Saiba como agir em caso de estupro em momento vulnerável

Publicado em quinta-feira, Janeiro 19, 2012 ·

Foto: Getty Images
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O dicionário de língua portuguesa Michaelis diz que vulnerável é o lado fraco de um assunto ou questão e do ponto de onde o outro pode ser atacado ou ofendido ou ainda é aquele que dá presa à crítica e à censura. Seja como for, a legislação brasileira entende que a pessoa vulnerável é aquela que não consegue responder por seus atos e, por isso, uma mulher que bebeu demais e sofreu abuso sexual poderia ser qualificada desta forma. Saiba como agir caso tenha dúvidas da violência e onde procurar ajuda.

Questão recente
O estupro de vulnerável tornou-se o assunto da semana depois que um participante do reality show Big Brother Brasil 12 foi expulso do programa na tarde de segunda-feira (16) sob a suspeita de ter abusado de uma colega de confinamento com quem ficava. Daniel, o brother expulso, ficava com Monique, a suposta vítima, e, na noite de sábado (14), após beberem muito em uma festa, o casal foi para o quarto e mesmo com a moça desacordada, as carícias continuaram. “O fato trouxe luz à mercantilização, a banalização do corpo da mulher. Os comentários na Internet falaram ‘ah, ela bebeu, ela escolheu com quem ia dormir e agora se faz de vítima’ e esse não-respeito e banalização devem ser discutidos”, disse a psicóloga Branca Pappereti, coordenadora da Casa Eliana de Grammont, da capital paulista, que atende mulheres e crianças vítimas de violência.

O psicólogo Tadeu Roberto de Abreu trabalha no Centro de Estudos e Atendimento Relativos ao Abuso Sexual (Cearas) do Instituto Oscar Freire da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) lembrou que a lei de estupro mudou em 2009, já que anteriormente qualquer manifestação sexual que não fosse a penetração do pênis na vagina era considerado ato libidinoso. “Nem o estupro de homens era considerado estupro”, contou, “agora, até beijar na boca sem consentimento pode ser considerado estupro. A sociedade não enxergava a violação do corpo e da intimidade do outro como uma forma de violência sexual e, por isso, essa mudança foi importante”.

A questão é polêmica e bastante delicada já que há pessoas que acusam e outras que defendem Daniel. “Houve uma conduta dos dois e é difícil apontar quem é a vítima porque ele também poderia estar vulnerável do ponto de vista emocional. Essa questão é delicada porque temos que levar em conta as emoções que eles sentiam, o fato de todos estarem vendo, ser uma festa”, lembrou o psicólogo do Ceares.

Sentimento de culpa
Muitas das vítimas de violência sexual se sentem culpadas em relação ao ocorrido. “Quando você tem um trauma físico, é possível visualizá-lo, saber sua extensão e acompanhar sua melhora. Com o trauma emocional é diferente. Há o sentimento de culpa e a confusão pelo que aconteceu e, por isso, a cura é mais difícil”, contou Abreu.

Branca completou que muitas das mulheres têm esse sentimento porque não esperavam que a situação fosse acabar em estupro. “Às vezes elas só queriam ir até a paquera e como o homem ultrapassou esse limite, elas se sentem partícipes e sentem vergonha. Esse é até o principal motivo pelo qual a maioria não procura ajuda. Temos casos de mulheres que levaram anos para procurar apoio emocional e se libertar do trauma”, contou.

Tratamento
O psicólogo do Ceares lembrou que “o trauma é muito proporcional à personalidade” e no caso de Monique, poderá aparecer depois que ela sair do reality show e ver a repercussão do ocorrido. “Ela poderá viver algum tipo de dúvida e a terapia é recomendada para ajudá-la a rever o que aconteceu, as motivações que a levaram a essa exposição”, opinou Abreu.

Mas as mulheres que vivem a situação anonimamente podem – e devem – seguir uma conduta similar, sendo o primeiro passo, procurar um serviço de saúde para buscar orientação sobre DSTs e uma gravidez indesejada – principalmente se realmente houve a conjunção carnal. O serviço de saúde metal deve ser procurado também. “Ela pode procurar uma delegacia para fazer uma ocorrência formal se ela tiver certeza do estupro. Para fazer a acusação, ela precisa ter certeza do que aconteceu”, contou Branca.

A psicóloga e coordenadora da Casa Eliana de Grammont lembrou que é um direito feminino escolher e participar do ato sexual e se a mulher tiver alguma dúvida sobre a violência sexual, como por exemplo, em casos de golpes como “Boa Noite, Cinderella”, no qual a vítima é dopada, ela precisa tentar esclarecer o que aconteceu. “Ela pode procurar orientação em centros especializados como o Hospital Pérola Bayton, a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e a Casa de Saúde da Mulher Dr. Domingos Deláscio, todos em São Paulo (SP), para conversar e se orientar sem a presença machista e o ranço de que ela deu mole”, orientou Branca.

A terapia para cuidar da saúde mental e emocional é fundamental para conseguir dar a volta por cima. “Elas se travam para outros relacionamentos e acabam ficando com sintomas psicossomáticos, agravando toda a saúde. Com a terapia, procuramos mostrar pra essa mulher que a vida continua e que elas devem seguir em frente. Mostramos ainda que elas não têm culpa e são vítimas que foram pegas em um momento de vulnerabilidade”, concluiu Branca.

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