Mulheres saem às ruas para garantir o direito sobre seu corpo e lutar contra o estupro

Publicado em sábado, junho 4, 2011 ·

marcha-das-vadiasQuem nunca foi censurada pelo tamanho de sua saia atire a primeira pedra! Quem nunca ouviu uma cantada mais grosseira na rua por usar um decote ou foi apontada – mesmo por mulheres – como “vagabunda” por seus trajes ou por ter vários parceiros? O comportamento feminino é ainda hoje extremamente condenado a andar conforme as regras da sociedade, que por sua vez, continua supermachista. Uma das principais feridas abertas pelo preconceito e pela repressão às mulheres é o estupro. Para lutar pelos direitos das mulheres e pela liberdade, acontece no próximo sábado, 4 de junho, em São Paulo a “Marcha das Vadias”.

No começo do ano, em Toronto, no Canadá, um policial fez na televisão local uma declaração que mostra de forma clara como o mundo ainda encara a questão. Ao orientar as universitárias para que evitassem o estupro, ele “sugeriu” que elas não “se vestissem como vagabundas”. A revolta foi instântanea e mulheres de todo o mundo se organizaram e criaram a “Slut Walk”, ou em bom português, a “Marcha das Vadias”.

O manifesto já passou por vários países, incluindo Argentina, Estados Unidos, Grã-Bretanha, Holanda e Nova Zelândia. Milhares de mulheres gritaram ao mundo que são donas de seus corpos e não aceitam a opressão social a que somos todas submetidas diariamente, em nossa casa, trabalho, vizinhança, escola ou universidade. Colocar a culpa no comportamento feminino reforça o esteriótipo machista das mulheres “de bem” e as “vadias”, que teoricamente, agem de certa maneira para se expor e estão sempre à procura de sexo.

Simultaneamente ao Brasil, mulheres de Los Angeles, Chicago, Edmonton, Estocolmo, Amsterdã e Edimburgo também vão às ruas pedir respeito e reforçar que são elas as donas de seus corpos, com direito de fazer com ele o que quiserem, inclusive sexo, com um ou vários parceiros.

“A marcha diz que a mulher tem direito a sua sexualidade, que essa sexualidade deve sempre ser respeitada, e que é absurdo esse padrão duplo de sexualidade, isso de uma mulher que faz sexo ser vadia, e um homem que faz sexo ser um garanhão. É muito fácil ser chamada de vadia – basta ser mulher. E a Marcha diz: sim, somos mulheres, fazemos sexo, temos orgulho, vai nos chamar de vadias por isso? É um enfrentamento, mas ao mesmo tempo, pelas fotos que vi, é uma manifestação festiva que, ao menos em Toronto e Boston, teve a participação de muitos homens, de famílias inteiras” aponta Lola Aronovich, feminista e dona do blog “Escreva, Lola, escreva”, onde trata do tema.

A questão do estupro, claro, vai muito além. “Acho que nós mulheres falamos bastante sobre estupro. Faz parte do nosso cotidiano. Pelo menos a ameaça está sempre presente, e ela tolhe a nossa liberdade. Mas e os homens? Quando que eles vão falar sobre estupro? Quando irão encarar sua responsabilidade em mudar um quadro que é tão desolador para a sociedade?”, questiona Lola.

“Vivemos numa cultura de estupro, em que a publicidade e a mídia em geral vivem enviando mensagens de que estupro é glamuroso, de que as mulheres gostam, de que é uma velha fantasia feminina. A pornografia lucra muito com isso: os homens são grandes consumidores de vídeos onde estupros são simulados. Chegamos num ponto em que se digitarmos no Google “moça estuprada pelo pai”, seremos levados a sites de pornografia, não a sites de ajuda a essas vítimas. Isso, pra mim, é cultura de estupro”, declarou a blogueira.

Estatísticas

Apenas no primeiro trimestre desse ano, em São Paulo, 3585 mulheres foram estupradas, de acordo com a Secretaria Estadual de Segurança Pública. No Rio de Janeiro, 1246 já foram violentadas, e o número apresentou aumento entre janeiro (396) e março (434), de acordo com dados do Instituto de Segurança Pública, o ISP. Na maioria das vezes, o estuprador é alguém conhecido, o que torna o crime ainda mais cruel e prova concreta do pensamento machista de possessão do corpo da mulher.

“É preciso ampliar o debate que temos sobre estupro. Nós mulheres aprendemos desde cedo que é perigoso andar sozinha, é perigoso vestir tal roupa, é perigoso sair de casa à noite. Mas boa parte dos estupros acontece dentro de casa: 80% dos estupros são cometidos por pais, padrastos, tios, primos, namorados, amigos, chefes, etc – enfim, por conhecidos da vítima”, acrescenta Lola, que também é professora de Literatura na Universidade Federal do Ceará.

Recentemente, o humorista do CQC, Rafael Bastos, foi infeliz ao fazer piada com o tema e declarar que as mulheres feias deveriam “agradecer” por terem sido estupradas. O assunto virou assunto em todos lugares, da mídia até a mesa do bar, onde, apesar da grande revolta popular com as declarações de Rafael, alguns mostraram-se a favor do humorista, por considerar o que ele faz “humor”.

Mas será que não há llimites para fazer graça? Lola e milhares de mulheres garantem que sim. “Esses humoristas “moderninhos” acham que são inovadores, mas vivem à base de regurgitar velhos preconceitos. Estupro tem muito mais a ver com violência, com humilhação, com uma relação de poder, que com sexo. Declarações como essa perpetuam velhos preconceitos, que já passaram da data de validade para expirar”, completou.

MSN

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