O governo saiu nesse domingo em bloco para responder às críticas feitas pelo
ex-presidente Fernando Henrique Cardoso à estratégia adotada pelo
Palácio do Planalto para tentar vencer as eleições de outubro. A
ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, pré-candidata à corrida
presidencial, reconheceu que o governo tucano deu contribuições ao
País, mas mostrou que não deixará de fazer comparações entre o que foi
feito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu antecessor. "Não
estou desmerecendo ninguém, estou dizendo que nosso caminho é melhor",
disse a ministra.
Em artigo publicado hoje no Estado, Fernando Henrique afirmou que o
presidente Lula, levado por "momentos de euforia", está inventando
inimigos e enunciando inverdades. Ele lamentou que o presidente tenha
se deixando contaminar por "impulsos tão toscos" e mostrou disposição
para entrar no embate das realizações de cada governo, polarização
defendida por Lula. "Se o lulismo quiser comparar, sem mentir e sem
descontextualizar, a briga é boa", afirmou em seu artigo.
Para Dilma, o que o governo defende é uma comparação para a escolha de
caminhos. "Essa é a forma de nós confrontarmos as possibilidades",
disse a ministra, pouco antes de participar de um evento do PT, em
Brasília. O ex-presidente afirmou em seu artigo que a estratégia
adotada pelos petistas seria uma tentativa de ganhar as eleições "com o
retrovisor". Dilma rebateu. "Comparar não é ficar olhando pelo
retrovisor. Comparar é discutir que caminho vou seguir", disse. "Sem
sombra de dúvida, houve passos no governo anterior, agora, o que estou
dizendo é que o nosso caminho é melhor."
O ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, também
defendeu a política de comparações e disse que o PT está disposto a
debater com os tucanos suas propostas para o
futuro, desde que essas
ações
sejam apresentadas. "Assim que mostrarem aquilo que querem fazer, nós
vamos comparar com aquilo que queremos fazer daqui para frente", disse.
Dados - O ex-presidente argumentou em seu artigo que o governo ignora
dados e insiste em contar sua versão dos fatos para tentar
"desconstruir o inimigo principal", os tucanos. O empréstimo feito pelo
País em 2002, junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI), foi um dos
exemplos citados por ele de custos enfrentados pelo Brasil por anos de
"bravatas" do PT que hoje são ignoradas pelos petistas. Dilma tentou
desmontar a versão do tucano. "O governo pediu US$ 14 bilhões porque só
tinha US$ 16 bilhões de reservas e tinha atrelado a sua dívida interna
ao dólar", disse. "Hoje, temos reservas de US$ 240 bilhões, é essa a
diferença."
Segundo a ministra, essa decisão
econômica
(de atrelar a dívida ao dólar) acabou tendo efeitos perversos. "Cada
vez que havia uma desvalorização, a dívida das empresas, a dívida do
governo se multiplicava na proporção da desvalorização", disse. "Diante
de cada crise o governo quebrava, ele era parte do problema."
Para Dilma, a postura do governo Lula mudou o papel do Estado, permitindo o enfrentamento da mais recente
crise financeira
internacional. "Na hora que a coisa ficou preta, quando acabou o
crédito internacional e nenhum banco privado emprestava, foram os
nossos bancos públicos que seguraram", comentou. "Não vamos comparar
que desta vez o governo brasileiro foi parte da solução?", questionou.
"Nem em Davos" - Seguindo a estratégia de comparações, Dilma ironizou
as declarações do presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), que
recentemente defendeu mudanças na política cambial e monetária. "Não
somos nós hoje que falamos que tem que mudar o câmbio e resolver a
inflação diferentemente. Não foi ninguém do PT, não fomos nós", disse.
Para a ministra, a tentativa de colar a imagem do governo com sinais de
mudanças radicais não faz sentido. "O pessoal está um pouquinho
atrasado, nem em Davos a gente recebe mais essa crítica", disse.
Citado por Fernando Henrique no artigo, o presidente eleito do PT, José
Eduardo Dutra, disse que quem não reconheceu os feitos do governo
passado foi o candidato tucano ao Planalto em 2006, o ex-governador
paulista Geraldo Alckmin. "Quem escondeu os progressos do governo dele
foi o Alckmin. Ele ficou envergonhado de defender o governo FHC", disse
Dutra.
No artigo, o ex-presidente lembra que Dutra, que já presidiu a
Petrobras, reconheceu que votaria contra uma eventual proposta de volta
ao monopólio do petróleo, tema defendido por muitos anos pelo PT. Dutra
confirmou sua posição contrária ao monopólio, e disse também que já
elogiou outra medida tomada pelo governo Fernando Henrique, que hoje é
alvo de críticas dos próprios tucanos. "Um dos grandes motivos para o
crescimento da Petrobras foi a agilidade que ela ganhou a partir do
momento em que não teve mais de cumprir a 8666 (lei de licitações).
Agora o TCU bombardeia esse decreto, que é do governo FHC, e a oposição
fica do lado do TCU", disse.