Descaso e frustração. Denuncias ao mau atendimento médico não são priorizadas pelo MP ou CRM

Publicado em domingo, abril 21, 2013 ·

saudeUma das profissões de maior prestígio na sociedade contemporânea é, sem dúvidas, a do médico. A medicina se destaca como o curso mais procurado das instituições públicas e privadas de ensino. Contudo, em paralelo a esse prestígio a medicina tem sido também um dos serviços com o maior número de reclamações e queixas registradas pela Promotoria do Consumidor (Ministério Público).

 

Entre as denuncias recebidas tanto pelo Ministério Público, quanto pelo Conselho Regional de Medicina (CRM), as mais recorrentes tratam da desumanização da relação médico/paciente, com relato de maus tratos, descaso e descomprometimento por parte dos profissionais da área.

 

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De acordo com o Dr. João Alberto Morais, corregedor do Conselho na Paraíba, todos os dias o órgão recebe denuncias que confirmam a tecnificação dos atendimentos e o distanciamento imposto a essa relação. Porém, a averiguação dos casos é feita de acordo com uma linha de prioridades. “Todos os dias recebemos denuncias, algumas denotam infração ao código de ética, outras são desprovidas de cabimento. Sendo assim, as denuncias passam primeiro por uma seleção para depois apurarmos os fatos”, disse.

 

Nesse caso, as denuncias que recebem maior atenção por parte do Conselho são aquelas que comprometem a vida do paciente, ou, os casos de negligencia médica. Queixas relacionadas ao tratamento pessoal são ouvidas, mas não recebem tratamento especial. “As principais queixas, no que diz respeito a médico/paciente, são relacionadas à demanda excessiva de pacientes tanto nos hospitais públicos quanto particulares. O excesso prejudica a capacidade física dos médicos e acaba gerando uma insatisfação nos pacientes que já se encontram sensibilizados pela doença”, explicou o corregedor.

 

Em relação às queixas direcionadas ao Ministério Público, o promotor de defesa do consumidor, Gualberto Bezerra, assentiu que existem processos de diferentes naturezas em andamento e que os pacientes que se sentem prejudicados têm direito a serem ressarcidos por danos morais e materiais. “Estamos estudando uma nova cartilha para os serviços médico/hospitalares, e adianto que os hospitais serão obrigados a manter comissões de infecção hospitalar funcionando e haverá ainda mais urgência em relação as maternidades e UTIs”, declarou.

 

Casos – Apesar de haver órgãos que se responsabilizam por acolher essas denuncias, muitos são os casos que ilustram o crescimento dessa relação automatizada dentro dos consultórios médicos. Problema que afeta indiscriminadamente toda a população, como é o caso do estudante de direito Natan Félix, que aos 22 anos já move um processo contra o Hospital da Unimed. A jornalista A.S, de 36 anos que sofreu com o descaso durante a gravidez e o editor Paulo Cavalcante, 44, que também foi vítima de maus-tratos em uma consulta particular.

 

De acordo com os depoimentos dos pacientes, a naturalização do ‘procedimento padrão’ e a desatenção dos órgãos responsáveis à mecanização das condutas médicas é um dos fatores que mais contribuem com a disseminação dos casos.

 

Para Cavalcante, o que ficou de uma consulta rotineira foi a frustração. “Depois de um longo tempo de espera, tive um atendimento de 5 minutos e a prescrição de remédios sem justificativa ou explicação, nem de como deveria tomá-los. A consulta era particular, mas tive acesso a um procedimento padrão, mecanizado no qual o médico mal olhou para mim. E eu era o último da fila, não havia porque ter pressa”, declarou. Acredito que o médico as vezes se sente deus, mas apesar disso não conseguem tomar nenhuma decisão sem antes pedir os exames. Eles não apalpam, não olham, nem se interessam pelo paciente. Olha para nós não como uma pessoa, mas como uma doença apenas. Talvez eles acreditam que somos incapazes de entender o que eles estão vendo, ou simplesmente não se preocupam com isso”, desabafa.

 

No caso de A.S, o sentimento não é diferente. Grávida de primeira viajem, tudo que procurava era o atendimento humanizado de uma obstetra que pudesse tirar suas dúvidas e acompanhar a gestação de maneira delicada. “Fui indicada ao atendimento de uma médica por amigas que já haviam tido bebe. Como ginecologista ela foi uma médica atenciosa, mas como obstetra foi péssima. Foi altamente fria, mecânica… Quando passei por um descolamento de placenta de 3 cm e perguntei se era muito ela me mandou medir com uma régua. Ela não deu a mínima atenção, me livrei de uma ‘carnificeira’ ainda nos primeiros meses e sei de casos que a mesma médica tratou com descaso de pacientes que passaram por abortos naturais”, relatou.

 

Contudo, é a história de Natan Felix, que revela um dos descasos mais recorrentes, e também mais naturalizados pelos conselhos. No final do ano passado, o rapaz foi internado e passou por todos os procedimentos do pré-operatório, incluindo um jejum de mais de 12 horas, quando foi notificado pelo Hospital da Unimed de que o médico teria esquecido de sua cirurgia. “Me senti revoltado, angustiado. Não tiveram respeito pela minha pessoa, tive a dignidade relegada. Estou processando por danos morais e materiais a Unimed e o médico pelo descompromisso”, explicou.

 

Para Dr. João Alberto Morais, as denúncias devem ser apuradas detalhadamente, já que, muitas vezes, “existem outros fatores a serem esclarecidos e que os médicos também têm direito a defesa”.

Contudo, para Cavalcante, é preocupante ver a mecanização do tratamento, mais ainda é perceber que nem as escolas de medicina, nem o Ministério Público ou o CRM estão preocupados com isso, já que os erros médicos são priorizados nas denúncias. “Eles não entendem que o erro, muitas vezes, vem da ganância do médico, da má formação, ou da falta de atenção em relação ao paciente”, finaliza.

Cybele Soares

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