Ramalho Leite – Gonzagão, sua sanfona, sua simpatia

Publicado em domingo, novembro 25, 2012 ·

Luiz, dos nove que nasceram, foi o segundo filho de Januário e Santana. Esta, mulher acostumada a passar as noites sozinha à espera do marido que invadia as madrugadas com os acordes do seu fole pelas quebradas das serras do Exu, lutaria com todas  as  forças para impedir a vocação do filho:dois sanfoneiros numa mesma casa era demais… O menino era Luiz. Na pia batismal, o padre acrescentou: Gonzaga do Nascimento, para dar sorte. Quando nasceu, o pai armou o bacamarte para anunciar a boa nova. A parteira autorizou o tiro:

– É macho, com documento e tudo!

Esse trecho está quase idêntico ao discurso que preparei para saudar o Rei do Baião, na entrega do titulo de Cidadão Paraibano, fato ocorrido em sessão da Assembleia Legislativa realizada em 7 de março de 1979. Como não havia assumido ainda o mandato de deputado, pois ficara na primeira suplência, entreguei a missão de ler minha saudação, ao colega Assis Camêlo, que o fez com maestria. Na ocasião, os pessoenses foram brindados com uma “ canja”- como  hoje são chamados esses shows  improvisados. Gonzaga  ocupou o Parlatório e o povo aglomerou-se na Praça João Pessoa.A noite terminou com um jantar na Granja Santana, oferecido pelo governador Dorgival Terceiro Neto. Dia seguinte, almocei com Luiz  na residência do outro Luiz, o  Ramalho, aquele do ”Foi Deus quem Fez Você.”

O convívio de Luiz Gonzaga com a Paraíba começara em 1930, quando o pelotão do exercito do qual fazia parte aquartelou-se em Souza trazendo o Recruta 122, o “Bico de Aço”,um corneteiro que tocava sanfona. Fixou-se depois em Belo Horizonte, no Regimento Treme-terra. Como soldado, participou de várias missões pacificadoras, “ajudando a fazer revolução sem dar um tiro, pois o Deus brasileiro é muito forte e não permite que irmão se mate”, comentou. O soldado já descobrira antes, que a colher de pedreiro não seria seu instrumento de trabalho. Agora, sabia também que não nascera para a caserna. O Rio de Janeiro o chamava para os palcos, para a música e para a glória.[bb]

Começou no Mangue, a zona carioca mal afamada, tocando bolero e outras músicas de gafieira, até encontrar o filão que procurava: o baião. A fama começou em um  programa de calouros, quando resolveu tocar o que gostava, o “pé de serra”. Tocou o Vira-e–Mexe, virou a sua vida e mexeu com os nervos do auditório de Ari Barroso. Daí em diante, passou a ser programado, descobriu o radio e foi descoberto pelos brasileiros. Era a música dos sertões chegando ao asfalto.[bb]

Mas é preciso que se diga que o cantor surgiu por imposição dos ouvintes do Rádio. A princípio, a direção da emissora não se rendeu às cartas dos ouvintes. Chegaram a baixar portaria: “Luiz, proibido de cantar”, decretou Fernando Lobo, na Rádio Tamoio. Vem a Rádio Nacional, e Renato Murce o escala para o programa de Paulo Gracindo, que o introduz  na onda do radio com o bordão:

-Aí, com sua sanfona, sua simpatia, Luiz Lua Gonzaga!

O sucesso chegara, na voz e na sanfona. Luiz encontrara seu caminho, e cantando as coisas do sertão, poderia retornar ao Exu e rever os seus. Chega pela madrugada e bate à porta de Januário:

-Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

E Januário, acordando assustado e reconhecendo o filho desgarrado:

-Isso é hora de chegar em casa, fí  d‘uma égua?

PS. Em homenagem ao Centenário de Luiz Gonzaga, o Gonzagão, ocorrido no ultimo dia 13.

Ramalho Leite

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