Pesquisa exclusiva mostra que população desconfia do que é publicado pela mídia

Publicado em quarta-feira, setembro 5, 2012 ·

Há 25 anos, IMPRENSA colocava seu primeiro número nas bancas com uma matéria de capa sobre a credibilidade da mídia. Com o título sugestivo “Credibilidade em Xeque”, a reportagem apresentava os dados de uma pesquisa realizada pelo Instituto Gallup e mostrava que, em São Paulo, a maioria não acreditava no que era veiculado pelos meios de comunicação.
Os resultados da época apontavam que a maioria das pessoas acreditava que a imprensa estava mais preocupada em defender interesses de pessoas e grupos do que em informar e que, consequentemente, alterava dados e notícias na hora da publicação.

Poderíamos supor que a história mudaria esse cenário, já que em 1987 o país estava passando pelo processo de redemocratização, depois de amargar uma ditadura de 21 anos, e a democracia retomava a passos lentos o seu lugar. Nesse cenário, é possível supor a dúvida à imprensa, já que era um momento em que todas as instituições nacionais passavam por descrédito como argumentou na época o jornalista Celso Kinjô, o então editor regional de jornalismo da Rede Globo em São Paulo, atual gerente de Jornalismo da TV Cultura. Passados 25 anos, podemos dizer que o cenário melhorou para a mídia? Interessada em responder essa questão, IMPRENSA refez a pesquisa da sua primeira edição, desta vez com o Instituto Ibope.
EVOLUÇÕES E RETROCESSOS
O resultado aponta que o cenário não melhorou quando o assunto é credibilidade da imprensa. Helio Gastaldi, diretor de Negócios, Opinião Pública, Política e Comunicação do Ibope, explica que a imprensa oscila negativamente dentro de um cenário que já era ruim. A pesquisa atual procurou refazer o cenário da anterior, deduzindo as questões feitas no período, porém também considerando o âmbito nacional. Para garantir a comparabilidade entre as pesquisas, foi criado um filtro que recorta e destaca a região metropolitana de São Paulo que é justamente o âmbito do levantamento realizado em 1987.
 

Assim, analisando São Paulo e comparando as pesquisas, é possível observar que, com exceção do jornal impresso, todas as mídias tiveram queda na credibilidade. De modo geral, o estudo mostra que o leitor tem a percepção de que as notícias publicadas são distorcidas quando mostradas em Assim, analisando São Paulo e comparando as pesquisas, é possível observar que, com exceção do jornal impresso, todas as mídias tiveram queda na credibilidade. De modo geral, o estudo mostra que o leitor tem a percepção de que as notícias publicadas são distorcidas.
O cenário do jornal é um pouco diferente. Enquanto todos os outros veículos tiveram um crescimento no índice de desconfiança quanto à publicação das notícias, o jornal experimentou uma ligeira queda de 83% para 81% e um aumento da confiança na publicação das notícias exatamente como acontecem de 14% em 1987 para 18% em 2012. Segundo Vitor Cunha Criscuolo, Atendimento e Planejamento do Ibope e um dos responsáveis pela análise dos resultados da pesquisa, não é exatamente um dado a ser comemorado, já que está dentro da margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
PERDEMOS A CREDIBILIDADE?
André Chaves de Melo, professor de jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), instaura a dúvida sobre a generalização dos resultados. Para ele, a pesquisa oferece apontamentos e indicativos, mas seria necessária a ampliação do leque das perguntas para permitir uma visão mais sistêmica do cenário da credibilidade. “A pesquisa é sempre uma fatia da realidade. Nesse sentido, ela tem um problema de origem, já que te dá uma resposta parcial do contexto social. Para uma compreensão mais ampla, seria necessário lançar novas questões como, por exemplo, o que os entrevistados entendem por distorção das notícias”, explicou.
Para Ricardo Gandour, diretor de Conteúdo do Grupo Estado, ainda que o cenário seja negativo nos resultados da pesquisa, é preciso considerar as oportunidades que ela propicia para redimensionar o relacionamento do jornal com o leitor. “Não conheço detalhes como o universo da pesquisa ou a formulação da pergunta, mas sei que se analisou a imprensa em geral junto à população. Se a desconfiança se manteve, avalio que temos uma questão estrutural de percepção”, afirmou.
“Nós, editores, temos que enxergar como um potencial para melhorar. É uma oportunidade de conquistar mais leitores, internautas, ouvintes e espectadores. Um aspecto notável é que, nos últimos anos, tivemos manifestações fortemente negativas em relação à imprensa, por parte de governantes muito populares. O jornalismo independente e crítico naturalmente incomoda. Se o governante, ao se dirigir ao povo, solapa a credibilidade da imprensa, isso no mínimo contribui para manter essa percepção”, completou Gandour.
Sobre a realidade específica do jornal impresso, que demonstra um crescimento da credibilidade, ainda que pequena, Gandour é confiante. “Me parece um sinal positivo. Vivemos um crescendo da disponibilidade de informações em todos os meios e em qualquer momento. Isso, frequentemente, pode levar à saturação, desorientação e até à fadiga informativa. O jornal, ao trazer um olhar seleto, finito e com alguma hierarquização das notícias, repõe uma certa organização mental, um estado que não deixa de ser um alívio, um conforto cognitivo. E é classicamente uma mídia muito fiel à separação entre informação e entretenimento, entre concentração e dispersão”, avaliou o jornalista.
E NO BRASIL?
O universo da pesquisa em termos de Brasil aponta outros aspectos que rebatem argumentos do primeiro levantamento. Em 1987, um dos debates suscitados com os resultados é que a credibilidade é proporcional à falta de acesso das pessoas à informação e ao despreparo da população em ler o material publicado. Porém, o que a pesquisa do Ibope mostra é que a taxa de desconfiança com o material publicado pela mídia é maior entre as pessoas com maior nível de escolaridade e com maior poder aquisitivo.
“Este foi um dado que nos chamou bastante atenção, no âmbito Brasil, porque mostra que os mais críticos ao conteúdo veiculado pela imprensa não só são as pessoas com maior poder aquisitivo como também aqueles com maior nível de escolaridade”, afirmou Helio Gastaldi, do Ibope.
Para o professor André Chaves de Melo, de novo o dado precisa ser relativizado. Segundo ele, não podemos desconsiderar que a pesquisa lida com universos completamente diferentes. “Acho que a primeira questão é que vivemos um outro cenário mundial com relação ao que ocorria há 25 anos. Estávamos em um período de redemocratização no Brasil e hoje vivemos em um cenário de democracia sistêmica, ainda que recheado de práticas não democráticas. Por outro lado, a imprensa se tornou parte do cotidiano das pessoas, alterou seu perfil com o advento da internet e isso pode permitir uma reflexão e um debate maior em torno dela”, afirmou.
Melo citou a evolução histórica das revistas como um exemplo de alteração dessa dinâmica do jornalismo e o impacto dessas mudanças para a imagem da própria instituição. “A revista surge da necessidade de interpretarmos os fatos com maior profundidade e se desenvolve nesse vácuo a partir dessa condição social. A compreensão do termo “distorção” pelo público pesquisado pode ter sido confundido com essa característica mais interpretativa do jornalismo de revista. Assim, não me surpreende que as revistas tenham sido o veículo com maior questionamento”, explicou.
Para o professor, uma pesquisa dessa envergadura e com tal importância para o contexto social deve ser mais bem desdobrada em outros questionamentos partindo, por exemplo, de casos da própria cobertura da mídia. “É diferente você perguntar para uma pessoa sobre a distorção de uma notícia no geral e sobre a distorção de uma notícia específica, com um caso que aconteceu e repercutiu na sua vida”, afirmou o professor.
Roberto Muylaert, presidente da Associação Nacional dos Editores de Revistas (Aner), o Brasil tem 5.779 títulos de revistas das mais diversas naturezas, sendo que a grande maioria tem a preocupação de fornecer a informação exata de acordo com seu espectro de cobertura, uma vez que a confiabilidade é um dos maiores atributos das revistas. “Uma revista como a Vogue ou qualquer outra que enfoque as mulheres ou a moda teria quais motivos para distorcer a informação?”, pergunta Muylaert. “Se pensarmos nos títulos de opinião, que estariam sub-judice de acordo com a pesquisa, eles representam uma fatia muito pequena do mercado (1% do total, mais ou menos), ainda que alguns deles tenham grande circulação. Assim, o que se conclui é que a pesquisa apresentada não oferece embasamento suficiente para questionar a credibilidade de quaisquer dos meios de comunicação analisados, em especial a das revistas.”, disse.
CRÍTICA HISTÓRICA
A crítica à imprensa na pesquisa pode denunciar também a fragilidade da confiança da população nas instituições nacionais, uma interpretação que foi usada há 25 anos para explicar os fatores de desconfiança. Segundo Melo, da USP, é possível que a desconfiança histórica nas instituições explique parte dos índices negativos, mas outro elemento precisa ser incluído no debate. “Hoje há certo modismo em criticar a imprensa. Essa crítica se dá, principalmente, quando ela está fazendo denúncias. Em contrapartida, a própria imprensa – e é bom que seja assim – publica as críticas que recebe e isso é uma coisa para se pensar: até que ponto o exercício democrático que a imprensa exerce, chegando até a publicar críticas a si própria,  também não interfere na imagem que estamos construindo da própria imprensa”, afirmou o professor.
Celso Kinjô, que há 25 anos analisou a primeira pesquisa e foi entrevistado por IMPRENSA, atualiza seus argumentos de que a credibilidade da imprensa é diretamente proporcional à credibilidade das demais instituições. “Penso que a desconfiança aumentou em função do funcionamento deficiente das instituições vitais do sistema. Ao longo dos anos, e lá se vai mais de um quarto de século desde a Nova República, o cenário só se agrava, e isso se reflete na desconfiança hoje maior do público em relação à imprensa. Como mediadora do processo de comunicação, a imprensa pouco pode a não ser ecoar os mecanismos de pressão, mas pode absorver e acaba absorvendo esses efeitos”, afirmou o jornalista que hoje está à frente do Jornalismo da TV Cultura.
Questionado sobre as críticas de avaliar veículos tão diferentes em uma pesquisa tão geral, Helio Gastaldi, do Ibope, contra-argumenta. “Se não pudermos avaliar a imprensa como instituição, então também não poderemos analisar as demais instituições. É verdade que sempre há exceção à regra, mas temos que ter uma análise geral para construir apontamentos”, disse.
Quanto às perspectivas para contornar os resultados negativos, parece haver uma convergência em torno da defesa das práticas democráticas. “As instituições brasileiras estão longe de cumprir seu papel, seja pelo noviciado da prática democrática, seja pela cultura cartorial arraigada em nossos costumes. É uma questão de tempo, de décadas ou séculos, para que esse panorama melhore e resgate a confiança do povo”, finalizou Kinjô.
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