De protagonista a telespectador solitário, Andrade desabafa: ‘Fui traído’

Publicado em quarta-feira, novembro 27, 2013 ·

andrade-016Abraços múltiplos, efusivos. Tapinhas nas costas vindos de todos os lados. Andrade estava no berço esplêndido do Flamengo no fim da tarde do dia 6 de dezembro de 2009. Torcida, dirigentes e jogadores festejavam o êxito do auxiliar que, efetivado como treinador, tirou o time da zona intermediária da tabela e o levou a um título improvável de campeão brasileiro. O prêmio de melhor técnico do campeonato –  entregue no dia seguinte – sugeria e referendava o início de uma carreira promissora. Mas…

Quase quatro anos depois, o Rubro-Negro novamente chega a uma decisão nacional. Quando Leandro Vuaden apitar o início da partida contra o Atlético-PR, em vez da adrenalina e da atmosfera do Maracanã, Andrade terá a companhia do buldogue Imperador – sim, uma homenagem ao atacante Adriano -, o sofá de casa na Barra da Tijuca e interrogações.

Do título ao desemprego não se passaram cinco meses. Tudo desmoronou e o treinador teve de lidar com uma sucessão de decepções. Ele cita que o título assoberbou jogadores – que já não se dispunham a treinar como antes -, dirigentes – que passaram a não consultá-los sobre dispensas e contratações – e o fez descobrir que havia boicote na própria comissão técnica. Brigas, intrigas e segredos que Andrade guarda daquele período.

– Fui traído. Sujeira – resumiu.

Sem atacar o Flamengo (“A entidade não tem nada a ver com as pessoas”, diz), Andrade tenta recomeçar. Há uma proposta do São João da Barra, que disputa a Série B do Campeonato Carioca. Não será por vaidade que deixará de aceitar. A falta de um emprego o angustia e aperta as finanças – no momento, as contas são pagas com o trabalho de técnico do Fla-Master.

– Ganho milzinho num jogo e quito o condomínio. Faço outra viagem e dá para pagar o plano de saúde. Tenho poupança ainda da época que joguei na Itália, mas quando não entra dinheiro, uma hora acaba – declarou o ex-jogador, que teve curtas passagens por Brasiliense, Paysandu e Boavista desde que deixou o Flamengo.

Confira a entrevista completa:

GloboEsporte.com: Nesta quarta, o Jayme pode repetir o enredo do auxiliar que acabou campeão. Sua experiência pode norteá-lo daqui para frente?

Andrade:
  Ele tem em mim um exemplo do lado positivo e negativo, do que deve ou não fazer. Acontece com o Jayme mais ou menos como foi comigo. Eu e ele estávamos dentro do clube, nem precisamos de empresário para o acerto para ser técnico. Eu conhecia o grupo, fui campeão, dei sequência depois.  Só que, no meu caso, quando fui procurar empresário já não tinha mais as portas abertas, muitos times já tinham seus treinadores. De repente, no tempo em que fiquei trabalhando, posso não ter colocado alguns jogadores que eram deles. Isso cria uma antipatia

andrade ex-treinador do Flamengo chave do carro (Foto: Janir Júnior)Andrade durante a entrevista (Foto: Janir Júnior)

Havia pressão de empresários em escalações?

Não, até porque o tempo em que trabalhei no Flamengo não procurei saber de quem era o empresário de tal jogador. Nunca me preocupei em saber se era de fulano ou beltrano. Sempre escalei o que tinha de melhor.

Jayme está perto do título. Foi assim com você, mas a conquista do Brasileiro não evitou a sua demissão no ano seguinte…

No nosso país, tudo é possível, tudo pode acontecer. O título não é garantia de permanência, ainda mais no Flamengo. É um clube onde as coisas acontecem com muita euforia e oba-oba. Pela grandeza, as pessoas querem um técnico de seleção. O Flamengo vive muito isso. Acaba se deslumbrando um pouco, não tem muito aquela coisa de manter os pés no chão. Primeiro vem com o pezinho no chão por conta da dificuldade financeira para contratar e daqui a pouco é campeão da Copa do Brasil e começa a dar um salto maior do que as pernas. A gente sabe como acontece, não existe o meio-termo na Gávea.

Dar o salto maior do que as pernas foi um dos motivos para você ter ficado pelo meio do caminho?

Essa forma de agir acaba atropelando as pessoas e nem sempre aquela coisa grande dá certo. Vieram o Vanderlei, o Mano… Treinadores de ponta chegaram depois de mim e não deram certo.

Por que os treinadores mais renomados geralmente fracassam e os da casa conseguem mais resultados?

Acho que nós não disputamos espaço com jogador. Não temos essa pretensão de ser maior do que eles. Eu, como ex-jogador, sei que as estrelas são eles, que vão para campo e decidem os jogos. São as peças importantes e você está ali para dar suporte e passar sua experiência para eles. Não vou disputar página de jornal com ninguém.

Como você analisa essa final entre Flamengo e Atlético-PR?

No jogo de ida, o Flamengo jogou como se estivesse em casa, em momento algum se abalou. Foi um time equilibrado emocionalmente o tempo todo. Tem que ter esse equilíbrio no Rio também. A torcida vai empurrar e se o Flamengo sair de uma forma desorganizada perde o jogo. Tem que tomar iniciativa, sim, mas de forma inteligente e organizada.

De alguma forma, o jogo contra o Grêmio que decidiu o título brasileiro de 2009, no Maracanã, teve um pouco dessa desorganização? O Flamengo saiu atrás do placar e teve muita dificuldade para conseguir virar.

O time entrou com muita ansiedade. O Grêmio vinha como franco-atirador, o resultado era indiferente para eles e a nossa responsabilidade era imensa diante de 100 mil pessoas no estádio, mais 30 milhões acompanhando. Tínhamos um elenco de 18 jogadores, sem muita peça de troca. Era a conta do chá. Muitos torcedores não acreditavam em jogadores como Fierro, mas ele era importante para mim. Tinha o Toró, David Braz, Everton Silva, o Everton que está no Atlético-PR.

MOSAICO  690 - Andrade ex-treinador do Flamengo (Foto: Janir Júnior)(Fotos: Janir Júnior/GloboEsporte.com)

 

 

Como foi o intervalo daquele jogo, quando o time precisava fazer mais um gol e dava sinais de tensão?

Tomamos o gol no início, então, tínhamos tempo de reação para dar uma resposta. Seria diferente levar um gol faltando dez minutos, que muda tudo, mexe com o emocional. No vestiário, passei para eles que parecia que nós estávamos jogando para cumprir tabela e o Grêmio que disputava a final de campeonato. Disse que precisávamos de outra atitude senão passaríamos vergonha. Eles sentiram e voltaram com outra postura, tomando iniciativa, marcando pressão, e foi outro jogo no segundo tempo. O primeiro tempo foi horrível.

O Adriano tinha condições de jogo ou a bolha no pé ainda incomodava?

No jogo contra o Corinthians ele ficou fora por causa disso. Na rodada final ele estava bem, mas teve um outro jogo em que a bolha incomodava muito, e ele acabou com a chuteira e o meião cheios de sangue e disse para mim: “joguei porque era você”. Talvez se fosse outro treinador ele não teria jogado.

Como foi ter o apoio do Adriano, que defendeu sua efetivação após a saída do Cuca?

Foi uma relação boa. Em alguns treinamentos sei que ele faltou pois não tinha condições físicas de comparecer. Esse problema extracampo era mais de diretoria do que meu. O meu trabalho começava a partir do momento em que ele chegava ao treino, aí a responsabilidade era minha.

Foi difícil controlar um grupo que, além do Adriano, tinha Bruno, Pet?

Existia respeito entre a gente.  O Adriano no dia a dia é um cara simples, humilde e agregador. Os mais jovens gostavam dele. O Pet não gosta de concentração, mas eu disse que ele não estava na Sérvia. Nossa cultura é diferente, temos que concentrar. Ele dizia que não gostava, mas concentrava. Não tive problemas, cheguei a conversar duas vezes com Pet sobre parte tática, sempre me dei bem com ele. O Bruno era capitão do time, fazia a ligação entre mim e os jogadores. Nem sempre eu reunia o grupo todo. Pegava o Bruno, mais uns dois ou três e, por exemplo, explicava que tinha que concentrar dois dias antes, pois o jogo era importante. Bruno convencia o grupo. Tive um problema com ele antes de assumir, mas depois ficou zerado. Podia chegar e tirar ele de capitão, mas não era o caso. Ele sempre me ajudou, um cara tranquilo de lidar. O único que tive problema mais sério foi o Juan.

Que tipo de problema?

Foi no jogo contra o Barueri. O mais chatinho era o Juan (risos). O Juan não gosta de ficar no banco, não gosta de ser substituído, não pode isso, não pode aquilo. Mas em compensação era o cara que mais gostava de treinar. Ele era ranzinza (risos). Ele estava mal no jogo. O time todo estava, mas ele estava num dia muito ruim. Aí eu o substitui e o Juan atravessou o campo em direção ao banco. Eu estava com o fone de ouvido, a torcida bem atrás do banco. Sabia que ele ia falar alguma coisa. Quando começou a chegar, virei de lado, mas percebi que ele falou algo, não sabia o quê. Ele tinha falado: “quer me ferrar?” (risos). Na verdade quem ia me ferrar do jeito que estava jogando era ele (risos). Ele deu azar porque sentou no banco, a torcida pegou no pé dele, pedindo respeito e perguntaram: “já chupou laranja com Zico?”. Mas perdemos esse jogo (2 a 0 Barueri) na véspera.

Por quê?

Na segunda-feira era aniversário do Léo Moura. Liberamos o pessoal para a festa e depois tinham que voltar para concentração. Como o Léo era aniversariante, deixamos ele dormir em casa. Mas houve um mal entendido, uma pessoa achou que ele teria que voltar no dia e ficou um clima horroroso. Quando chegou a véspera do jogo o ambiente era horrível, jogadores chateados, pois houve cobrança em excesso. O Léo Moura ficou p… Perdemos o jogo ali. Foi falta de comunicação. Mas a situação do Juan, assim que entrei no vestiário, ele pediu desculpa e logo me desarmou. Não tinha problema de relacionamento com ninguém. O maior problema era extracampo.

Excessos extracampo?

Noitada, né?! Churrasco, festa… Acaba o treino, eu vou para minha casa, não vou andar atrás dos caras.

Com o título brasileiro de 2009, você acha que os jogadores acharam que estavam acima do bem e do mal?

 Fizeram de tudo para me expor, revelaram o valor do meu salário. Ganhava R$ 160 mil. Tem quem receba R$ 500, R$ 600 mil e ninguém fala nada.
Andrade

O título traz junto a vaidade. Não só de jogadores, mas dirigentes também. Era o meu sexto título brasileiro, eu não ia achar que era o cara. Eu conversava uma coisa e eles não queriam fazer no treinamento. Houve mudança de postura.

É prova de que um título não traz só coisa boa?
Traz coisa boa de momento. Mas para o ano seguinte começa a mudar. Foi o primeiro título da maioria. O sacrifício que o cara fazia antes já não quer fazer mais. As contratações foram equivocadas. Em 2009 me consultavam, depois não.

Quando você saiu já estava desgastado?

O desgaste aconteceu por pessoas que me apoiavam antes e depois mudaram de lado. Começaram a plantar notícia para me queimar. A renovação de contrato foi desgastante. Fizeram de tudo para me expor, revelaram o valor do meu salário. Ganhava R$ 160 mil. Tem quem receba R$ 500, R$ 600 mil e ninguém fala nada. Tinha acabado de ser campeão brasileiro! Veio outro técnico que nunca conquistou nada e recebia R$ 300 mil. Jogaram na imprensa para me queimar. Um ou outro falava que eu era mercenário.

De alguma fora se sentiu traído?

Sim, né? Fui traído, foi uma traição. Sujeira. (Andrade olha fixamente para baixo, pensa e, com a voz embargada, para de falar)

Você sentiu que gente da sua própria comissão vazava notícia ou só a direção?

Gente da minha própria comissão achou que ia assumir o cargo e se debandou para o outro lado. Me largaram sozinho.

Como foi lidar com uma decepção pessoal tão grande depois de um título expressivo?

Difícil, complicado. Começou a existir um movimento pela minha saída. A prioridade era a Libertadores. Aí eu perdi o Carioca e, mesmo chegando à final, fui demitido, com 76% de aproveitamento. E o time acabou passando para as oitavas de final da Libertadores. Coloquei o time na Libertadores e acho que teria o direito de terminar essa competição.

Como fica isso no seu íntimo, o Flamengo um clube que te proporcionou tanta alegria, mas que causou uma grande decepção?

De seis títulos brasileiros do Flamengo, eu participei de cinco. Nenhum jogador foi tão marcante assim num clube só. Tenho uma Libertadores e um Mundial. Separo a entidade das pessoas que ali passam. Não tenho mágoa do Flamengo. Fiquei chateado com as pessoas. Mas tenho o reconhecimento do torcedor, de estar na rua e ouvir parabéns pelo trabalho, até de torcedor de time adversário. Isso conforta. Não sou muito de guardar mágoa. Nada melhor do que o tempo.

Você tem algum vínculo com a atual diretoria?

Não. Conversei rapidamente com algumas pessoas, mas não tenho nenhuma intimidade. Nunca me procuraram para nada. Eu os procurei. Logo que saí do hospital, me coloquei à disposição para ajudar o clube como observador técnico. Mas não tive retorno.

 

Andrade Flamengo (Foto: Vipcomm)Andrade durante treino do Flamengo
(Foto: Vipcomm)

Qual a sua condição financeira atual? Você pode parar de trabalhar?

Só por um tempo, pois o dinheiro acaba. Tenho uma poupança de quando joguei na Itália. E também recebi o prêmio do Brasileiro. Dá para segurar um tempo. Mas onde só sai e não entra um dia vai acabar. Tenho minha casa e dois apartamentos que alugo. Mas um deles minha filha vai morar.

Há propostas?

Recebi algumas sondagens, me ligaram para ir para fora do país, depois o negócio esfriou. Tive uma proposta de Minas que foi muito baixa, outra da Série B do Rio. Continuo sem empresário. Procurei, mas não tive êxito.

Você acha que um dia voltará a treinar o Flamengo?

Não alimento isso. Quero voltar a trabalhar, pois eu preciso, seja em qualquer clube. Se acontecer de ser no Flamengo tudo bem. Mas acho que já dei minha pequena contribuição ao Flamengo (risos).

O Jayme disse que não consegue entender como um técnico que foi eleito o melhor do campeonato, com o título brasileiro, não teve mais oportunidade em um time grande. Como você entende isso?

Minha saída do Flamengo foi muito desgastante. Me expuseram muito. Pela história que tenho no clube poderia ter sido preservado. Depois, trabalhei cinco meses no Brasiliense, cheguei lá o time estava praticamente morto. Era um time com jogadores rodados, mas que estava fisicamente mal. Apesar de ter caído, acho que ficou como o Andrade quase salvou o Brasiliense. Fui para Belém, no Paysandu, fiz três jogos para tentar chegar à Série B, mas acabamos não subindo. Depois fiz seis jogos pelo Boavista.

O Jayme também falou que vendo o que aconteceu com você não sabe se continua no ano que vem…

Agora é uma outra diretoria, não sei qual é a filosofia deles.

Você teria algum conselho para dar ao Jayme?

Arrumar um bom empresário. Naquele meu momento, seu eu tivesse um, estaria mais blindado.

Muito se fala de preconceito com técnico negro no Brasil. Isso existe?

Acho que é mais coincidência por ter pouco técnico negro. Agora, tem o Jayme e o Cristóvão na Série A.

Mas teve algum tipo de problema com isso?

Dentro do Flamengo, quando era treinador, ouvi algumas coisas, principalmente dos diretores da base, comentário como: “Ah, agora é Urubu Fla”, pois na época o Adílio era meu auxiliar. Foi quando assumi como interino. Mas passou. Deixei para lá, ignorei a situação.

Apesar das semelhanças na trajetória, no caso do Jayme ele tem um elenco mais disciplinado e não precisa se preocupar em domar Adriano, Pet, Bruno… Facilita?

Eu tinha muita dor de cabeça fora de campo, né?! Ia para sala de imprensa e tinha que responder de Adriano, Bruno, Willians. É, ainda tinha o Willians de quebra (risos).

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