Gravidez de carioca aos 61 anos gera polêmica

Publicado em domingo, setembro 25, 2011 ·

gravidez1Aos 90 anos, Sarah, mulher de Abraão, deu à luz Isaac, amamentou-o por cinco anos, teve muito tempo para ser mãe e morreu aos 127 anos. Milagres como esses, antes só relatados na Bíblia, começam a acontecer no Brasil. E isto por causa das técnicas modernas de inseminação artificial. Um exemplo é o caso da carioca I.. Aos 61 anos, ela dará à luz em novembro seu primeiro bebê. Como isto foi possível? Ela recebeu o implante de um óvulo doado, fertilizado em laboratório com o sêmen de seu marido, que tem 38 anos. Ela não quer revelar seu nome porque sabe que sua gravidez causa certo estranhamento e já foi objeto de polêmica entre os médicos.

Para quem pensa que o caso de I. é exceção, basta lembrar de outras mulheres que engravidaram depois dos 50. No último dia 9, a mineira Janete da Silva Pinheiro, de 52 anos, foi mãe pela primeira vez. Casada há 23 anos com Ítalo Albizzati, de 88 anos – já bisavô -, ela deu à luz um casal de gêmeos em Nova Lima, na região de Belo Horizonte. Também este ano, no dia 15 de agosto, a atriz Solange Couto, casada com Jamerson Andrade, de 24 anos, teve seu terceiro filho, aos 55 anos. Histórias como as de I., Janete e Solange trazem de volta a polêmica sobre qual é o limite de idade para engravidar.

Especialistas do Conselho Federal de Medicina (CFM) andam preocupados com a nova onda. Mas a última resolução da entidade não impõe limite de idade para inseminação ou fertilização de mulheres. Um casal pode recorrer à reprodução assistida “desde que exista probabilidade efetiva de sucesso e não incorra em risco grave de saúde para a mãe ou o descendente”. A única restrição: o número de embriões implantados no útero não pode passar de quatro.

Segundo o médico Adelino Amaral, presidente da Associação Brasileira de Reprodução Assistida, chegou a ser proposto o limite de idade de até 50 anos para mulheres, mas a decisão não foi unânime e o conselho vetou limites.

– A orientação é respeitar a fisiologia do organismo feminino. Em média, a mulher entra na menopausa aos 53 ou 54 anos, e deixa de ovular. Fazer inseminação ou fertilização além dessa idade é falta de bom senso. Há risco de a gestante sofrer hipertensão grave, diabetes e ter parto prematuro – alerta Adelino, lembrando que isso aconteceu com os bebês de Janete. – Depois da menopausa, a mulher só engravida com óvulo doado. Quanto maior a idade, maior o perigo.

As chances de engravidar naturalmente são baixas acima de 40 anos, mesmo com ajuda de reprodução assistida. Adelino cita estudo publicado na “Fertility”, mostrando que, em mulheres submetidas à fertilização in vitro na faixa de 40 a 43 anos, o índice de nascimentos foi de apenas 7%; acima de 46, chegou a 1,7%. Para I., a inseminação deu certo. Com a ajuda de uma amiga, ela pesquisou o endereço de uma clínica e logo na primeira consulta soube que só conseguiria engravidar com óvulo de doadora.

– Eu já estava na menopausa e fazia reposição hormonal. Ou aceitava óvulo doado ou nada. Meu marido queria muito ser pai. Eu também queria ser mãe. Sempre me cuidei, tenho ótima saúde, nunca fumei, não bebo e fiz dança durante anos. Passei por rigorosa avaliação clínica e o médico se sentiu seguro para levar o procedimento adiante. Deu certo na segunda tentativa com óvulos da mesma doadora. – conta I., que não pretende revelar à futura filha que ela nasceu de um óvulo doado. – As características da doadora, que por contrato não posso saber quem é, são similares às minhas. – Eu gerei o bebê, então sou a mãe de fato.

I. conta que as pessoas ficam mais preocupadas do que ela quando descobrem a sua gravidez – revelada só à família e a poucos amigos. Ela brinca:

– A minha avó, na idade que estou, andava de cadeira de rodas. Hoje, uma mulher aos 60 anos, quando se cuida, está em plena forma – diz I., enquanto discute com o marido detalhes do quarto do bebê.

Para a gravidez dar certo, ela retirou pólipos e precisou de hormônios para preparar o útero para receber o embrião. Com a formação da placenta, passou a ter naturalmente produção dos hormônios da gravidez. E poderá amamentar, pois a hipófise no cérebro estabiliza a secreção de estrogênio e progesterona e estimula a produção de leite.

O especialista em reprodução humana Marcello Valle, do Hospital da UFRJ e diretor da Clínica Origen, que tratou de I., conta que o caso dela é raro, e só foi possível porque I. está bem do ponto de vista clínico cardiológico, e emocional.

– A medicina está quebrando barreiras, e a discussão de casos de maternidade tardia é feita muito mais sob os aspectos moral e filosófico – diz Valle. – A história desta mulher é exceção e não significa que todas as mulheres acima de 50 anos podem engravidar. Há riscos no tratamento e o casal deve estar bem informado a respeito deles. A avaliação médica precisa ser muito criteriosa.

O bebê de I. não tem o seu material genético, só o do pai e da doadora do óvulo. Mas na escolha, conta Valle, foram levados em conta características físicas, etnia e tipo sanguíneo da gestante. E, por enquanto, ela não tem contraindicação para parto normal.

A resolução do CFM não permite que a doadora venda seus óvulos no Brasil. Aqui, a doação de óvulos é mais rara que a de sêmen. Mas na Espanha – um dos países mais liberais – paga-se até mil euros por cada óvulo, e 100 euros pelo sêmen, diz Adelino, lembrando ainda que hoje é comum brasileiras aos 35 anos, que ainda não decidiram ser mães, congelarem seus óvulos para serem usados por elas mesmas futuramente. Em média, cobra-se de R$ 800 a R$ 1.200 para retirar o óvulo para congelamento e a mensalidade de manutenção é de R$ 40 a R$ 60 mensais. Já cada tentativa de fertilização in vitro passa de R$ 10 mil. A carioca I. precisou de duas fertilizações para engravidar. Esta medicina é cara. Mas, em geral, os casais que buscam estes tratamentos podem pagar.

O Globo

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