Em quatro anos, mais de 100 mil garrafas falsificadas de cerveja são encontradas no Brasil

Publicado em sábado, setembro 6, 2014 ·

cervejaTirar o rótulo e a tampinha de uma cerveja barata, e colar nela o rótulo e a tampinha de uma cerveja mais cara. Tecnicamente, um processo nada complexo. Fácil, até, considerando que traz lucros de três dígitos. Era o que fazia um supostamente pacato comerciante do bairro Jardim Romano, na Zona Leste de São Paulo, segundo os agentes do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) que o prenderam. Pegava garrafas da pequena cervejaria Socorro, oriunda da cidade paulista de mesmo nome, e as fazia passar por Brahma e Skol – duas das cervejas de maior participação no mercado brasileiro, produzidas pela AB-InBev.

Em maio, cinco pessoas foram presas por PMs de São Paulo, em uma casa em Ferraz de Vasconcellos, cidade da Região Metropolitana de São Paulo. Dois jovens de 20 anos e um de 18 flagrados com 64 engradados de cerveja disseram ter sido contratados há três meses pelos dois proprietários do imóvel para fazer, basicamente, a mesma coisa, substituir rótulos e tampinhas das mais baratas pelos das mais caras.  Em julho do ano passado, o mesmo Deic já havia prendido um pedreiro que atuava de forma semelhante na Avenida Parada Pinto, em Vila Nova Cachoeirinha, Zona Norte da cidade.

Maior mercado consumidor do país, São Paulo, não à toa, parece ser alvo constante dos falsificadores, mas está longe de ser exceção. Nos últimos quatro anos, policiais civis e militares de todo o país desmantelaram pelo menos do que 17 esquemas deste tipo de crime em sete estados e no Distrito Federal, segundo levantamento feito por Dois Dedos de Colarinho junto a fontes policiais e periódicos online de todo o país.

Somente em 2014 (que ainda não acabou, como sabemos), consegui identificar 6 casos distintos, mesmo número de 2013. Outros 3 casos foram divulgados pelas autoridades em 2012 e 2em 2011. No total, 50 pessoas foram presas, incluindo três menores de idade (que são “apreendidos”, para usar o termo técnico correto). O volume envolvido nestas fraudes é de 101,8 mil garrafas.

Apesar de São Paulo ter registrado os casos mais recentes, ficou em segundo lugar no ranking por incidência neste levantamento, com 3 episódios.

O maior número foi descoberto no estado de Minas Gerais: 7. Goiânia e Piauí tiveram 2 casos cada; Distrito Federal, Rondônia e Pernambuco, 1 cada.

DESCOBERTAS QUASE SEM QUERER

Há desde as falsificações mais “artesanais”, de poucas dezenas ou uma centena de engradados, geralmente feitas por uma pessoa, a quadrilhas especializadas, como a comandada por um dentista em Sete Lagoas, detida com nada menos que 4 mil caixas. Há também esquemas chefiados por comerciantes, inclusive donos de bar, como ocorreu em Rondônia, em setembro de 2011.

Como se trata de um levantamento bem básico, os números, claro, devem estar longe do total de casos registrados de fato pelas autoridades no período. Investigações sobre anos anteriores também deverão encontrar mais ocorrências. Mas, no mínimo, eles atiçam a imaginação. Quantas outras quadrilhas estão por aí fazendo o mesmo e se dando bem? Palpite de quem passou quatro anos fazendo reportagens de crime e segurança pública: devem ser poucas.

Um dado curioso que se destacou entre os demais é que, nos 17 casos, em apenas um – em Picos, no Piauí, havia informações na imprensa de que consumidores teriam percebido a troca das marcas. Na maioria dos casos, não foi possível identificar a origem da denúncia. Um deles, foi por puro acaso. O dentista de Sete Lagoas mencionado acima, e os demais foram presos porque um policial militar suspeitou de um dos homens estar do lado de fora do galpão, como se estivesse vigiando.

Em outras, os agentes da lei esperavam por outras coisas ilícitas. Em Itumbiara, no estado de Goiás, uma equipe da divisão de entorpecentes da Polícia Civil achou que tinha encontrado, em abril deste ano, um ponto de venda de drogas no bairro Cidade Jardim. Era um falsificador de cerveja. Em outubro do ano passado, policiais de Contagem acharam que tinham descoberto um esquema de sonegação (venda de produtos sem nota fiscal). Era um grupo que mantinha alguns poucos trabalhadores em condições análogas à escravidão, como se diz hoje em dia, e transformava cerveja Lokal em Skol e Brahma.

NÃO SE BRINCA COM O KARMA

Pesquisa conduzida pela USP em 2012 mostrou que a maioria das marcas comerciais de massa apresentava a substituição da cevada pelos tais “cereais não malteados” (derivados de milho e arroz) perto do percentual máximo de 45% permitido pelo Decreto federal nº 6.871/09, que regulamenta a produção de bebidas. Normalmente, há vantagem financeira na troca das matérias-primas – o xarope de milho de alta frutose (HFCS), por exemplo, costuma ser cerca de 30% mais barato que a cevada malteada, segundo fontes da indústria. Mas as empresas garantem que o objetivo é a suavização do sabor, a adequação ao clima e ao paladar da população.

Além disso, o uso do lúpulo, planta que pode infundir na bebida uma vasta gama de aromas e sabores na cerveja, conforme estudo que mostrei em reportagem do ano passado, caiu 40% nos últimos 20 anos, segundo um estudo feito com base nos estoques e na produção mundial de alfa-ácido (substância extraída do lúpulo que é responsável pelo amargor). Além do amargor, as diferentes variedades de lúpulos trazem notas completamente diversas, podendo remeter a frutas cítricas, flores, ervas…

As grandes cervejarias estão pagando o preço de terem reduzido seus produtos, sensorialmente, a um “mínimo denominador comum” da cerveja. Afinal, passaram décadas refinando as tecnologias para oferecer produtos que, sensorialmente, representam pouco mais que uma refrescante dose de álcool. “Suavizadas” para agradar a olfatos e paladares dos mais diversos, as cervejas comerciais de massa tornaram-se praticamente indistinguíveis. Presas fáceis para os falsificadores de hoje, que, como comprovou a CPI da Pirataria (da qual pude cobrir alguns lances, como repórter, entre 2004 e 2006), estão acostumados a esquemas muito mais complexos do que substituir rótulos e tampinhas.

Mude o rótulo e o público leigo passa batido. É preciso ser um especialista altamente treinado para detectar, com segurança, diferenças significativas entre elas em testes cegos – eu não tenho a menor vergonha de dizer que não sou um destes. Todas as fraudes se baseiam nesse princípio “quem é que vai reparar?” Pois é, ninguém está reparando.

É por essa e outras, amigos, que não se brinca com a Lei do Karma.

O Globo

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