Massacre do Carandiru, 20 anos: Pastoral Carcerária critica impunidade de Fleury

Publicado em sexta-feira, outubro 5, 2012 ·

Em memória dos 20 anos do Massacre do Carandiru, inúmeros movimentos sociais que integram a Rede Dois de Outubro – data da tragédia – realizam nesta semana uma série de atividades para cobrar o fim do que chamam de “massacre da juventude negra e pobre”, representado pela política de encarceramento em massa, o “auto de resistência” e a cobertura sensacionalista do tema da segurança pública.

Na última terça-feira (2), lideranças religiosas estiveram em frente à Catedral da Sé, no centro de São Paulo, para lembrar a morte de 111 presos na Penitenciária do Carandiru durante o governo de Luiz Antônio Fleury Filho. Até hoje não houve julgamento dos envolvidos. Houve leitura de poemas e de falas dos integrantes de movimentos como Mães de Maio, Rede Extremo Sul, Coperifa e Rede Não te Cales.

Em seguida, os presentes iniciaram uma caminhada pelo centro de São Paulo, quando realizaram nova homenagem em que citaram cada um dos nomes dos 111 assassinados. A marcha passou em frente ao Tribunal de Justiça e, por fim, à Secretaria de Segurança Pública do Estado. Presente em toda a atividade, Carta Maior entrevistou o advogado Rodolfo Valente, que integra a Pastoral Carcerária.

Carta Maior Em que estágio se encontra o processo judicial do Massacre do Carandiru?
Rodolfo Valente – Após muito tempo, foi designado o júri para os dias 28 e 29 de janeiro de 2013. Infelizmente apenas os policiais são réus. Luís Antônio Fleury segue impune e sequer foi investigado. Hoje de manhã [terça-feira] fizemos uma “singela” homenagem, com um escracho em frente à casa dele. Vamos continuar esculachando enquanto a impunidade persistir.

CM O caso foi levado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos?
RV – Sim, no mesmo ano do massacre. A comissão chegou a divulgar um relatório com uma série de recomendações ao Estado de São Paulo, mas nenhuma delas foi cumprida. Uma das recomendações era sobre o fim da superlotação carcerária. Isso até piorou. Nós vemos claramente que quanto mais se constrói presídios, mais se prende. O remédio para superlotação não é construir presídios, é soltar quem não tem que estar preso. O sistema prisional não está aí para combater a criminalidade, está para gerir aqueles que não se inserem no mercado de trabalho, no mercado de consumo. Hoje, para se ter uma ideia, metade da população prisional está presa por conta de crimes sem violência ou de grave ameaça. Oitenta por cento da população prisional está presa por crimes contra o patrimônio ou pequeno tráfico de drogas. E nesse pequeno tráfico de drogas, muitas vezes essas pessoas são usuárias. Enfim, é um sistema de aprofundamento de desigualdades, e não um sistema de justiça.

CM Como vê a cobertura da mídia?
RV – Há uma grande simbiose entre a mídia, o sistema de Justiça e a polícia, e ela está toda a favor desse sistema de exploração dos poucos que detêm muito sobre os muitos que não têm nada. A mídia é só uma engrenagem nessa máquina de moer gente, de produzir estereótipos. A mídia está aí para legitimar e fomentar este discurso. Temos a ideologia que diz que o Estado existe para proteger o povo e que nossa pequena mídia, de três ou quatro emissoras, está dialogando com o povo. Nós sabemos que ela não está.

Carta Maior

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