canto do Rio-Centro), o aparelho registrou 16,5 graus a menos.

Especialista aponta riscos para a saúde

O sufoco tão citado nas reclamações de passageiros tem embasamento científico. Na avaliação de Antônio Cláudio Nóbrega, professor de Fisiologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), a sensação térmica de 50 graus é desumana:

– Um calor dessa intensidade dentro de um veículo provoca reações psicoemocionais, tais como irritabilidade, agitação e falta de disposição, e de natureza orgânica, tais como sudorese, sonolência e cansaço extremo. Isso tudo afeta a qualidade de vida das pessoas. E, no caso de quem tem pré-disposição para doenças cardíacas, hipertensão e diabetes, existe o risco de infarto e arritmia.

Ainda de acordo com Nóbrega, a temperatura ideal a bordo de um ônibus é de 26 a 29 graus.

ISABEL DE ARAUJO

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