Ficar repetindo que seu filho é brilhante e talentoso pode provocar efeito totalmente contrário ao desejado. A informação é um balde de água fria nos pais que, por uma mistura de instinto com teorias de educadores, acreditam incentivar bons resultados, aumentando a autoestima dos pequenos.
Análise conduzida pela pesquisadora Carol Dweck, da Universidade de
Stanford, nos Estados Unidos, sobre 150 pesquisas sobre elogios feitas
ao longo de 15 anos, revelou que estudantes elogiados em excesso
tornam-se avessos a riscos, esforçam-se menos e são menos motivados.
Estudantes com os QI (Quociente de Inteligência) mais altos da turma
atingiram resultados abaixo dos obtidos pelos com os de QI menores após
ouvir que eram brilhantes pouco antes da prova. Outro estudo feito com
400 crianças na cidade de Nova York mostrou que elas tiveram resultados
20% menores em testes após ouvir a frase "Você deve ser boa nisso".
Estudos da American Association for Psychological Science também
mostram que os elogios não ajudam a obter melhores posições na
carreira, nem diminuem violência ou alcoolismo. Esses são apenas alguns
dos dados que embasam a tese do livro Nurture Shock
(Choque na Criação), dos educadores norte-americanos Ashley Merryman e
Po Bronson, que analisaram mais de 200 mil páginas de pesquisas em
publicações científicas. Com isso eles querem provar que o subtítulo do
livro é a mais pura verdade. "Why everything we think about raising our
kids is wrong" (Por que tudo o que sabemos sobre criar nosso filhos é
errado). O livro ainda não tem tradução para o português, mas pode ser
encontrado nas livrarias brasileiras.
O principal ponto que a dupla combate é um dos 10 tópicos do livro: o
excesso de elogios que hoje predomina na relação entre pais e filhos,
que tem origem na teoria da profecia autorrealizadora, da década de
1970, que propõe que o que foi dito irá (ou tem grandes chances) de
acontecer.
No caso de Ashley, a teoria comprovou o que ela já vivenciava na
prática. Fundadora de um centro de auxílio a crianças em Los Angeles,
ela não via seus elogios surtirem efeitos positivos. "Quando descobri o
que os elogios realmente fizeram, fiquei horrorizada. Trabalho com
crianças carentes falando para elas 'Você é maravilhosa!'. E quando li
os efeitos disso, fiquei atônica, senti raiva. Pensei 'por que ninguém
me falou isso antes?'", disse em entrevista ao jornal inglês The Times.
Nurture Shock quer provar que, apesar do instinto de amar e
proteger os filhos, a maioria das ações dos pais em relação ou diante
dos pequenos é "poluída de um pot-pourri de desejos, tendências morais,
modismos, histórico pessoal e psicologia ultrapassada'.
Os cuidados com as crianças são extremamente vulneráveis à má ciência e
a falsos profetas porque os adultos são ansiosos a ponto de abraçar
qualquer conselho que esteja na moda. Essa foi a conclusão de um dos
autores, Po Bronson, que, ao parar de fazer elogios o filho a todo
momento usando frases feitas como "Você é ótimo" ou "Estou orgulhoso de
você", percebeu que era ele, e não a criança, quem sentiu alívio.
"Percebi que usava as frases como forma de expressar meu amor
incondicional, como se fosse um tipo de panaceia para as ansiedades dos
pais modernos", afirmou à publicação britânica.
Equilíbrio
Mas a recomendação passa longe de adotar postura severa e crítica o
tempo todo. Diz que os elogios devem ser limitados, sinceros e mais
sobre os esforços feitos do que pelas conquistas. Essa é a visão do
professor de psicologia do desenvolvimento Lino de Macedo, do Instituto
de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo). "É preciso buscar um
equilíbrio entre o negativo e o positivo: ou é marcação cerrada ou
superproteção. Os dois extremos apresentam problemas", afirmou.
De um lado, a criança que nunca foi criticada ou não ouviu muitos
"nãos" pode tornar-se arrogante, não conseguir ouvir críticas e ter
dificuldades no reconhecimento do outro ou apresentar autoestima baixa
e mostrar-se frágil. "Se os pais só fazem afirmações bacanas,
independentemente do que o filho fez, a imagem que fica desse
comportamento é a de que tudo é possível, permitido, tudo o que ele faz
é bom e maravilhoso, que ele é nota 10, 'gostosão'", disse.
O especialista diz que as crianças não têm referências e precisam ser
proibidas, corrigidas, impedidas e respeitar limites, sempre que
necessário. "Mas há pais que só dizem 'não', apontam o que os filhos
fizeram de errado ou não atenderam às expectativas. Essas crianças
podem se tornar adultos ressentidos, pois nunca foram elogiadas."
Além de buscar equilíbrio, ao apontar o que a criança fez de errado,
deve-se dar explicação dentro de uma perspectiva positiva e de maneira
que o pequeno entenda. Macedo aponta ainda que a colocação deve ser
feita em relação à coisa ou ao ato e não diretamente à criança. "É
preciso dizer que está bravo com o que ela fez e não com ela", afirmou.
Para o professor da USP, esse monitoramento constante tem como
principal resultado a sensação de que os pais se importam com a
criança, seja com as coisas boas ou ruins que ela fizer.
Outras teorias
Além de combater o excesso de elogios gratuitos feitos aos filhos, os
autores Ashley Merryman e Po Bronson também atacam outras teorias em
alta na educação das crianças.
Entre elas estão a de que pedir a um adolescente que seja grato pode
ser a causa da sua infelicidade; que programas de TV educativos podem
ensinar às crianças como se tornar um praticante de bullying
mais sofisticado; e que colocar pessoas de raças diferentes numa
mesma sala de aula não ajuda a diminuir o racismo.
"Esse livro corrige muitas bobagens que vêm sendo incutidas na
sociedade há mais de 100 anos. Não quisemos pôr lenha na fogueira, mas
ampliar a visão dos fatos. Se o livro tornar as pessoas céticas em
relação às iniciativas educacionais, então ótimo", afirmou Po ao The Times.
Focando a Notícia












