Mãe pede para escola reprovar aluno de 10 anos que não sabe ler

Publicado em quarta-feira, Fevereiro 19, 2014 ·

Mateus Antero estuda na Escola Estadual Malik Didier (Foto: Jonathan Cosme/ TV Centro América)
Mateus Antero estuda na Escola Estadual Malik
Didier (Foto: Jonathan Cosme/ TV Centro América)

Frequentar a escola regularmente para aprender a ler e a escrever não tem dado certo para um dos alunos da Escola Estadual Malik Didier Namer Zahafi, no Bairro Pedra 90, em Cuiabá. Silvia Estevam de Carvalho, mãe do aluno Mateus Antero, de 10 anos, disse ter implorado para a direção da unidade de ensino reprová-lo. O menino está no quinto ano do ‘Ciclo de Formação Humana’- quarta série do ensino fundamental -, mas não sabe ler, nem escrever.

“Ele só sabe copiar do quadro, então acho melhor retê-lo do que aprová-lo, sem que ele apresente condições para isso”, disse ao G1 a estudante de pedagogia, Silvia Estevam de Carvalho, que trabalha como auxiliar de limpeza. Ela contou ter exposto a situação durante reunião realizada recentemente entre a assessoria pedagógica da Secretaria Estadual de Educação (Seduc) e pais de alunos, mas que a resposta é de que não podem retê-lo, pois o sistema de ensino não permite. “Eles [direção da escola] me dizem que ele [filho] aprenderá no tempo dele, mas não acho normal, porque o que será do futuro do país”, declarou.

Silvia trabalha na escola onde o filho estuda na função de auxiliar de limpeza e, segundo ela, esse não é um problema apenas do seu filho. “Tem muitos alunos em situação pior ainda, porque já estão no 7º ano e não sabem ler, nem escrever”, disse. Ela contou que o filho só consegue escrever se estiver copiando do quadro, mas não consegue entender o que escreve. É como se estivesse desenhando. Mateus é filho único.

A escola em que ele estuda obteve a menor média no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2012 em Mato Grosso. A unidade foi fundada há 22 anos e até 2011 só oferecia a Educação para Jovens e Adultos (EJA) como modalidade de ensino.

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O secretário da unidade de ensino, José Carlos Oliveira, afirmou ao G1 que o sistema determina que o aluno não pode ser retido. “Ocorre que nas escolas ‘cicladas’, independentemente do aluno saber ou não, ele não pode ser retido, porque também existe a questão de idade e série”, disse, ao exemplificar que, no ano passado, a escola recebeu um aluno da rede municipal que tinha 13 anos e fazia a quarta série, mas a escola não pôde matriculá-lo nessa série e o ‘elevou’ à 8ª série.

“É culpa do sistema, porque a escola não faz milagres. Por mais que tenhamos vontade de ajudar o aluno, ele pulou as fases de aprendizagem”, lamentou. Ele disse ter tirado dúvidas com a Seduc quanto à questão desse aluno, especificamente, e a resposta que recebera foi de que tinha que seguir o sistema. “Em alguns casos, a culpa também é da família. Tem casos em que o aluno não é matriculado no tempo certo e, quando o Conselho Tutelar descobre, obriga os pais a colocá-lo na escola, mas às vezes causa um desequilíbrio psicológico no aluno ao ver que os colegas mais novos sabem mais do que ele”, avaliou Oliveira.

Ele citou a média obtida pela Malik Didier no Enem, em 2012, como resultado desse método de ensino. Explicou que, dos 21 alunos que fizeram o Exame, 20 eram da Educação para Jovens e Adultos (EJA), que também não reprova os alunos. “São alunos que passaram 20 anos sem estudar e concluíram o ensino médio em um ano e se saíram mal, até porque a EJA não reprova”, contou. Segundo ele, o sistema exige somente que o aluno tenha 75% de presença para ser aprovado. “Isso é ruim para as escolas. Em São Paulo tinha esse tipo de ensino e foi revogado”, comentou.

Para a coordenadora de Ensino Fundamental da Seduc, Aparecida de Paula, a situação de Mateus é delicada, mas não é permitida a retenção de nenhum aluno até o final do terceiro ciclo e está no segundo ciclo. “O normal é que a criança aprenda no processo de aprendizagem, mas a questão de ficar retido não está prevista no ciclo”, afirmou. Conforme a coordenadora, a política tem o intuito de fortalecer o trabalho pedagógico, mas que dependendo da situação de cada aluno é designado um professor para acompanhá-lo.

Ela avalia que a capacidade cognitiva varia entre os alunos. “Está prevista uma compreensão cognitiva das crianças. Se a criança está no ciclo, ela não precisa ficar retida, porque cada uma tem a capacidade cognitiva a seu tempo”, argumentou, ao fazer um contraponto: “Se uma criança de seis anos tiver à frente das demais, não precisa ficar amarrada aos colegas de seis anos”.

 
Pollyana Araújo

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