Preparação para uma economia mundial multipolar; saiba o que é

Publicado em quarta-feira, junho 22, 2011 ·


MultipolarEm um momento em que a economia global sofre com uma crise de confiança, desequilíbrios estruturais e perspectivas baixas de crescimento, olhar dez anos à frente para prever o curso do desenvolvimento requer delicados modelos e algo além de sagacidade. O que é necessário é uma abordagem multifacetada que combine um senso de história com uma análise cuidadosa das forças atuais, tal qual a mudança no equilíbrio do crescimento global em relação ao mundo emergente.
Tal previsão ainda requer uma compreensão de como as economias avançadas estão se confrontando com esta mudança, e como o sistema monetário internacional irá se ajustar como resultado disso. Estudando estes fatores, acreditamos que a economia mundial está à beira de uma mudança transformadora – a transição para uma ordem econômica mundial multipolar.
Através da história, paradigmas de poder econômico foram desenhados e redesenhados de acordo com a ascensão e queda dos países melhor preparados para conduzir o crescimento global e fornecer estímulos para a economia global. Multipolaridade, o que significa mais de dois pólos dominantes de crescimento, foi, em certos momentos, um recurso chave da economia mundial. Mas em nenhum momento da história moderna os países em desenvolvimento estiveram na linha de frente de um sistema econômico multipolar.

Mudando a ordem mundial


Este padrão está para mudar. Até 2025, seis economias emergentes – Brasil, China, Índia, Indonésia, Coréia do Sul e Rússia – serão coletivamente responsáveis por cerca de metade do crescimento mundial. O sistema monetário internacional provavelmente deixará de ser dominado por uma moeda única ao longo dos mesmos anos. À medida que buscarem oportunidades no exterior e sejam incentivados por melhores políticas em casa, corporações dos mercados emergentes desempenharão um papel cada vez mais proeminente nos negócios mundiais e investimentos trans-fronteiriços, enquanto grandes reservas de capital dentro de suas fronteiras permitirão que as economias emergentes se tornem jogadores-chave nos mercados financeiros.
Enquanto as dinâmicas economias emergentes se desenvolvem rumo a ocupar seus lugares para dirigir a economia mundial, um repensar da abordagem convencional em relação à direção da economia mundial é necessário. A abordagem atual se baseia em três premissas: a ligação entre poder econômico concentrado e estabilidade; o eixo Norte-Sul de fluxo de capital; e a centralidade do dólar.
Desde o fim da II Guerra Mundial, a ordem econômica mundial centrada em torno dos EUA foi construída sob um conjunto complementar de tácitos arranjos econômicos e de segurança entre os Estados Unidos e seus parceiros centrais, com as economias emergentes desempenhando um papel periférico. Em troca de os EUA assumirem a responsabilidade pela manutenção do sistema, servindo como o último recurso dos mercados, e aceitando o papel internacional do dólar, seus parceiros econômicos fundamentais, a Europa Ocidental e o Japão, consentiram com os privilégios de que gozam os EUA – ganhos de senhoriagem, autonomia das políticas macroeconômicas domésticas, e flexibilidade da balança de pagamentos.
Estes acordos ainda se sustentam amplamente hoje, ainda que evidências de sua erosão tenham ficado claras já há algum tempo. Os benefícios que as economias emergentes colheram ao expandir suas presenças nas finanças e comércios internacionais é apenas um exemplo disto.
Uma economia mundial cada vez mais multipolar se faz presente ao mudar a maneira como o mundo conduz os negócios internacionais. Uma série de empresas dinâmicas de mercados-emergentes estão a caminho de dominar seus setores industriais mundialmente nos próximos anos – muito da mesma forma que companhias baseadas em economias avançadas fizeram durante a última metade de século. Nos anos que se seguirão, tais empresas provavelmente pressionarão para que haja reformas econômicas em seus países, servindo como uma força para a gradual integração de seus países no comércio e nas finanças mundiais.
Assim, o tempo pode ser oportuno para ir adiante com este tipo de proposta multilateral para regulamentação de investimentos trans-fronteiriços, proposta esta que foi ignorada diversas vezes desde a década de 20. Em contraste às relações comerciais e monetárias internacionais, não há um regime multilateral que promova e dirija investimentos trans-fronteiriços.

Mudando a moeda internacional


Por agora, o dólar americano permanece sendo a mais importante moeda internacional. Mas esta dominação está diminuindo, como evidenciado pelo se uso em declínio como moeda de reserva oficial, bem como de bens de serviço e faturamento, dominando negociações internacionais, e ancorando taxas de câmbio.
O euro representa o concorrente mais forte ao dólar, isto enquanto a zona do euro for bem-sucedida em lidar com sua crise de dívida e soberanias através de resgates e reformas institucionais em longo prazo que salvaguardem os ganhos deste projeto de longa duração de mercado-único. Mas as moedas dos países em desenvolvimento sem dúvida se tornarão mais proeminentes em longo prazo.
O tamanho e o dinamismo da economia chinesa, a rápida globalização de suas corporações e bancos, faz com que o yuan tenha grandes possibilidades de desempenhar um papel internacional importante. Em Horizontes do Desenvolvimento Global 2011, o Banco Mundial apresenta aquilo que acredita ser o mais provável cenário monetário em 2025 – um arranjo multi-monetário centrado no dólar, no euro e no yuan. Este cenário é reforçado pela probabilidade de que os EUA, a zona do euro e a China constituíam os maiores pólos de crescimento naquele momento.
Finalmente, a comunidade financeira internacional deve cumprir suas responsabilidades em garantir que o programa de desenvolvimento continue sendo uma prioridade. Países com influência econômica global têm uma responsabilidade especial em aceitar que suas ações políticas tenham importantes efeitos de contágio em outros países. Iniciativas de políticas monetárias que enfatizem crescentes colaborações entre bancos centrais para que se atinja estabilidade financeira e crescimento sustentável em escala mundial, assim, seriam especialmente bem-vindas.
Apesar do considerável progresso que os países em desenvolvimento fizeram em se integrar aos canais internacionais de comércio e finanças, ainda há muito trabalho a ser feito para garantir que compartilhem o fardo da manutenção do sistema global no qual eles rapidamente cresceram. Ao mesmo tempo, é crítico e urgente que os grandes países desenvolvidos criem políticas que levem em conta seu crescimento interdependente com os países em desenvolvimento. Mais e mais, a direção mundial dependerá de alavancar esta interdependência para fortalecer a cooperação internacional e impulsionar a prosperidade mundial.

Tradução de Cainã Vidor. Publicado por Al Jazeera. Foto por http://www.flickr.com/photos/wwworks/.
Justin Yifu Lin é Chefe Economista do Banco Mundial. Mansoor Dailami é o autor do Global Development Horizons (Horizontes do Desenvolvimento Global), e Gerente da Equipe de Tendências Emergentes Globais, no Grupo de Perspectivas de Desenvolvimento, do Banco Mundial.




Fonte: Revista Fórum
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