Jornalistas investigativos falam sobre desafios deste tipo de cobertura no Brasil

Publicado em sexta-feira, setembro 13, 2013 ·

Pouco tempo e muitas tarefas. O cotidiano em uma redação jornalística não costuma contribuir para a prática da investigação, que exige cautela, empenho e carrega grande carga de responsabilidade. Para piorar, casos de cerceamento de liberdade se tornam cada vez mais comuns para os profissionais que se dedicam a este tipo de cobertura.
Crédito:Stock.XCHNG
Processos contra repórteres e falta de apoio financeiro prejudicam jornalismo investigativo no Brasil
No últimos meses, com o vazamento de documentos por parte do soldado Bradley Manning ao WikiLeaks e do ex-funcionário da NSA Edward Snowden a Glenn Greenwald, os governos passaram a se preocupar ainda mais com os veículos de comunicação. O britânico The Guardian chegou a ser coagido a exterminar dados secretos e David Miranda, companheiro de Greenwald, foi detido durante nove horas no aeroporto de Londres.

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Segundo o presidente da Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj), Celso Schröder, não há dúvida de que as intimidações por parte de governos são um fator histórico. A diferença é que agora tal fator estaria cada vez mais presente em atos de Estados ditos como democráticos. “Principalmente, atrás dos chamados atos patrióticos”, diz. “É um elemento cerceador de liberdade e que tem de ser combatido veementemente.”
Deadline inimigo
Natália Viana, diretora da Agência Pública, diz acreditar que o principal entrave para a prática no Brasil é a falta de investimento. “Há uma necessidade urgente de mais jornalismo investigativo. O público quer mais jornalismo de qualidade.” Para ela, outro ponto negativo são os prazos muito curtos. “É preciso apoiar o tempo que o jornalista precisa para fazer um trabalho de qualidade e mais aprofundado.”
O jornalista Alan Rodrigues, da IstoÉ, um dos responsáveis pela matéria que denunciou um suposto cartel em obras do metrô, afirma que “nem todas as empresas seguem esse ramo, pois querem um resultado imediato, o que não acontece na profissão”.
Juliana Dal Piva, jornalista freelancer que trabalha com temas envolvendo o regime militar, embora nunca tenha sido ameaçada diretamente, afirma que “é cada vez mais difícil fazer jornalismo investigativo no Brasil pelas condições e pela velocidade com que se tem de trabalhar”. Segundo ela, o fato de atuar como jornalista independente dificulta ainda mais a prática. “É difícil você bancar uma investigação como freelancer.”
Problemas na Justiça
Para o jornalista Chico Otávio, do jornal O Globo, o que existe, muitas vezes, é um excesso no uso de decisões judiciais estabelecidas a pretexto de garantir a privacidade de réus, mas que, na verdade, procuram apenas impedir o acesso da imprensa — e do público — ao andamento de algum tipo de investigação relevante.
Por esse motivo, o repórter defende a divulgação de informações importantes. “Se receber algum material protegido pelo serviço de justiça e que considere de relevância pública, como repórter, acredito que o interesse público está acima da privacidade supostamente pretendida pela decisão judicial.”
Claudio Tognolli, diretor da Abraji, considera a quantidade de profissionais processados um dos maiores problemas do jornalismo investigativo brasileiro. Ele lembra a pesquisa feita em 2007 pelo dono do Consultor Jurídico, Marcio Chaer. O estudo revelou que o Brasil é o país que mais se processa jornalistas em ações cíveis.Tognolli relata que os jornais vetaram que seus departamentos jurídicos divulgassem esse número com medo de que isso pudesse prejudicar as ações dessas empresas.

Sem represálias
Para Helio Gurovitz, diretor de redação da revista Época, para que jornalistas possam trabalhar com segurança e saber que não serão hostilizados pelo seu trabalho são necessárias condições internas e externas. Primeiro, é preciso trabalhar em veículos absolutamente profissionais, “que tenham a independência e a coragem necessárias para publicar informações sensíveis, que enfrentem qualquer grupo de interesse”.
De acordo com ele, os casos de flagrante violação ao livre exercício do jornalismo precisam ser divulgados, investigados e punidos. “Infelizmente, eles existem mesmo nas democracias mais maduras. E continuarão a existir, enquanto os jornalistas investigativos exercerem seu papel de investigar o poder.”
Para Chico Otávio, embora a Lei de Acesso à Informação já tenha melhorado o cenário para jornalistas, ainda estamos longe do ideal. Segundo ele, grandes entidades nunca deixam de responder solicitações, mas são sempre vagas. “Nas entrelinhas, em muitas respostas fica claro a má vontade dessas instituições que ainda não se deixaram sensibilizar pelas transformações que a Lei trouxe para a vida pública”, diz. “São fortalezas da cultura do segredo que resistem à Lei de Acesso, embora se digam transparentes.”
Na última quarta-feira (11/9), IMPRENSA publicou a primeira parte da reportagem sobre o jornalismo investigativo após os casos Manning e Snowden. Confira o texto.Evento

Nos dias 07, 08 e 09 de outubro, em São Paulo (SP), IMPRENSA realiza o Midia.JOR, seminário internacional de Jornalismo, que, entre os debates, contará com uma mesa exclusiva para o jornalismo investigativo, com a presença de Roberto Cabrini (SBT); Rubens Valente (Folha de S.Paulo) e Sérgio Lirio (CartaCapital).

Para mais informações e inscrições, clique aqui.

Alana Rodrigues e Edson Caldas

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