Padre Djacy – Política na saúde é desgraça do povo

Publicado em segunda-feira, Março 5, 2012 ·

Em sintonia com a campanha da fraternidade deste ano-Fraternidade e Saúde Pública – quero expor, através da fala do povo sofrido, a maneira como no interior do Nordeste brasileiro, a saúde pública é tratada pelos nossos governantes.

Como é notório, a Política da Saúde deve ser parte obrigatória de qualquer plano de governo, quer federal, estadual ou municipal. É a própria Constituição Federal do Brasil de 1988, no seu artigo 196, que dá alicerce básico para a política da saúde, quando afirma , peremptoriamente, que “a saúde é direito de todos e dever do Estado (…)”.

Infelizmente, na maioria dos municípios brasileiros não há, como convém, a Política da Saúde, e sim, a “política” na Saúde. Com isso, quero dizer que a Saúde, na sua lamentável precariedade, torna-se trampolim ou rampa para muitos políticos (politiqueiros) chegarem ao Poder. Para estes eternos apaixonados pelo o Poder (Poder pelo o Poder), solucionar de uma vez por todas a problemática da Saúde Pública, é estancar as benditas fontes lucrativas do voto (os votos dos pobres). Ora, povo doente, sem assistência digna por parte do Poder Público, é bom demais: rende votos. Quanto mais a população adoece, melhor.

           

Depois de longa caminhada de padre por este sertão paraibano, exponho (literalmente) o que tenho ouvido do povo pobre, excluído, injustiçado, humilhado, sobre seus dramas e humilhações, nos momentos de doenças:

-Meu padre, vou votar naqueles políticos, porque eles são bons.Eles fizeram um posto de saúde na nossa comunidade.

-Sabe o que eu ouvi de um candidato, padre? Ele me disse assim: se o senhor e sua família votarem em mim, quando adoecerem não vou deixar falta nada. Vou dar transporte, hospital, remédio.

-Pobre é bicho besta mesmo, padre, o doutor chegou na nossa casa e perguntou: tem alguém doente,se tiver eu consulto e dou remédio.Depois de perguntar isso,deu para nós,o retrato dele e o número.Pense como pobre é bicho besta?

-Padre, doutor fulano de tal é bom demais,quando chega na nossa casa consulta todo mundo,e ainda dá remédio.Pense num doutor bom demais.Ele é candidato,vamos votar nele ou no candidato dele.

-Seu padre, vereador tal é bom demais, ele conseguiu um carro da prefeitura para levar meu filho doente para João Pessoa. Pense num homem santo?

-Seu padre, na minha cidade há alguns vereadores que passam o dia levando doentes para hospitais de outras cidades. Eita vereador bom danado. Esse merece ganhar na eleição.

-Padre, uma vez fui pedir a ambulância lá na prefeitura e sabe que me disseram? A senhora votou no prefeito, eu disse, não. Então me disseram: vai ser difícil arrumar a ambulância.

-Olha padre, aqui, quem votou no prefeito tudo é facilitado para médico, quem não votou, coitado, morre à míngua.

-Padre Djacy, tem tanto candidato usando a saúde pública para ganhar votos e mais votos.

-Bom, aqui é assim: quem votou no prefeito tem acesso a médico, a remédio, a hospital, quem não votou, só rezar apelando  a Deus para ficar bom.

-Sei não, minha prima precisa de fazer uma cirurgia, mas não vai falar com a secretária da saúde, porque não votou no prefeito. Ela tem vergonha, vão humilhar minha prima.

-Eita vida sofredora essa nossa,quando o pobre adoece,para arrumar uma vaga no hospital é duro,quem tem político forte,ainda consegue se internar,se não ,morre.

-Ah, vou votar no candidato tal, porque ele leva as pessoas doentes para sua casa. Na casa dele não falta nada. A mulher, ele, os filhos e os empregados cuidam da gente. Não falta nada!

-Aquele doutor é bom demais, fez a cirurgia da minha filha. Ele não cobrou nada. Ele é bom demais. Soube que ele vai ser candidato. Toda minha família vai votar nele.

-Vou votar no doutor fulano de tal, ele faz cirurgias de graça, não cobra nada. Já combinamos de votar nele na próxima eleição.

-Tá chegando um tempo bom, tempo de eleição. Nesse tempo, padre, não falta nada prá nós, nem dentista, nem médico, nem remédio, e quem quiser se operar, tudo é facilitado, padre.

-Na minha doença, quem me salvou foi doutor tal, ele me levou para a casa dele, me tratou, me deu remédio e dinheiro para a passagem. Eu, minha mulher e meus filhos vamos votar no candidato dele. Ele merece, é um santo homem!

-Padre, nosso vereador é um santo. Ele tem uma casa na cidade tal, só para receber os doentes que votaram nele. Eita vereador bom demais.

-Ontem, para conseguir uma ficha para o dentista, tive que ir para a calçada do posto de saúde, às três da madrugada. Quando cheguei lá, já tinha muita gente na fila. Muita gente, inclusive dormindo no chão.

-Quando a gente adoece a gente vai para casa que o prefeito fez para as pessoas doentes, lá, de tudo tem, não falta nada. Vamos votar no homem, ele é santo, de Deus.

-Uma vez, padre,meu pai adoeceu,fui pedir uma ajuda na Secretaria de Saúde. Sabe o que me disseram? Nós vamos ajudar o senhor, agora, o senhor vai votar no nosso candidato. Saí de lá chorando, revoltada.

-Vou lhe dizer uma coisa, seu padre, conheço muita gente que está no poder, graças essa saúde desgraçada do nosso estado e da nossa cidade.

-Vou lhe dizer uma coisa, padre.  Na nossa cidade, sempre tem festas de rua feita pela prefeitura. É muita festa. As bandas que vêm são boas, caríssimas. Aí eu pergunto: tem dinheiro para pagar bandas caras, mas não te dinheiro para cuidar bem da nossa saúde. Pode?

-Muita gente ganha voto pagando consulta e remédio para os pobres, seu padre.

-Padre,quando o pobre adoece,é a pior humilhação, a gente sai pedindo a um e a outro. A gente vai na casa do vereador,do prefeito,vai na secretaria de saúde.É uma cruz danada,esta nossa.

-O deputado chegou na minha casa ,apresentou o candidato dele,dizendo: votem no meu candidato,ele é bom,ele dá remédio,leva para o hospital,dá ambulância,dá comida,leva para a casa dele e só volta quando melhora.Votem nele.

-Padre, estou vendendo cartelas de um bingo, que é para pagar um exame muito caro que o médico passou para minha filha fazer; o exame é caro demais.Se eu for pedir ajuda aos políticos,vão pedir meu voto e da minha família.

-Não sei por que tanto desvio do dinheiro da Saúde Pública. Roubam o dinheiro da Saúde, e quem sofre as conseqüências é o povo pobre, seu padre.

-Padre Djacy,sou médico,trabalho neste hospital.Uma coisa eu digo-lhe: em tempo de eleição , este hospital fica superlotado de pessoas doentes.Os políticos os trazem do interior.

-Na no hospital da minha cidade não tem nada, nada, nada, o médico não aparece, não tem remédio, agora os políticos só vivem prometendo que vão equipar o hospital, e nada.

-Padre, no nosso sítio, o povo só ver médico em tempo de eleição.

-Todo ano é sempre assim, vamos melhorar a saúde, vocês vão ter médicos e tudo mais. E nada disso acontece, só fica mesmo na promessa.

-Seu vigário, na nossa comunidade, só tem vez quem votou no homem. Quando adoece, quem votou nele tem tudo, agora ,quem não votou,tem que fazer promessa para escapar.

-Na campanha, o candidato chegou na nossa comunidade prometendo posto de saúde,médico,ambulância,remédio.Ele ganhou,e até agora nada.Tudo ficou na promessa.

-Ninguém se engane, a gente tá aprendendo a ter noção dos nossos direitos dentro da saúde. Político, padre, não pode usar a saúde para se eleger.

-Senhor padre, há uma nova lei de combate à corrupção eleitoral. Nós, na eleição, devemos ficar por dentro dessa tal lei.

-Padre, ta acabando o tempo da enganação, político nenhum queira nos enganar. Saúde, padre, é um direito sagrado do cidadão.

-As coisas estão mudando, padre, a gente sabe que doutor nenhum faz nada de graça. A gente sabe que quando ele faz uma cirurgia, ele assina uma guia para receber o seu dinheiro. A gente era enganada.

-Padre, quem paga as despesas dessas casas para os doentes que existem em patos, campina, João pessoa? É a pessoa do prefeito, do vereador, do deputado, ou existe dinheiro para isso?

É inconcebível, inadmissível, o político fazer política ou politicagem na Saúde. Tal atitude não passa de um crime grave e um atentado à dignidade da pessoa humana. É desrespeitar ou ofender à própria Constituição Federal do Brasil, quando lá está consignado, categoricamente, que “a saúde é um direito de todos e dever do Estado”.

Padre Djacy Brasileiro

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