Ramalho Leite – O primo pobre

Publicado em quinta-feira, agosto 4, 2011 ·

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Desde o Brasil Colônia que a Capitania de Pernambuco, sendo na região o centro da  conquista portuguesa, desempenhou papel de ascendência sobre a capitania da Paraíba chegando até a anexá-la após ter sido arrasada durante a ocupação holandesa.Pelo Porto do Recife, mais bem equipado, escoava toda a produção do açúcar paraibano, mesmo contrariando duas Cartas Régias que mandavam que a Paraíba comercializasse diretamente com a Coroa Portuguesa pois aqui tínhamos nossos ancoradouros que, já naquele tempo, se queixavam da falta de navios.

A Paraíba era explorada duplamente, pela Coroa e pelos comerciantes do Recife. Segundo Horácio de Almeida, “no ano em que a Paraíba se fundou (1585) Pernambuco já ostentava uma vida faustosa em sua nascente sociedade”.

Os paraibanos sempre expressaram sua insatisfação com a influencia do vizinho do sul o que provocava até a falta de moeda, atribuída, segundo Elisa Regis de Oliveira, ao fluxo comercial com Pernambuco, onde os paraibanos adquiriam seus mantimentos. Estudo de Wilson Seixas aponta os próprios comerciantes paraibanos como rebeldes ao cumprimento da Carta Régia que os mandava comercializar diretamente com Lisboa. Na época, acreditava-se no desejo de expansão de Pernambuco sobre seus vizinhos, o que não se pode creditar nos tempos atuais. A rivalidade entre os dois estados, todavia, chegou à era republicana.

Um estudo de Fabio Santa Cruz, da Universidade de Goiás, analisa a rivalidade entre Pernambuco e Paraíba sempre com esta ultima em situação de inferioridade, o primo pobre. Destaca, porém, que na década de 1920, por contar com políticos como Epitácio Pessoa, José Américo e Almeida e o próprio João Pessoa, houve um combate aberto contra a influência de Pernambuco entre nós.

O salto desenvolvimentista de Pernambuco nos últimos anos, deveu-se sem dúvida ao seu filho mais ilustre, o Presidente Lula, que carreou para seu território além de outros benefícios, a Hemobrás, uma Refinaria de Petróleo e agora uma fábrica da Fiat, cujos estudos de localização já se processavam há alguns anos e, para felicidade nossa, ficará mais próximo de nós do que do Recife.

Lembro-me bem que participei no ano de 1994 de uma reunião no Palácio das Princesas com dirigentes do Banco do Nordeste, reivindicada pelo Governador Joaquim Francisco que reclamava o fato de a Paraíba estar acima de Pernambuco no percentual de aplicação de recursos do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste. Apenas por que tem um paraibano na diretoria do Banco? Indagava. O diretor era eu, mas me fiz de desentendido.. Hoje, Pernambuco ostenta a segunda posição em aplicações do FNE, empatando com o Ceará e perdendo somente para a Bahia conforme o Plano de Aplicação/2011. A Paraíba está na sexta colocação talvez pela ausência de um paraibano na diretoria do BNB…

Todo esse nariz de cera vem a propósito do barulho que fazem alguns jornalistas e políticos paraibanos pelo fato do Governador Ricardo Coutinho haver comemorado a instalação de uma fábrica em Goiânia, com benefícios evidentes para cerca de doze municípios paraibanos no entorno do empreendimento industrial. Queriam uma reação do atual governante, diante de um fato consumado antes mesmo dele ser o governador da Paraíba. Chegam ao exagero de defini-lo como um Marques de Pombal moderno, interessado em anexar a Paraíba ao vizinho estado. Um absurdo!.

Por outro lado, o fato nos leva a refletir sobre outro tema em debate no momento nos fóruns privilegiados onde freqüentam alguns pescadores de águas turvas. Um grupo empresarial ofereceu ao Estado um terreno em troca de outro, onde edificaria um Shopping Center, cobrindo a diferença que resultasse na avaliação feita por entidades acreditadas. O assunto só falta ser criminalizado, mas a invocação do Ministério Público é feita diariamente e já houve até recurso frustrado à Justiça. Não se trata de doação, mas de uma permuta que não resultará jamais em prejuízo ao erário.

Enquanto isso, atravessando a nossa fronteira sul, o Governo de Pernambuco desapropria o terreno, anuncia investimento de 175 milhões para prepará-lo e entregar, gratuitamente, à Fiat, para que nele seja construída a fábrica de automóveis, pista de prova e outros equipamentos indispensáveis, o que resultará, afinal, em cerca de 4,5 mil empregos diretos e 50 mil  indiretos entre os quais, sem duvida, milhares de paraibanos. Esse terreno mede 14 milhões de metros quadrados e nenhum político ou jornalista Pernambuco imaginou a hipótese de se abrir uma licitação para a concretização da obra. Enquanto lá se festeja um empreendimento que vai gerar emprego e renda, aqui se deplora e se combate a tentativa de uma ação de menor porte, mas com igual objetivo. A briga política aqui prevalece sobre o interesse publico.

É por essas e outras razões que a Paraíba vai continuar por muito tempo ainda sendo o primo pobre de Pernambuco.

RAMALHO LEITE

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