Machismo: pesquisa mostra que brasileiros ainda querem uma ‘Amélia’

Publicado em quarta-feira, dezembro 4, 2013 ·

Foto: Getty Images
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O machismo no Brasil é um tema que volta e meia está no topo das discussões: quando se pensa que avançamos neste aspecto, logo aparece alguma novidade para provar o contrário. E enquanto muita gente pensa que alguns conceitos ficaram lá no século passado, uma pesquisa vem trazendo dados preocupantes dentro deste cenário.

 

O instituto Avon apresentou esta semana os resultados do estudo Percepções dos homens sobre a violência doméstica contra a mulher. O tema machismo foi abordado em diversas questões, uma vez que o comportamento representa um tipo de violência.

 

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Ficou comprovado que muitos deles ainda esperam da mulher o papel de Amélia: servil e pouco ousada. Entre os destaques, estão dados como: 85% dos homens consideram inaceitável que a mulher fique bêbada; 69% não querem que a mulher saia com amigos (as) sem o marido e 46% não gostam que mulheres usem roupas justas e decotadas.

 

Quando o assunto são as tarefas domésticas, 43% acham que quem deve cuidar da casa é a mulher, enquanto que 89% dos entrevistados consideram inaceitável que a mulher não mantenha a casa em ordem. No campo da sexualidade, 47% deles concordam que o homem precisa mais de sexo do que a mulher.

 

Álcool, roupas e liberdade
Sair com as amigas, para muitas mulheres, é sinônimo de liberdade e de algumas horas de descontração – longe das obrigações envolvendo trabalho, filhos e casa. Embora alguns homens tenham dificuldade em admitir, o ciúme e o instinto de ‘propriedade’ está presente em muitos relacionamentos.

 

​Luciano Vinícius de Carvalho Castro, 36, tecnólogo, reforça os números da pesquisa neste sentido. “Sair com as amigas implica em não saber o que está acontecendo, o que coloca o homem na condição de quem perdeu o controle sobre a situação”, afirma.

 

Já o gestor ambiental Marcos Flavio, 28, discorda. “Dentro de uma razoabilidade moral, não sendo ridículo, nem expondo a intimidade, creio que uma roupa decotada, combinando, seja sim bonito”, analisa.

 

As roupas justas, condenadas por 46% da amostra, também representam um problema para Luciano. “É natural que o homem hétero sinta atração pelo corpo da mulher. É isso que, a princípio, desperta sua libido, e ele não se sente confortável sabendo que outros homens possam estar – e estarão – admirando o corpo de ‘sua propriedade’”, pontua.

 

Já quando o assunto é o álcool, rejeitado por 85% dos homens da pesquisa, as opiniões são divergentes. Diego Rodrigues, 28, executivo, acredita que é aceitável uma mulher ficar bêbada, mas com uma ressalva. “Desde que não seja uma coisa frequente, ou em situações em que não convém.”

 

O gestor operacional Robson Leandro da Silva discorda. “E daí que a mulher ficou bêbada? Se fosse o contrário (mulheres achando inaceitável homens bêbados) diriam que é frescura”.

 

Luciano observa que, entre os que criticam e os que simplesmente aceitam, também existe uma terceira categoria: os que tiram uma vantagem dessa situação. “Acho pior que considerar inaceitável, a maioria dos homens espera tirar proveito de mulheres alteradas pelo álcool”, observa.

 

Síndrome de Amélia
O estigma da Amélia, ‘que era mulher de verdade’, vem sendo rejeitado ao longo dos anos por muitas mulheres, que hoje em dia têm enorme representatividade no mercado de trabalho. Os homens mais abertos à esta mudança de padrão aceitaram a virada, porém, como comprova a pesquisa, existem muitos que ainda preferem se acomodar no papel de marido provedor – que simplesmente é servido e não assume papéis na vida doméstica.

 

Luciano tem uma explicação para a alta porcentagem que acha que cuidar da casa é coisa de mulher. “Eu diria até que mais de 43% acham isso, pois é uma mentalidade transmitida e reproduzida pela família tradicional”. Diego concorda: “acho que mulher tem mais bom gosto para cuidar da casa no que diz respeito a móveis, louças, organização.”

 

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Para Matheus, o segredo é o equilíbrio. “Os casais atuais dividem as tarefas e compartilham as coisas boas e ruins de cuidar da casa”, afirma, embora também acredite que “as mulheres são muito mais preocupadas com isso que os homens.”

 

Robson é contra o número da pesquisa. “Essa divisão não deve existir. Se você divide a casa com alguém, deve dividir as tarefas. A menos que um dos dois tenha por hobby, por exemplo, cozinhar. O que não acredito que aconteça com a questão da limpeza. Felizmente, as mulheres trabalham hoje e não devem assumir as funções de doméstica”, observa.

 

Sexo
Os hormônios masculinos geralmente são os ‘culpados’ pela aparente maior necessidade de sexo deles. E pelo visto eles concordam, já que 47% pensam desta forma, segundo a pesquisa.

 

C.R.S., 33, contato comercial, que prefere não se identificar, a informação procede. “O homem é mais sexual do que a mulher. Os homens admitem e as mulheres mais convencionais também. Mas não é palavra, é comportamento, pelo menos sob minha visão.”

 

Luciano acha que, neste caso, o machismo vem delas. “A maioria das mulheres que introduziram o machismo em suas vidas pensa que o homem necessita mais de sexo do que elas mesmas. Por isso acham um absurdo dividir a conta do jantar e do motel”, completa.

 

Violência doméstica
Os números da violência propriamente dita, revelados pelo estudo, também não são animadores. Entre os mais alarmantes, estão o de que 16% já foram violentos com a companheira, atual ou ex; 56% dos homens já cometerem algum tipo de agressão com a companheira, entre eles, xingamentos (53%), empurrões (19%), tapas (8%).

 

Além disso, 35% disseram desconhecer a lei Maria da Penha, enquanto que 48% deles não apoia a mulher a buscar a Delegacia de Mulher caso o homem a obrigue a fazer sexo sem vontade.

 

A pesquisa lembra ainda que a cada 4 minutos uma mulher é vítima de agressão no Brasil e até 70% delas sofrem violência ao longo da vida.

 

Terra

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