Sanchez começa a esvaziar sua sala e a cabeça antes de deixar o Corinthians

Publicado em quarta-feira, dezembro 7, 2011 ·

sanchesAndrés Sanchez já fez suas promessas de final de ano. “Vou parar de fumar”, sorriu, desejando “feliz Natal”, depois desta rápida entrevista exclusiva concedida à Gazeta Esportiva.Net. Nem se parecia com aquele presidente do Corinthians que insultava quem o contrariasse e gostava de se mostrar desesperado para entregar o cargo. Com um inseparável cigarro entre os dedos ou na boca durante a conversa, ele estava bem mais relaxado dois dias após a conquista do Campeonato Brasileiro e a quase uma semana de se licenciar da direção. Misturou alívio com saudosismo ao revelar que já começou até a retirar pertences pessoais de sua sala, no quinto andar do Parque São Jorge, embora não descarte a possibilidade de retornar para lá em alguns anos.

A partir de janeiro, as preocupações de Andrés Sanchez estarão distantes da Fazendinha, do CT Joaquim Grava ou das obras do futuro estádio corintiano em Itaquera, na Zona Leste de São Paulo. O futuro diretor de seleções da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) se animou ao externar a vontade de acompanhar o Corinthians como um dirigente influente ou na condição de torcedor organizado, porém tem planejado a mudança para se “fincar 100%” no Rio de Janeiro como aliado de Ricardo Teixeira.

Por enquanto, Andrés Sanchez prefere falar mais das pendências que deixou no Corinthians (como a renovação do vínculo do técnico Tite por mais uma temporada, além de contratações pontuais de jogadores) e das suas férias. Os votos para 2012, para o clube de coração e para a CBF, ele ainda guarda com o mesmo esmero dedicado às recordações recolhidas do Parque São Jorge. Ou à fita branca, já gasta no seu pulso direito, em homenagem ao Senhor do Bonfim – que dá direito a três desejos, segundo a crença popular.

Fernando Dantas/Gazeta Press

Com fita do Senhor do Bonfim, Sanchez realizou três grandes desejos: estádio, Ronaldo e título nacional

Gazeta Esportiva.Net: Você me parece mais tranquilo.
Andrés Sanchez: Pareço? [Acende um cigarro neste instante.]

GE.Net: Depois de passar os últimos meses reclamando constantemente da pressão de ser presidente do Corinthians, parece. Chegou a dizer até que tinha vontade de entregar o cargo no meio do ano.
Sanchez: Não… É que, assim… Os problemas que me levaram a ficar de cabeça cheia continuarão. [Ele se suja com as cinzas do cigarro em meio a essa lamentação e passa a limpar o paletó com as mãos.]

GE.Net: Talvez sejam até maiores como diretor de seleções da CBF.
Sanchez: Não sei. O Corinthians é grande também.

GE.Net: É mais difícil presidir o Corinthians, então?
Sanchez: Não dá para responder agora. A CBF é um terreno que ainda não domino. Só vou tomar conhecimento disso a partir do ano que vem. Mas, como teremos Copa das Confederações e Copa do Mundo no Brasil, obviamente as cobranças devem ser muito maiores do que aquelas sofridas por mim nos últimos anos. Estou preparado para isso, para ajudar a Seleção e o povo brasileiro o máximo possível.

GE.Net: Sua rotina certamente mudará bastante. Está pronto para morar no Rio de Janeiro, por exemplo?
Sanchez: Até que não vai mudar tanto nesse ponto, sabia? Já morei no Rio de Janeiro uma vez, há algum tempo. Quero me fincar lá 100%, pelo menos no primeiro ano de cargo.

GE.Net: Já procurou apartamento?
Sanchez: Vou para um flat primeiro. Depois, dá para me dividir um pouco entre Rio e São Paulo. Preciso estar sempre próximo do Corinthians. O clube continua sendo responsabilidade minha. É o meu amor.

Fernando Dantas/Gazeta Press

Presidente do Corinthians se gaba por ter “acordado” o clube, que estava na Série B do Brasileiro em 2008

GE.Net: Como tem sido os últimos dias dessa relação, como presidente?
Sanchez: Últimos dias, não, pô. Ainda falta um tempinho para eu sair. Já quer me ver longe daqui [risos]?

GE.Net: Você não vai se licenciar do cargo em 15 de dezembro? Falta pouco mais de uma semana.
Sanchez: Vou sair de licença para ter férias, pois preciso descansar. Até a minha saúde ficou um pouco comprometida, e você sabe disso. Mas ainda serei presidente do Corinthians. É óbvio que o Roberto de Andrade, o meu vice, já está por dentro de tudo o que quero fazer e tocará o planejamento que traçamos desde agosto, setembro. Só que continuo sendo conselheiro vitalício do clube e estou próximo da diretoria. Se conseguir fazer o Mário Gobbi como meu sucessor, então… Apesar de grupos de oposição terem se unido contra nós, com Roque Citadini, Paulo Garcia e Osmar Stábile, tentaremos dar sequência ao nosso projeto. A minha responsabilidade será até maior do que como presidente.

GE.Net: Está preparado para limpar a sua sala no Parque São Jorge para o sucessor, seja ele quem for?
Sanchez: Já estou tirando as minhas coisas! Já estou tirando!

GE.Net: O que você já levou para casa?
Sanchez: Ah, um monte de coisas. São muitas recordações. Faz um mês e pouco que estou levando tudo, limpando a sala. Como sou um pouco relaxado para isso, sem ter tanta organização, comecei a fazer a limpa logo. Nos próximos 20 dias, tudo estará vazio lá, sem nenhuma marca minha. Pode ter certeza.

GE.Net: Como você se sente vendo a sua sala cada vez mais vazia? Consegue se imaginar levantando da cadeira, fechando a porta e entregando a chave para o próximo presidente?
Sanchez: É… Sinceramente, hoje fico pensando que passou muito rápido. Como você disse, eu estava reclamando da demora para sair da presidência, mas passou muito, muito rápido. Só que estou saindo de cabeça erguida, com um sentimento de dever cumprido como torcedor corintiano.

GE.Net: Você se orgulha de ter origem em torcida organizada. Em uma entrevista que fizemos no ano passado, afirmou que estava ansioso para retornar à arquibancada. Esse desejo não ficou um pouco utópico?
Sanchez: Por quê?

Fernando Dantas/Gazeta Press

“Continuei indo para o meu pagode, para o meu bar… Tento mudar o mínimo possível”

GE.Net: Estou falando com o novo diretor de seleções da CBF…
Sanchez: Mas, depois de uns três ou quatro meses, irei a alguns jogos do Corinthians, sim. Pode ter certeza de que você ainda vai me ver no Pacaembu muitas vezes, na arquibancada. Assistirei às partidas de outros times também, mas logicamente quero estar muito mais perto do meu. Todo mundo tem um clube de coração. É assim com os dirigentes. Respeitando todas as equipes, vou acompanhar mais a minha. Sou de arquibancada.

GE.Net: Também por isso, seu perfil é diferente da maioria dos dirigentes brasileiros. Gosta da imagem que tem?
Sanchez: Não vou mudar o meu jeito de ser. Sou o mesmo cidadão fora do Corinthians. Depois de virar presidente, continuei indo para o meu pagode, para o meu bar, para o meu restaurante, usando chinelo, bebendo… Às vezes, faço essas coisas um pouco menos, mas tento mudar a minha personalidade o mínimo possível. Sei que, por ser sincero, pago um preço caro. E até posso ter extrapolado em algumas situações. Em outras, não.

GE.Net: O seu jeito te ajudou ou atrapalhou como presidente do Corinthians?
Sanchez: O Corinthians é um time humilde. Vim de arquibancada para ser presidente desse time. A relação fica mais forte, obviamente. Mas cada um tem o seu estilo. O meu é assim, o do Mário Gobbi é outro, e por aí vai. Tanto faz. Espero que os próximos presidentes tenham sucesso, da maneira que eles forem.

GE.Net: Algumas pessoas falam que você foi o maior presidente da história do Corinthians…
Sanchez: Algumas também falam que fui o pior.

GE.Net: Quero saber a sua opinião.
Sanchez: Nem o melhor, nem o pior. Todos os presidentes tiveram a sua importância. O mais importante é o que fundou [Miguel Battaglia] o clube. Meu ícone como presidente é o Vicente Matheus, uma pessoa que sempre respeitei. Tive os meus méritos, assim como todos os outros.

GE.Net: Todos?
Sanchez: Todo mundo acerta e erra.

GE.Net: No que você errou?
Sanchez: Como eu disse na entrevista coletiva, agora há pouco, o principal é que deveria ter começado a fazer o CT do departamento amador junto com o do profissional. Se tivesse sido assim, as obras já estariam adiantadas. Tivemos alguns problemas de logística por causa do estádio em Itaquera. Sou oriundo de direção de categoria de base e deveria ter olhado mais para isso.

GE.Net: Na coletiva, você também citou a reformulação do estatuto do clube como a maior conquista da atual gestão. Qual foi o grande benefício material que você considera ter trazido ao Corinthians?
Sanchez: A mudança do estatuto foi realmente muito importante. O Corinthians não tem mais dono. A minha aprovação é alta e, mesmo assim, não vou concorrer à reeleição. Mas, se você quer saber o maior bem material, foi o Ronaldo. Sem dúvida.

Fernando Dantas/Gazeta Press

Para Sanchez, Ronaldo chega a ser conquista mais significativa que o estádio da Copa

GE.Net: O Ronaldo representou mais do que o acerto para construir o estádio?
Sanchez: O estádio era um sonho de todo mundo. Eu nem acreditava que conseguiria fazer isso. Mas o Corinthians é um antes do Ronaldo e outro depois dele.

GE.Net: O Andrés também é um antes do Ronaldo e outro depois dele?
Sanchez: Isso fica para os sócios e para os torcedores avaliarem.

GE.Net: Não estou falando do status adquirido por contratar o Ronaldo, e sim do que ele mudou em você.
Sanchez: Aprendi muita coisa com ele, mas também ensinei. O Corinthians é um aprendizado de vida. É um governo de Estado. É uma nação. Isso tudo tem seus lados bom e ruim. O Ronaldo precisou aprender essas coisas todas. Ainda assim, acho que aprendi mais do que ensinei no convívio com ele.

GE.Net: Você ficou amigo do Ronaldo e sempre admitiu manter um relacionamento próximo com jogadores, inclusive saindo para se divertir com alguns. Quem foi aquele que mais te marcou no Corinthians?
Sanchez: Olha, um cara legal, que foi muito importante no processo todo, na nossa mudança de postura: William. O nosso antigo capitão é um exemplo a ser seguido.

GE.Net: Mas o William teve uma passagem meteórica como seu gerente de futebol. Ele também parece ter um perfil diferente do seu.
Sanchez: Foi uma passagem excelente. Infelizmente, não deu para o William continuar com a gente por causa de uma incompatibilidade. Trouxemos o Edu para o lugar dele. Mesmo assim, o William me marcou muito.

GE.Net: Por outro lado, no ano passado, você apontou o Felipe [hoje goleiro do Flamengo] como o único atleta com quem havia se decepcionado no Corinthians. Houve mais algum com quem se frustrou, daquela época até então?
Sanchez: Não.

GE.Net: Nem o Roberto Carlos? Ele declarou que saiu do Corinthians [para o Anzhi Makhachkala, da Rússia], por causa de supostas ameaças de torcedores organizados. Você desmentiu ao dizer que a proposta era financeiramente irrecusável.
Sanchez: Foi realmente uma proposta irrecusável para um cara de 38 anos. É isso. Simples. Na época, talvez ele não me conhecesse a fundo e achasse que eu fosse dificultar a saída dele. Mas, ao contrário: eu facilitaria o máximo possível. Sei que um jogador no nível dele, com idade avançada, não poderia perder aquela oportunidade.

GE.Net: Você ficou magoado com a atitude dele?
Sanchez: Mas, depois, para mim, ele consertou o que disse. Respeito o Roberto Carlos. É um amigo que fiz. Ele teve uma passagem importante pelo Corinthians.

GE.Net: E o Adriano? Hoje, mais cedo, você parecia arrependido com a contratação dele. Acha que o Corinthians ainda precisa de um jogador de grande poder midiático, como ele, no elenco?
Sanchez: Arrependido, não. O Adriano é diferente do Ronaldo, que sempre foi único. E nós temos outros grandes jogadores. E Alex? Sheik? Willian, que irá se tornar muito bom? Liedson, que jogou vários anos na Europa, sempre com enorme sucesso? O Corinthians é uma mescla deles todos. Futebol se ganha com equipe, com grupo. Se os atletas estiverem unidos, fica mais fácil.

GE.Net: Como fazer para unir o elenco?
Sanchez: É mérito do treinador. Antes de contratar, a gente analisa pessoas, não só atletas. Isso ajuda. No Campeonato Brasileiro mesmo, passamos por momentos dificílimos: houve jogador indo para reserva, entrando no time, querendo jogar… Mas nunca aconteceu uma crise. A crise foi muito mais fora do Corinthians do que dentro. Foi algo que quiseram colocar aqui.

Fernando Dantas/Gazeta Press

Andrés opinou nesta foto. “Com o símbolo de fundo”, disse, apontando para logotipo da “República Popular”

GE.Net: Com a derrota para o Tolima na pré-Libertadores, a crise foi forte. Naquele tempo, você podia imaginar que terminaria o ano como campeão brasileiro?
Sanchez: Mas o Corinthians terá altos e baixos sempre. Para a Libertadores, é o que venho dizendo: o clube precisa se acostumar a disputar a competição. Nós nos classificamos pela terceira vez seguida agora. O Corinthians vai ganhar a Libertadores, sim. Vai ganhar. Trabalhei para ser campeão nas minhas oportunidades, mas só um time consegue isso. Infelizmente, não fomos nós na Libertadores. Felizmente, fomos nós no Brasileiro. [Ele olha de soslaio para o troféu de campeão nacional ao falar sobre a reviravolta.]

GE.Net: Após a queda na pré-Libertadores, você enfrentou a pressão da torcida e não demitiu o Tite. Essa decisão foi fundamental para a conquista do Campeonato Brasileiro?
Sanchez: Gosto de trabalhar o dia a dia do treinador. Se tenho consciência de que ele está fazendo coisas corretas, mesmo sem resultados, acho que deve ficar. Isso é bom, válido. Ficou provado com o Mano Menezes e com o Tite.

GE.Net: O Adilson Batista não teve a mesma sorte.
Sanchez: Não deu para segurar, por mil problemas de planejamento entre ele e a diretoria. O Adilson não foi o único culpado naquela época. Também tive a minha culpa. Mas ele é um grande treinador, com chances de se tornar um dos maiores do Brasil. Repito que, para qualquer elenco dar certo, é importantíssimo manter o técnico.

GE.Net: Então o Tite renovará o contrato dele ainda nesta semana?
Sanchez: Espero que sim. Ele quer ficar. Nós queremos que ele fique. Não tem por que não renovar o mais cedo possível.

GE.Net: Além da renovação do Tite e dos reforços que já estão em pauta, você fará algum último ato de impacto como presidente? Ou o título brasileiro já coroou sua gestão?
Sanchez: Não haverá nenhuma surpresa. O título veio para coroar, para que todos os corintianos possam passar um Natal e um Ano Novo felizes. Quero aproveitar para dedicá-lo principalmente para o nosso presidente Lula, que muito nos ajudou. Garanto que essa conquista dará mais força para ele se recuperar do câncer. Se Deus quiser, ele dará a volta por cima.

GE.Net: Meses atrás, havia quem apostasse que você se despediria com a repatriação do Tevez.
Sanchez: Quando sair da Europa, o Tevez virá para o Corinthians. Não chega a ser um sonho meu. Mas ele é um grande jogador, inquestionável dentro de campo, que ajudaria muito se chegasse aqui.

GE.Net: Seu relacionamento com ele melhorou?
Sanchez: Continua o mesmo: não falo com ele. A gente não conversa. Estamos distantes de amigos. Mas, independentemente de qualquer contratação que tenha ou não acontecido, volto a dizer que estou saindo do Corinthians com a consciência limpa. Fiz o melhor possível para o torcedor, com erros e acertos. O meu grande mérito foi resgatar a dignidade do corintiano.

Fernando Dantas/Gazeta Press

Com troféu de campeão brasileiro, futuro diretor da CBF se credencia a voltar à presidência corintiana um dia

GE.Net: Pode soar absurdo dizer isso hoje, mas você se vê novamente como presidente do Corinthians no futuro?
Sanchez: O futuro a Deus pertence. Espero que eu não precise voltar, que o clube não necessite de mim. Mas, se tiver que retornar ao cargo, será uma grande honra.

GE.Net

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