Ramalho Leite – Atrevimento popular

Publicado em quarta-feira, Maio 4, 2011 ·

Acompanhei por dois dias as reuniões plenárias do Orçamento Democrático  que o atual Governo está implantando na Paraíba. A primeira delas, com representantes dos municípios polarizados  por  Souza, em um ginásio de esportes cujo patrono é Antonio Mariz. Casa lotada, as falas eram permitidas por dois minutos e os problemas abordados os mais variados. A votação das prioridades a serem escolhidas ocorreriam no decorrer do evento e, afinal, na ordem das necessidades populares prevaleceu a saúde em primeiro lugar, seguido da habitação  e da educação.

Não havia qualquer censura ou recomendação aos interpelantes. A fala era livre, desinibida e até atrevida, eu diria. Um grupo de ciganos, desaforados por natureza, correu o mundo e trocou  a vida nômade pelo sedentarismo na cidade sorriso. Se antes eram incivilizados, a convivência e a proteção de Antonio Mariz os tornou rebeldes. Gente sem papa-na-língua. Seu representante preferiu abordar  problemas da órbita municipal. Atraído por uma conversa paralela, o prefeito Fábio Tayrone ousou  sorrir. A advertência veio em seguida:

– Prefeito, não é para sorrir não, estou falando com o senhor!

Esse exemplo serve para se ter uma idéia de como está começando um projeto que o governador Ricardo Coutinho chama de “empoderamento do povo”. A convocação  para ouvir  democràticamente a população antes de fazer o Orçamento do Estado e cumprir os seus ditames, inclui também a paciência e a tolerância para sofrer recriminações.

Dia seguinte, durante o dia, entrega de benefícios públicos e uma parada em Brejo das Freiras para o almoço. A mesa farta do sertanejo se reflete naquela pousada. A fome copiosa dos acompanhantes da comitiva governamental se revelou com o adiantado da hora. Quanto todos já se despediam, um garçon passa de mesa em mesa, anota os nomes dos hóspedes e informa que a PBTUR fixou uma tarifa popular para o almoço. Quem pensava em uma boca livre, usou seu próprio orçamento nem tão democratizado.Não vi o Governador pagando, mas não faltava no local quem se oferecesse para pagar suas despesas, pois, exceção, não havia.

Em Cajazeiras, sob um calor de quase quarenta graus que aos poucos foi amenizando, repetiu-se a interação Governo versus Povo, visando a construção do ODE. Deputados, prefeitos, vereadores, secretários de estado todos disponibilizados ao lado do Governador para as interpelações e reivindicações. Desta vez não tinha cigano. Alguém chama a atenção do Chefe do Executivo e ele se distrai. O interlocutor não se intimidou:

– Governador, pode prestar atenção, estou falando com o Senhor?

E Ricardo Coutinho se volta e faz um ar de quem está dizendo: “me desculpe companheiro!”

É esse o povo de hoje em dia. Quer ser ouvido e olhado nos olhos. Encontrou afinal quem se dispõe a fazê-lo. As plenárias do orçamento democrático prosseguem em outras regiões do Estado. Ainda bem que quando eu disputava mandato o meu eleitorado era menos atrevido. O espetáculo democrático sem dúvida é único, bonito e produtivo. Mas, como diz uma irmã minha, confesso para os meus cabelos brancos: é democracia demais e eu não estou acostumado.

O texto é de inteira responsabilidade do assinante

Comentários

Tags :

REDES SOCIAIS











ARTICULISTAS
Ramalho Leite
Karlos Thotta
Padre Bosco





INSTAGRAM @focandoanoticia


Focando a Notícia - CNPJ: 11.289.729/0001-46
Proibida reprodução total ou parcial deste site sem aviso prévio
jornalismo@focandoanoticia.com.br
(83) 99301.2627