“Lamentável o Brasil seguir o México no grupo em que mais se mata jornalista”, diz Fepalc

Publicado em sábado, dezembro 17, 2011 ·

A violência a que estão sendo submetidos os jornalistas mexicanos não é exclusividade daquele país. O Brasil pertence ao grupo dos três países da região que mais se mata jornalista, segundo a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP). Em primeiro lugar vem o México, com 11 mortes, no ano de 2011; Honduras e Brasil empatam, com cinco assassinatos.


Zuliana Lainez

Diante da situação, a secretária de Direitos Humanos da Federação de Jornalistas da América Latina e Caribe (Fepalc), Zuliana Lainez, chama a atenção para as consequências da violência vivida no México e aponta que não são somente cartéis os inimigos da imprensa mexicana, mas a própria polícia.

À IMPRENSA, ela fala sobre os principais esforços da Felpac destinados a ajudar os mexicanos.

DE QUE MANEIRA A FEPALC ANALISA A VIOLÊNCIA CONTRA JORNALISTAS NO MÉXICO?
O México é o país mais perigoso para o exercício do jornalismo, não só na América Latina, mas no mundo. A Fepalc documentou o assassinato de 11 comunicadores sociais no ano de 2011. Calcula-se que 98% dos crimes contra jornalistas no país estejam impunes. As maiores ameaças provêm do narcotráfico, do crime organizado e dos próprios poderes políticos. A relação do crime organizado com as próprias autoridades, encarregadas de investigar os casos e aplicar justiça, gera a hipótese de que o fazer jornalístico seja o primeiro a ser prejudicado nas investigações.
É VERDADE QUE OS CARTÉIS ESTÃO COMEÇANDO A USAR OS JORNALISTAS COMO MENSAGEIROS?
No México, os jornalistas não só viraram alvo dos cartéis por publicar algo, como são ameaçados quando se negam a publicar informações de um ou outro criminoso inimigo. Ou seja, os jornalistas estão em meio a um fogo cruzado. No país, existe uma tipologia particular para os ataques: agressões diretas contra pessoas, principalmente jornalistas (assassinados e sequestrados), cujo objetivo será calar vozes de maneira seletiva. Os agentes agressores: o crime organizado, membros do corpo policial, e autoridades locais e federais.
ALÉM DOS RELATÓRIOS, O QUE A INSTITUIÇÃO ESTÁ FAZENDO PARA CONTRIBUIR COM A IMPRENSA DAQUELE PAÍS?
A Fepalc, em coordenação com sua organização afiliada, o Sindicato Nacional de Redatores do México (Snrm), monitora e entra com ações sindicais em defesa dos jornalistas. Nosso trabalho não fica só no relatório ou nos informes, mas também nas denúncias e pronunciamentos sobre a situação. Pretendemos ir mais além, buscar e consolidar a presença da organização sindical que permita ações de mobilização da própria sociedade mexicana. O Estado é quem tem a responsabilidade de garantir o livre exercício do trabalho jornalístico. As escandalosas cifras de impunidade (que alentam mais crimes sob a premissa que nunca serão identificados os autores e muito menos julgados) fazem com que o próprio Estado seja denunciado diante dos tribunais internacionais a fim de que assumam sua responsabilidade.
ANTES DA GUERRA CONTRA O CRIME, A IMPRENSA VIVIA QUAIS TIPOS DE DIFICULDADES?
O principal problema dos jornalistas no México sempre foi a violência. O crime organizado é sua principal ameaça – causa de crimes e desaparições. Paralelamente, existem outras ameaças constituídas pela alta concentração midiática daquele país, leia-se monopólio. A inflexível e agonizante legislação da rádio comunitária – que não possibilita de maneira real e efetiva dar voz aos “sem vozes”.
BRASIL E HONDURAS ACOMPANHAM O MÉXICO NOS RELATÓRIOS DA SIP SOBRE VIOLÊNCIA. É POSSÍVEL COMPARAR A SITUAÇÃO DESSES PAÍSES?
São os três países com maiores cifras de jornalistas mortos na região nos últimos três anos nessa ordem: México, Honduras e Brasil. A situação comparada em números é abismal (em 2011, México tem 11 casos, Honduras cinco e Brasil cinco). A situação do México é histórica e, talvez, comparável somente com o que aconteceu na Colômbia. Em Honduras, o agravamento responde ao golpe militar (antes, durante e depois) contra o presidente Manuel Zelaya e, no Brasil, as zonas de violência estão focalizadas sempre com relação a denúncias de grupos de mafiosos e narcotraficantes. O Brasil só se distingue do México por que o Estado investiga os casos.
Outra diferença notável entre o que acontece no México e Brasil é que no primeiro país é difícil articular um movimento coletivo dos jornalistas que façam frente à situação. Já no Brasil, a estrutura sindical se converte em um suporte importante para reclamar a impunidade dos assassinatos, visibilizar a situação, demandar democratização das comunicações, e demandar melhores condições de vida e trabalho para os jornalistas.
O QUE VOCÊS TÊM SENTIDO DA POSIÇÃO DO GOVERNO MEXICANO COM RELAÇÃO ÀS PROPOSTAS PARA PROTEGER JORNALISTAS?

A Fepalc mantém forte preocupação em torno das autoridades do México. Existe consternação por falta de resposta diante da violência contra jornalistas. Nos últimos meses, existe um discurso mais retórico em torno de alguns casos em que o Governo Federal se compromete a investigar os crimes, porém, nenhum resultado concreto ainda foi verificado. Sobre a impunidade em que permanecem os mais de 66 casos de jornalistas assassinados nos últimos 10 anos, não existe uma só ação.

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