Ramalho Leite – Ganhos e perdas

Publicado em domingo, dezembro 18, 2011 ·

ramalhoComecei o ano recebendo a missão de dirigir este periódico. Inscrever meu nome entre tantos ilustres paraibanos que por aqui passaram ao longo dos seus 118 anos de existência, me envaideceu. Em 02 de fevereiro,  o jornal voltou ao formato stand, encerrando sua  vegetativa vida de tablóide. Duas semanas depois, minha mãe, que há algum tempo vivia sob cuidados médicos, nos deixou. Começou aí a minha velhice. Perdi a única pessoa que me chamava de menino.

A vida, sem dúvida, é feita de ganhos e perdas. Quando pensava em encerrar o ano sem outras dores a acrescentar, me despeço do único irmão. Dizem que os pais quando batizam filhos com nomes de santos, a estes oferecem suas vidas. Meu nome nasceu de uma promessa a São Severino do Ramo. Meu irmão foi dedicado a Santo Antonio. Antonio Carlos era o seu nome, talvez uma conciliação entre a escolha do pai e a preferência da mãe.

Era uma pessoa alegre. Nunca cogitou fazer o mal a alguém. Inexplicavelmente, foi escolhido para passar por acidentes de percurso que não merecia. Aos dezoito anos, submeteu-se a uma cirurgia complicada que lhe tomou parte do intestino. Nem fumava e nem bebia mas ganhou três úlceras inesperadas à entrada do duodeno. Poucos meses depois, volta à sala de cirurgia para extirpar o apêndice que infeccionara. Foi atropelado quando passava entre dois veículos estacionados… Se não bastasse, um noivado de dez anos transformado em casamento se encerra no nascimento do primeiro filho. Perde a esposa em uma época em que não se morria mais de parto.

Estava com a vida re-organizada.Novamente casado, mais dois filhos, Promotor de Justiça na Comarca de Souza, professor na sua nascente Faculdade de Direito, tirou alguns dias de licença para tratamento de saúde. No quintal de casa, subiu em uma escada para acessar a um pé de côco. A escada desmanchou-se e ele fraturou  a coluna. Permaneceu com um colete ortopédico por algum tempo. Ao retirar o colete, a vértebra trincada se desloca e secciona a medula. Paraplégico desde então.

Mesmo em cadeira de rodas cumpria sua rotina na Vara de Mangabeira.  Tive a satisfação de ouvir depoimentos elogiosos de juízes e advogados sobre sua atividade ministerial. Muitos dos seus colegas promotores compareceram para lhe prestar a ultima homenagem. Aposentado, restauram-lhe  alguns anos para acompanhar a vida dos  filhos. Sob os cuidados de uma Unidade de Terapia Intensiva, ainda ouviu da filha Fernanda relato sobre sua monografia final do curso de direito.Com dificuldade, recomendou que estudasse para o exame da Ordem.

Na véspera do Natal recebeu a mulher e os filhos na UTI. No dia do nascimento do menino Jesus, sua alma foi levada a Deus como um presente de Natal.

RAMALHO LEITE

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