Jornalistas e historiadores relembram influência da imprensa para o golpe de 1964

Publicado em segunda-feira, Março 31, 2014 ·

O dia 31 de março de 1964 começou com tempo instável, chuvas e temperatura em declínio, dizia a capa do Jornal do Brasil. Nunca uma previsão meteorológica fez tanto sentido com o momento político de um país. Naquele dia, a instabilidade rondava o Palácio do Planalto e as ruas das principais capitais do Brasil. A chuva que caía sobre a nação anunciava as lágrimas que correriam pelos rostos de muitos brasileiros. A temperatura declinaria, transformando o recente outono num inverno de 21 anos.
Crédito:Acervo Iconografia
Nesta segunda-feira, 31 de março, o Brasil completa 50 anos desde o Golpe Militar

Era este o clima naquela terça-feira. Os tanques tomavam as ruas e bradavam, com seu som pesado, o peso das Forças Armadas no poder. Ao contrário do que foi disseminado nos livros de história e na memória coletiva, o Golpe Militar não aconteceu apenas por obra dos homens fardados. Foi apoiado pela Igreja Católica, por uma parcela da sociedade civil, e incentivado pela grande imprensa que, depois, sentiria o corte lancinante do facão da censura.

Se cinquenta anos depois muitos apontam alguns veículos como parte da chamada “imprensa golpista”, o que diriam sobre o dia da deposição do presidente João Goulart, quando praticamente todos os jornais pediam, clamavam e insuflavam aos militares para que tomassem o poder? O fato é que a instabilidade do governo de Jango, somada à proposta das reformas de base e à insatisfação dos altos generais e empresários com as políticas tidas como “comunistas”, contribuíram para que a imprensa abraçasse um tom pró-golpe.
Apoio da mídia
Segundo a historiadora Maria Aparecida de Aquino, da Universidade de São Paulo (USP), “no primeiro momento, a imprensa toda está fechada e conspira contra o regime de João Goulart, constitucionalmente eleito. Houve uma conspiração generalizada. O único jornal que está fora dessa linha é a Última Hora”. Juremir Machado da Silva, jornalista, historiador e autor do livro “1964 – Golpe Midiático- Civil-Militar”, reforça esta ideia. “Jornal do Brasil, O Globo, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Dia, Correio da Manhã e Tribuna da Imprensa fizeram campanha pela derrubada do presidente e todos embarcaram na balela de que o golpe serviria para salvar a democracia”.
Crédito:Divulgação
Zuenir Ventura contou que a imprensa não só apoiou o golpe, mas mobilizou a opinião pública para apoiá-lo

Os editoriais “Basta!” e “Fora!”, do Correio da Manhã, ficaram famosos por exigirem a queda do presidente. No primeiro, divulgado ainda no dia 31 de março, o jornal pedia uma ação contra Jango: “(…) Os Poderes Legislativo e Judiciário, as classes armadas, as forças democráticas devem estar alertas e vigilantes e prontos para combater todos aqueles que aten tem contra o regime./O Brasil já sofreu demasiado com o governo atual, agora basta!”.

No dia seguinte, 1.º de abril, embora fosse o dia da mentira, o Correio não brincava em seu novo apelo para a saída do presidente. Defendia que o chefe de Estado tentava implantar uma ditadura e que precisava devolver o governo, pois “a Nação e a liberdade estavam em perigo”.
Para Juremir Machado, cinquenta anos depois, fica evidente que “a imprensa agiu por precipitação”. “A mídia aceitou a tese rasteira de que o Brasil estava à beira do comunismo e que Jango representava o caos e a anarquia. Poucas vezes se fez um jornalismo de tamanha má qualidade no Brasil”.
Arrependimento
O jornalista Zuenir Ventura afirma que “num primeiro momento, a imprensa não só apoiou o golpe, como foi peça importante no seu desfecho, mobilizando a opinião pública para apoiálo”. Sérgio Cabral, um dos fundadores de O Pasquim, completa esta tese. “A imprensa se comportou como uma linha auxiliar [ao golpe].
Crédito:Divulgação
Frei Beto era estudante de jornalismo na época do golpe

Alguns jornais eram francamente golpistas”. Entretanto, logo após os primeiros Atos Institucionais baixados pelo governo, limitando as liberdades democráticas, alguns veículos mudaram de posição, mesmo tendo papel importante no incentivo ao golpe. Clóvis Rossi, que trabalhava no Correio da Manhã, diz que o jornal “logo se opôs ao golpe e acabou asfixiado. Outros, como o Estadão, sofreram censura prévia”.

Para Ventura, a mudança de lado do Correio da Manhã, por exemplo, ajudou a redimir o jornal do adesismo à derrubada de Jango, denunciando “os excessos e abusos da ditadura que se instalou no país”. Maria Aparecida de Aquino avalia que esse “arrependimento” da imprensa no apoio aos militares fez com que jornais acabassem se chocando com o regime, passando a sofrer penalidades, como a censura prévia e os processos na Justiça Militar.
No entanto, Machado não vê tanto prejuízo para alguns jornais que, após se adaptarem à censura, continuaram apoiando o regime. “A imprensa gosta de se autoelogiar com as histórias sobre poemas de Camões e receitas de bolo — publicada no Estadão e Jornal da Tarde — como formas inteligentes de resistência à censura. Só se esquecem de falar do seu entusiástico apoio ao golpe”, conclui.
Na contramão
Última Hora, de Samuel Wainer, foi o único jornal contrário à deposição de Jango e sofreu as consequências desse apoio ao governo constitucional, tanto que foi um dos primeiros a ser empastelado pelo novo regime. No editorial no dia 1.º de abril, a publicação criticava a análise de alguns jornais americanos apoiando a ação militar, especialmente o texto do Washington Star. “(…) É um elogio do golpe retrógrado e antidemocrático, feito em tom de superioridade partindo do pressuposto de que as Forças Armadas brasileiras não devem ter escrúpulos, senso de responsabilidade de apego às instituições democráticas e às liberdades públicas”.
Crédito:Milton Bellintrane
Paulo Cannabrava

Esse posicionamento decretou o fim do diário. Paulo Cannabrava, que trabalhava no caderno de “Política” na sucursal do Última Hora em São Paulo, conta que o jornal praticamente acabou no dia 31 de março. “Eu cheguei para trabalhar e a sede já estava cercada pelas tropas. O jornal deixou de existir nesse mesmo dia. Meses depois fui até lá para receber. Eles foram muito decentes e pagaram todo mundo”, conclui.

No momento do golpe
 “Eu estava em Belém do Pará num congresso latino-americano de estudantes. O congresso foi desfeito logo que a gente soube do golpe. Cada um partiu para um lado.” – Frei Betto,estudante de jornalismo na época.
“Eu estava na rua, cobrindo o golpe pelo Correio da Manhã. Circulava entre dois focos da conspiração, o Palácio do Governo e o comando do 2.º Exército. Reagi intensificando a cobertura.” – Clóvis Rossi, era repórter do Correio da Manhã
“No dia 1.º de abril, eu cheguei para trabalhar e o jornal estava cercado pelas tropas.” – Paulo Cannabrava, era repórter do Correio da Manhã.
“Em 1964, eu era da sucursal da Folha de S. Paulo e não me lembro de nenhuma perseguição no jornal, de que alguém tenha sido demitido por ser comunista ou suspeito de ser de esquerda.” – Sérgio Cabral, era repórter da Folha de S. Paulo.
“Em 1964, estava no Mosteiro de São Bento, onde era monge beneditino. Recebi a notícia do golpe no ofício noturno. Num primeiro momento, imaginei um golpe de estado, mas jamais poderia adivinhar que o regime duraria 21 anos.” – Sinval de Itacarambi Leão, era monge beneditino antes de ser jornalista e diretor de IMPRENSA
“Depois de uma viagem de quase três dias num desconfortável fusca e sem ter notícias do que acontecia, chegamos a Brasília, minha mulher, eu e dois amigos, no dia do golpe. Eu ia lecionar jornalismo na universidade recém-fundada por Darcy Ribeiro [UnB]. Foi quando se soube que as tropas de Minas comandadas pelo general Mourão Filho estavam marchando em direção ao Rio. Até hoje não sei como conseguimos voltar num voo em que só havia militares.” – Zuenir Ventura, trabalhava no Plano Nacional de Alfabetização.
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