“Lula ladrou, gritou e protestou, mas nunca fez nada para controlar a imprensa”, diz Di Franco

Publicado em terça-feira, outubro 23, 2012 ·

Representante no Brasil da Universidade de Navarra, Carlos Alberto Di Franco está entre os principais especialistas quando o assunto é Ética e Mídia. Atual diretor do Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS), o acadêmico foi responsável pela chegada da conceituada universidade espanhola ao país quando propôs às redações – há 15 anos – o “Master em Jornalismo” com foco em gestão.
Atualmente, o IICS também oferece o “Master em Jornalismo Digital” e segundo Di Franco, para 2013, prepara uma edição do “Master” com foco na estratégia do negócio das empresas de jornalismo. “O desafio agora é preparar lideres nas redações não apenas para fazer uma boa gestão editorial, mas para fazer o comando estratégico. Estamos convencidos de que o jornalista preparado para a gestão tem de estar envolvido com a estratégia da companhia”.

Luiz Gustavo Pacete
“O Brasil mudou de patamar com o julgamento do mensalão”
Di Franco é colunista do Estadão e de diversos outros jornais pelo país. É membro do Conselho Nacional de Autorregulamentação (CONAR) e do Comitê Editorial da ANJ. Autor de “Jornalismo, Ética e Qualidade” (Editora Vozes, São Paulo), “La Noticia Sembrada” (Editora Istmo, México), “Jornalismo como Poligrafia” (Porto, Portugal), “O Futuro da Informação na América Latina” (Buenos Aires) e coordenador do livro “Agenda Brasil – Perspectivas para a próxima década” (Ed. Manole, São Paulo).

Em entrevista, Di Franco comenta a atual situação da liberdade de imprensa e rechaça qualquer tentativa de controle. Para o professor, o julgamento do mensalão é um marco para o país e resultado do trabalho feito pela imprensa. Sobre o futuro das empresas de comunicação, ele alerta para que os líderes tenham cabeça fria e tomem decisões de forma racional.

IMPRENSA – Em que momento a Universidade de Navarra olhou para o jornalismo brasileiro?
Carlos Alberto Di Franco – A minha relação com Navarra já era profunda antes mesmo de criarmos a área de comunicação no IICS. Alguns professores da universidade estiveram em São Paulo e Rio de Janeiro em congressos em que eu estive muito envolvido. A partir da concepção do Master de Jornalismo, o que passava em minha cabeça era preparar editores e diretores para função de gestão. Hoje, um editor gere orçamento e pessoas. A faculdade não preparou o editor para ser um gestor, preparou para ser jornalista. Creio que me antecipei um pouco. Conversei com as empresas jornalísticas e fui até Navarra buscar professores que fossem acadêmicos, mas que também tivessem uma experiência prática.
Qual o desafio para as empresas de jornalismo?
Estamos lançando um Master em Gestão em 2013 que não tem paralelo no mundo e ilustra um pouco desse desafio que é preparar líderes nas redações não apenas para fazer uma boa gestão editorial, mas para fazer a gestão do comando estratégico. Estamos convencidos de que o jornalista preparado para a gestão tem de estar envolvido com a estratégia da companhia. O mercado de comunicação é muito delicado. O grande risco é você trazer apenas profissionais brilhantes, mas que não têm nada a ver com comunicação.
Como as empresas estão se saindo em momento de crise e mudanças?
Vivemos um momento de mudança cultural profunda. Você tem hoje uma geração de pessoas interessadas em um mundo virtual, tablets, smartphones. Isso é um fato objetivo, positivo e negativo ao mesmo tempo. Positivo por causa da democratização da informação. Pela internet você tem acesso em qualquer biblioteca do mundo. Isso tem uma repercussão positiva na própria democracia. O lado negativo é que vamos perdendo profundidade. As pessoas não pensam, não refletem. Ficam numa linha superficial. Acho que vivemos um momento desafiante, mas que só vencerão as empresas que tiverem muito claro que a chave é conteúdo de qualidade.

Luiz Gustavo Pacete
“Lula ladrou, gritou e protestou, mas nunca fez nada para controlar a imprensa”
Não é um paradoxo? As empresas estão enxugando suas redações no momento em que precisam produzir com qualidade…
É importante pensar onde e quando enxugar. Você pode enxugar muita coisa sem matar o coração que é a qualidade do conteúdo. Agora, a obsessão não deve ser a plataforma, mas a qualidade. Não adianta migrar, investir no digital e esquecer a qualidade. As empresas precisam qualificar seus profissionais, sua ética. Caso isso não aconteça, vão ruir. Não existe produto que se sustente sem qualidade.  Eu acho que as empresas vivem um momento de perplexidade que pode ser perigoso quer dizer insegurança, incerteza que em minha opinião deve exigir da parte dos líderes cabeça muito fria.
O senhor vê de forma favorável não termos uma lei de imprensa?
A eliminação da lei de imprensa veio na linha passional. Eliminar o entulho autoritário. Ainda que ela tivesse essa imagem, não era uma má lei. Era uma lei interessante e que nos dava embasamento jurídico. Agora que ela desapareceu você não tem onde se apoiar. Não existindo a lei de imprensa, um juiz de primeira ou segunda instância, condena as empresas de comunicação adoidadamente. É um limbo total.

E a discussão sobre o controle social da mídia?

A discussão sobre o controle social é fundamentalmente ideológica no sentido de estabelecer um controle partidário. Disso eu não tenho a menor dúvida. Agora, dizer que não existe liberdade? As redações têm em seu corpo majoritariamente jornalistas de esquerda que nunca foram cerceados. No fundo o que querem é ter um controle com viés autoritário. Venezuela, Equador, Bolívia e Argentina. Nestes países a imprensa está sendo liquidada. Eu acho um absurdo. Não tem o menor sentido um controle. Sob este aspecto a presidente Dilma deu uma guinada notável. Embora é preciso defender que o Lula nunca deu nenhum passo para controlar a imprensa. O Lula ladrou, gritou e protestou, mas nunca fez nada efetivamente para controlar a imprensa.

Qual tem sido o papel da imprensa no mensalão?
O Brasil vive um momento extraordinário com o julgamento do mensalão. O país vai mudar de patamar civilizatório. É a primeira vez na história que uma pessoa não pobre a ir para a cadeia. Geralmente, quem tem poder e dinheiro não vai para a cadeia.  Agora, o julgamento do mensalão seria possível sem a imprensa? E sem uma imprensa livre falando o que falava? O importante é a liberdade funcionando amplamente. Além disso, existem os processos penais. Se você sentir-se caluniado, injuriado ou difamado processe o jornal. Retomando ao controle, creio que isso permite criar um país infantilizado. A censura sempre vem travestida de proteção da sociedade. Acho que não é por aí.
Luiz Gustavo Pacete

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