Depois do crack, do óxi, agora é a vez do “crack colorido”

Publicado em segunda-feira, Maio 16, 2011 ·

crackNo centro de SP, “Hulk” e “Capitão América” são as pedras tidas como mais potentes e em alta entre viciados

Óxi se confunde com outros subprodutos do crack entre os usuários na cracolândia, apesar do cheiro de solvente

Enquanto a polícia faz apreensões cada vez maiores de óxi, na cracolândia -reduto de usuários no centro de São Paulo- não há distinção entre o crack e o seu genérico, anunciado como mais potente, mais barato e mais devastador.

Em alta na área está o “Hulk”: uma pedra de crack verde, que teria pureza maior e efeito mais duradouro. O nome se refere ao herói dos quadrinhos que ganha superpoderes ao virar um gigante verde, o Incrível Hulk. Faz sucesso também a pedra vermelha, a “Capitão América”. Para a polícia, o crack colorido é uma forma de o traficante enganar os usuários e aumentar o preço.

No mês passado, foram apreendidos 50 kg de crack rosa na Baixada Santista. “O traficante precisa encontrar um diferencial. Mudando a cor da pedra, ele convence o usuário de que seu produto é mais puro ou mais forte do que o do concorrente”, afirma o delegado Reinaldo Correa, do Denarc (departamento de narcóticos).

Já o óxi é da mesma cor da pedra tradicional, entre o marrom e o amarelado. Feito da pasta base de cocaína acrescida de solventes como querosene e gasolina, o “bagulho novo” só é diferenciado por entendidos.

É o caso de Jennifer, travesti de 24 anos, oito deles entre idas e vindas na cracolândia. “Tive o privilégio de usar o óxi, porque os irmãos [traficantes] abriram pra mim”, relata. “Bate uma adrenalina mais forte, mas o efeito vai embora rápido.”

Jennifer dá a receita dos ingredientes que inala com o seu “fogãozinho dourado”, um cachimbo feito com peça de fogão: “A gente queima pedra com bicarbonato, querosene, solução de pilha e de bateria de carro”.

Usuários relatam que o óxi deixa um resíduo pastoso. Dizem sentir um odor de combustível. “Tem cheiro de gasolina, mas dependendo da mistura não dá para sentir tanto”, explica Jennifer.

Por ser composto de ingredientes mais baratos que o bicarbonato de cálcio e o amoníaco usados no crack original, o marketing clandestino do óxi alardeia que a pedra é vendida a R$ 2.

PREÇO TABELADO

No vaivém das ruas do centro de São Paulo onde centenas de usuários vagueiam diuturnamente, a pedra tem preço tabelado, independente da mistura: R$ 10. “Não tem pedra de R$ 2.

Por esse preço aqui só uma pipada ou um farelo e olhe lá”, diz Cabral, o Velho, sentando na praça Júlio Prestes, no coração da cracolândia, na tarde da última quarta. “Pegaram mil papelotes de óxi, não vimos nem o cheiro”, diz o homem magro, que aparenta uns 55 anos, sobre a mais recente apreensão. No muro em frente à praça, um grafite sintetiza o que são as pedras negociadas abertamente na área: “Nem tudo é o que parece”, escrito ao lado do desenho de um Saci Pererê com o seu clássico cachimbo.

Nêga, apelido da mulata de corpo musculoso e sorriso largo e de boné, puxa papo: “Esse óxi não tá com nada. Bom mesmo é o “Hulk'”. Esse é bagulho bom”, confirma Cabral, sobre a pedra verde.

“O “Hulk” queima bem e a brisa dura mais tempo”, relata Jennifer. “É mais rara. Chega na “biqueira” [ponto de venda] e vai embora rápido.” Sem “Hulk” nem “Capitão América” para vender, Nêga, de 22 anos, cinco deles na cracolândia, oferece cinco pedras de coloração entre o marrom e o amarelo. “É tudo crack. Todas as pedras levam corante”, resume.

Sem os R$ 10 no bolso para comprar uma pedra inteira, restou ao velho Cabral um farelo de uma pedra marrom. Foi na base do escambo: entregou o isqueiro de R$ 2 para o traficante amigo da Nêga.

Folha

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