Seis meses de Francisco: postura do papa anima católicos mais progressistas

Publicado em sexta-feira, setembro 13, 2013 ·

Há seis meses, no primeiro discurso como Papa Francisco, o argentino José Mário Bergoglio, 77 anos, referindo-se à sua nacionalidade, afirmou: “Parece que os cardeais foram buscar o novo pontífice no fim do mundo”. A frase simplória, dita em tom de brincadeira, talvez fazendo menção à condição de periferia do mundo desenvolvido que ainda tem a América Latina, ou mesmo ao simples fato de seu país estar localizado no extremo sul do continente americano, já era um pequeno indício de que novos rumos, ou pelo menos novas posturas e novos discursos, poderiam começar a ser vistos na cúpula da Igreja Católica Apostólica Romana.

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Em exatos 180 dias na liderança do catolicismo no mundo, desde o dia 13 de março de 2013, o Papa Francisco profere discursos, adota posturas, sinaliza para a quebra de velhos paradigmas, que estão rompendo definitivamente com o conservadorismo consolidado por seus antecessores, o papa polonês João Paulo II, que governou a Igreja Católica por 28 anos, e o alemão Bento XVI. Este último, depois de menos de oito anos de pontificado, numa atitude rara ao longo da história da Igreja Católica, renunciou em fevereiro de 2013, ainda por motivos pouco explicados, em meio a denúncias de corrupção no Banco do Vaticano.

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A mais recente novidade proveniente do Papa Francisco parece apontar para outro rompimento da Igreja com suas velhas posições. Nesta quarta-feira, 11 de setembro, o sumo pontífice recebeu o fundador da Teologia da Libertação, o padre dominicano Francisco Gutierrez. No auge do conflito entre comunismo e capitalismo, nas décadas de 1970 e 1980, a Santa Sé condenou essa corrente da Igreja que surgia na América Latina, com uma forte tendência marxista e revolucionária, defendendo as necessidades dos pobres e afrontando os interesses da propriedade privada e do sistema de produção capitalista. João Paulo II declarou, em 1979, que “a concepção de Cristo como político, revolucionário, como um subversivo de Nazaré não é para a catequese da Igreja”.

ReproduçãoO encontro do Papa Francisco com Gutierrez, considerado não oficial, aconteceu poucos dias depois do amplo espaço que o Observatório Romano (L’Osservatore Romano), jornal oficial do Vaticano, deu ao livro “Em nome dos pobres, teologia da libertação, a teologia da Igreja”, escrito pelo arcebispo alemão Gerhard Ludwig Müller e atual prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, juntamente com Gutierrez, e publicado na Alemanha em 2004. A aproximação com os teólogos da libertação teria começado ainda na gestão de Bento XVI, por meio de visitas feitas pelo arcebispo Müller a Gutierrez, no Peru.

Numa entrevista concedida a Angelo Sarto e publicada no site do Vatican Insider, Gutierrez afirma que nunca tomou conhecimento de que Bergoglio, ainda na Argentina, tenha condenado a Teologia da Libertação, como tem sido informado pela grande imprensa. Ele acredita que o novo Papa esteja colocando em prática o que diz o Evangelho e não especificamente a Teologia da Libertação, no máximo talvez uma teologia que se aproxime. Gutierrez também se mostra otimista com uma possível reconciliação com o Vaticano. “Fazer previsões é sempre difícil. Mas parece que isso pode acontecer, embora eu não possa dizer como, porque não posso responder por aquilo que o papa fará. Mas este momento é muito rico, interessante e evangelicamente novo! Eu espero que este clima continue. Não tanto para a teologia da libertação, mas para ir à raiz do Evangelho”.

A maiorReprodução abertura para as manifestações dos fiéis, aparentando uma inédita acessibilidade em comparação com seus antecessores, também tem animado os católicos de todo o mundo. Uma recente prova disso foi a resposta, de próprio punho, a uma carta aberta escrita pelo presidente do jornal italiano La Repubblica, Eugenio Scalfari, com dúvidas sobre a fé cristã depois da leitura da Encíclica Lumen Fide (Luz e fé), dirigida pelo Papa aos sacerdotes católicos em junho deste ano. Nesse documento, Francisco discorre sobre a fé, a verdade e o amor na Igreja.

Na resposta ao jornal, ele ratifica que a verdade não é um conceito absoluto que os cristãos possuem, mas um bem que deve ser alcançado mediante uma relação pessoal com Deus. A fé surge do encontro do Jesus, e esse encontro só seria possível na Igreja.

Durante sua presença na Jornada Mundial da Juventude (JMJ), realizada no Brasil, em julho deste ano, o Papa surpreendeu os fieis com posturas que poucas vezes se viu de um sumo sacerdote. Desde driblar a segurança para se aproximar das milhares de pessoas que o acompanhavam, a dar uma entrevista improvisada dentro do avião que o levaria de volta ao Vaticano.

Reprodução“Eu não poderia vir ver este povo que tem um coração tão grande, protegido por uma caixa de vidro. E no automóvel, quando ando pela rua, baixo o vidro. Para poder estender a mão, saudar as pessoas. Quer dizer, ou tudo ou nada. Ou se faz a viagem como deve ser feita, com comunicação humana, ou não se faz”, disse o Papa em entrevista a uma rede de televisão brasileira. Ele pregou ainda que os jovens têm o direito de protestar, quando indagado sobre sua avaliação em relação às manifestações que tomaram as ruas do país em junho e julho deste ano. “Um jovem que não protesta não me agrada. Porque o jovem tem a ilusão da utopia, e a utopia não é sempre negativa. A utopia é respirar e olhar adiante”.

Uma das declarações mais polêmicas diz respeito à sua posição em relação aos homossexuais. Na entrevista que deu no avião, ele afirmou: “Se uma pessoa é gay e procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-lo”, declarou. “O catecismo da Igreja explica isso muito bem. Diz que eles não devem ser marginalizados por causa disso, mas devem ser integrados na sociedade”, insistiu. As declarações dividiram opiniões, mas, sem dúvida, sinalizaram uma postura mais aberta da Igreja Católica aos gays.

Outra prática Reproduçãodo Papa que vem se tornando frequente seriam as respostas diretas que ele vem procurando dar aos fiéis que o escrevem cartas. Dois episódios recentes ilustram bem essa característica. A primeira delas teria acontecido com o jovem francês, Christophe Trutino, de 25 anos, que é homossexual e conta que recebeu a ligação do líder católico depois de ter escrito uma carta a ele relatando que sofre preconceito por sexualidade. “Eu recebi a carta que você me enviou (…) Sua homossexualidade não é um problema. Você deve permanecer corajoso, é preciso continuar a acreditar, a orar e para ficar bem”, teria dito o papa ao jovem.

Outra ligação do Papa teria sido feita para a italiana Anna Romano, de 35 anos, que, planejando fazer um aborto, escreveu ao Pontífice. Ana conta que o Papa teria dito a ela que o bebê é um dom de Deus, um sinal da providência, e até se ofereceu para ser padrinho da criança. Sobre esses fatos, o Vaticano não teria, inicialmente, confirmado ou negado, mas, recentemente, o porta-voz oficial da Santa Sé, Federico Lombardi, negou veementemente essas informações. Vale ressaltar que declarações do papa têm mostrado que ele não está disposto a mexer na questão do aborto e nem da possibilidade do exercício sacerdotal pelas mulheres. Já o celibato sacerdotal é um assunto que pode ser discutido, conforme afirmou recentemente o segundo homem do Vaticano, o secretário de Estado, Pietro Parolin.

A situação dos migrantes e refugiados também tem sido alvo da atenção do Papa Francisco. Depois de visitar a ilha de Lampedusa, no sul da Itália, em julho último, considerado hoje um dos principais portos de chegada de imigrantes africanos ilegais a Europa, muitos morrendo durante a travessia, ele esteve recentemente no Centro Astalli de refugiados em Roma e sugerido que a Igreja utilizasse os conventos atualmente fechados para abrigar essas pessoas. Na última semana, o anúncio da invasão da Síria pelos Estados Unidos também chamou sua atenção. O papa convocou os fiéis de todo o mundo a fazer uma jornada de oração e jejum, no último sábado, 7, em apoio aos sírios afetados pela guerra civil.

 

 

Adital

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