Ramalho Leite – Quero a minha mulher de volta!

Publicado em terça-feira, janeiro 1, 2013 ·

 

Não pensem que sou machista. Mas confesso, tenho  saudade do tempo em que minha mulher acordava dando ordem na cozinha, acertando o cardápio do dia e juntando roupas para mandar lavar. Levar os filhos à escola, isso já está mais distante… Mas ir buscar um neto, comparecer às festinhas de sua escola ou participar de suas férias, é um doce encargo que ela tem dificuldade de realizar… O destino mudou a nossa vida familiar.

Meu pai era candidato a prefeito de Bananeiras e faleceu no meio do caminho. Substituí-lo por alguém de casa era empreitada que exigia, entre outras coisas, filiação partidária, àquela altura, com os prazos vencidos. Mas meu pai, político experiente, parece que tivera uma premonição e filiou as filhas e a  nora ao seu partido. Sobre esta recaiu a escolha e Marta foi candidata pela primeira vez a prefeita, em 1982.  Cumpriu a missão, perdeu por poucos votos, mas ajudou a me eleger deputado. Tomou gosto pela política, mostrou que tinha vocação para a lide e seis anos depois era a primeira mulher a governar  sua terra.

Saindo da prefeitura de Bananeiras foi candidata a deputada. Traída pelo tamanho da legenda e por alguns compromissos não honrados, não se elegeu, mas chegou a assumir o mandato. Por uns tempos trocou a bancada das taquigrafas da Assembléia pela dos deputados. Em 2002 compôs, como suplente, a chapa do senador Efraim Morais e em 2004 voltou à Prefeitura, sendo reeleita em 2008.

Suas preocupações deixaram há muito tempo a cozinha,  passaram pela sala e ganharam a rua. No seu universo está o bem estar de uma população superior a vinte mil habitantes. Professores, garis, médicos, enfermeiros, motoristas, pedreiros e eletricistas  a ajudam no cumprimento  da tarefa. Agora é acordada pelo celular e as ordens que dá, ficam longe da panela e do tempero: mandem passar a maquina na estrada! Terminem primeiro o barreiro, que as chuvas vão chegar!  Apressem a  reforma da escola durante as férias! É o que eu escuto logo cedo. E quanto pergunto do que se trata, descubro que estou atrapalhando.

Semana passada, o Tribunal de Contas  aprovou a sua oitava conta anual como gestora municipal. Ter contas aprovadas não deveria ser mérito, mas obrigação. Todavia, está cada vez mais difícil escapar dos rigores da lei. Se numa licitação tem só três participantes, pode se alegar favorecimento de um deles. É um arrumadinho! Dizem censores apressados. Se o dinheiro não deu para honrar os compromissos da previdência e se atrasa o recolhimento, a acusação é de apropriação indébita… Os erros, muitas vezes, são mais produtos de insuficiência de recursos ou da incapacidade técnica   do que, propriamente, da prática de  improbidade. E como tem gente, ( isso é bom por que educa) de olho bem aberto fiscalizando os gestores públicos e suas ações. Diante da prevaricação de muitos, todos pagam, gerando uma desconfiança generalizada dos órgãos fiscalizadores. Atuam nessa área, além do TCE, o TCU e a CGU; o MPE, MPU e MPT . E tem ainda o FDP, o adversário irresponsável que abastece todos esses órgãos com denuncias sem provas, apenas para aparecer. Ainda bem que prevalece a garantia  da ampla defesa e do contraditório. Sem duvida,  escapar de tudo isso e ter as contas aprovadas, é motivo de regozijo, sim.

Recentemente, na qualidade de assessor afetivo da prefeita, fui consultado sobre uma notificação do MPT. Era preciso responder rapidamente  se os garís do município eram efetivos ou contratados, percebiam adicional de  insalubridade,  recebiam farda, luvas, botas  e máscaras contra poeira. Dever-se-ía ainda  informar  quantas vezes era distribuído protetor solar com os agentes da limpeza urbana.

Vi que ela vinha cumprindo  essas  exigências e resolvi dosar sua apreensão  com o meu costumeiro bom humor:

– Você está preocupada com isso? Pois você deveria agradecer a esse procurador pela suavidade da sua determinação.  E diante do seu espanto, completei:

– Já pensou se a ordem fosse para você mesma aplicar, todos os dias,  o protetor solar nos garis?…

Por essa e outras é que estou torcendo ardentemente para que dona Marta conclua o seu mandato. Quero a minha mulher de volta! (Publicado no livro Em Prosa e no Verso)

PS. Na ultima segunda feira Marta terminou sua tarefa e voltou para casa. Foram doze anos de prefeita. Diminuiram suas preocupações e aumentaram as minhas. Agora ela não tem mais centenas de servidores para dar ordens. Coitado de mim….

RAMALHO LEITE

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