Ramalho Leite – A UNIÃO E O IHGP

Publicado em terça-feira, Abril 26, 2011 ·

Estamos assistindo a uma prática que vem do século passado. A primeira Revista do Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba foi elaborada em 1909 e somente publicada em 1910. Esta edição que se prestava a comemorar os Cem Anos da Revista, por sua vez, foi composta e diagramada  em 2010 e desde então dormitava nos escaninhos da Editora A União. A publicação é de 2011. Cumpre-se então a tradição histórica. Ademais, revele-se outra curiosidade:  estando a completar cem anos, era de se esperar que esse exemplar ostentasse pelo menos  o numero cem. Todavia, estamos oferecendo à leitura o numero 41 da Revista.

Os mais apressados poderiam atribuir o fato  à  desídia  de administrações passadas.  A minha leitura, porém, vislumbra a jurássica  pobreza material da Casa e o olhar tímido das gestões públicas para com as  instituições culturais.  Com essa convicção  A Uniao Editora retirou do seu arquivo esta edição da Revista.

Como guardiã da história da Paraíba esta Casa é irmã gêmea de A União, um jornal que faz essa história. Com idades assemelhadas, as duas instituições são frutos da iniciativa de um mesmo homem- Alvaro Lopes Machado. Nos  idos de 1893 este emérito paraibano fundou  o jornal com o simbólico nome de A União para representar a reunificação do seu Partido Republicano do Estado da Paraíba. Doze anos depois, em 1905, como Presidente do Estado, o mesmo Alvaro Machado declarou fundado o Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba sob cujo pálio estamos aqui reunidos.

Mais como uma homenagem à instituição que ora dirijo, pediu-me o presidente desta sessão que fizesse uma apresentação da Revista. Para não improvisar e cansar este seleto auditório terminei por escrever estas poucas palavras. Para me desobrigar  da missão debrucei-me sobre os textos e me deliciei com a leitura, pelo que, só tenho a agradecer ao jornalista José Nunes e ao presidente Joaquim  Osterne que  os selecionaram.

Sou pouco afeito aos trabalhos históricos ( a minha última incursão foi sobre a vida de Solon de Lucena) mas leitor assíduo dos historiadores paraibanos desde a escrita apaixonada de Wellington Aguiar ao cientificismo tabajarino de José Octávio, sem deixar de apreciar os trabalhos de Humberto Nóbrega, Maurílio Almeida ou Dorgival Terceiro Neto para citar apenas os da minha mais próxima convivência.

Não faria aqui uma análise dos fatos inseridos nas páginas desta Revista. Permiti-me, porém, destacar algumas curiosidades que poderão surpreender a alguns. Quem poderia imaginar João Pessoa tomando aulas de marcenaria com um português e  nas horas vagas, tornar-se exímio marceneiro. Quem não sabia vai saber que o renomado paraibano escritor, poeta e teatrólogo Ariano Suassuna nasceu em uma das dependências do Palácio da Redenção quando seu pai, João Suassuna, governava o estado. Este, acusado de proteger cangaceiros, tem a seu favor o cancioneiro popular: Lampião acovardou-se/com a sua cabroeira/não entra na Paraíba/com medo de Zé Pereira/o doutor João Suassuna/mandou dar-lhe uma carreira.

E Ruy Carneiro, aquela fleuma de cidadão que abraçava adversários e amava seus compadres. Pois bem, em 30, era ajudante de ordens de Juarez Távora e ostentava a patente de primeiro tenente. Andei também pelos Caminhos do Padre Ibiapina e  revi na Casa de Caridade de Santa Fé a minha avó Leonor Rodrigues Ramalho, egressa do sertão e fugindo da seca, órfã de pai e mãe e internada no que restara do trabalho apostólico social de Ibiapina. Acompanhei o trabalho dos Beatos e firmei a convicção de Celso Mariz: foi ele um Apóstolo do Nordeste, modestamente descrito em verso de sua autoria: “No centro da caridade/coloquei minha existência/no ministério ocupado/cercado só de inocência”.

A  publicação repassa ainda as idéias políticas do Brasil desde a redemocratização aos dias atuais e chega a Bananeiras com sua história, seu casario e a civilização do café, em estudo que alicerçou o recente tombamento do seu Centro Histórico  pelo Instituto do Patrimônio Histórico da Paraiba. A Revista é uma publicação que merece ser guardada no melhor espaço de qualquer estante.

(Apresentação da Revista do Instituto Histórico da Paraiba, em 15.04.2011)

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