Ideia de “justiça com as próprias mãos” gera onda de linchamentos

Publicado em sexta-feira, abril 4, 2014 ·

linchamentoNum bairro de Rosario (Santa Fé), cidade localizada a 310 km da capital da Argentina, o jovem David Moreyra, 18 anos de idade, após supostamente tentar roubar a bolsa de uma senhora com um bebê nos braços, foi prontamente interceptado por moradores do local e linchado publicamente. Deixaram-no estendido no asfalto por mais de duas horas, com golpes brutais. Quando a polícia chegou, já é tarde. Com uma fratura na cabeça, morreu num hospital depois de agonizar por quatro dias. Na Internet, centenas de pessoas festejam o homicídio do adolescente, entendendo que o povo fez justiça, ainda que com as próprias mãos.

Se identificadas, as pessoas que causaram sua morte podem ser processadas por homicídio simples, que prevê penas entre oito e 25 anos de prisão. “Mais que pessoas, pareciam animais. Ninguém tem direito de tirar a vida de ninguém”, declarou à imprensa Lorena Torres, mãe de David, indignada.

Fatos como esse têm sido cada vez mais recorrentes no país e gerado uma polêmica discussão acerca da responsabilização pelas feridas sociais. Segundo a imprensa argentina, somente em nove dias de março, foram registrados pelo menos 10 linchamentos em todo o país, a maioria em Santa Fé, considerado o “núcleo duro” do narcotráfico na Argentina.

Ainda em Rosario, dois jovens a caminho do trabalho numa moto foram atacados, confundidos com criminosos por um grupo de motoristas de carros de aluguel que haviam acabado de ser assaltados. “Moradores organizados: se te pegamos, não irás à delegacia, vamos te linchar”, ameaça cartaz escrito à mão num bairro da cidade. No mesmo município, quatro jovens com idades entre 17 e 23 anos, após tentarem cometer roubo, foram surpreendidos e gravemente feridos por moradores, cansados da condição de insegurança.

“Viemos repudiar energicamente os atos de violência que vêm reiterando-se em distintos bairros da cidade”, afirma a Assembleia pelos Direitos da Infância e Juventude, espaço de coordenação de organizações e movimentos sociais concebido em 2013. “Repudiamos também o apoio massivo através das redes sociais de muitos outros ‘cidadãos de boa fé’ que celebraram o feito como se fosse uma façanha”, complementa.

A entidade avalia que a postura da população que adere ao linchamento repete as condições de desigualdade, entendendo que há vidas que valem mais e vidas que valem menos. “Entendemos que há outras formas de violência que se invisibilizam e que geram a crescente desigualdade social, em que adolescentes se criam como podem, em condições de vida indignas, tratando de sobreviver à falta de políticas inclusivas do Estado, apesar da estigmatização e discriminação dos meios massivos de comunicação”, destaca.

Papel das instituições

Foto: Infogei

Diego Galeano, doutor em História e membro da Conseja Roja, rede latino-americana de Jornalismo Jurídico, destacou em um artigo que o fato ocorreu numa cidade que vem mostrando um grave ciclo de homicídios e corrupção policial e num país que, em mais de 30 anos de democracia, não conseguiu reformar seu “apodrecido” sistema de justiça penal e sua polícia. Ele chama a atenção também para a participação da mídia hegemônica na propagação desse tipo de ato popular. “Na televisão e no rádio temos agitadores da pior barbárie punitiva”, avalia.

Para o secretário-geral do partido político de oposição Movimiento Libres del Sur (Movimentos Livres do Sul), Humberto Tumini, uma irresponsabilidade do governo agigantaria a agressividade social. “A primeira condenação deve ser dos governantes, que têm permitido que os argentinos tenham de viver dessa maneira”, afirmou. Diante da onda de linchamentos, a presidente da Argentina, Cristina Fernández, em cadeia nacional, chamou a atenção para que os argentinos não se “deixem arrastar” pelo ódio e pela vingança. “A violência se espiraliza”, advertiu.

* Com informações de Conseja Roja, El Comercio, Indymedia Argentina Centro de Medios Independientes e do Movimieto Libres del Sur.

Comentários

Tags :

REDES SOCIAIS











ARTICULISTAS
Ramalho Leite
Karlos Thotta
Padre Bosco





INSTAGRAM @focandoanoticia


Focando a Notícia - CNPJ: 11.289.729/0001-46
Proibida reprodução total ou parcial deste site sem aviso prévio
jornalismo@focandoanoticia.com.br
(83) 99301.2627