Após denunciar máfias do tráfico de seres humanos e as redes
de abuso sexual de menores em municípios próximos à região de fronteira do
estado do Pará, na região Norte brasileira, o bispo da Ilha do Marajó, Dom José
Luis Azcona, foi o responsável pela abertura da Comissão Parlamentar de
Inquérito (CPI) da Pedofilia em 2008, que investigou as rotas do tráfico e as
redes de exploração sexual na região.
O bispo disse que tomou conhecimento de um dos primeiros casos concretos de
tráfico em novembro de 2007, quando uma adolescente de 16 anos, da cidade de
Portel (PA), foi presa pela Polícia Federal (PF) no Aeroporto Internacional de
Guarulhos (SP) antes de embarcar para Madri, na Espanha. Na ocasião ela relatou
à PF que dias depois um grupo de meninas seguiria o mesmo destino. A rota
identificada saía de Portel, seguia por Breves (PA), Belém (PA), Guarulhos e daí
para o exterior.
Por causa das denúncias, ele e outros dois bispos, dom Flávio Giovenale,
da Diocese de Abaetetuba, e dom Erwin Krautler, da Prelazia do Xingu, foram
ameaçados de morte. "Somos três bispos ameaçados de morte por termos denunciado.
Pelo que se consta, há por detrás um grupo forte e influente e, por isso, as
autoridades não fazem investigação", desabafou Azcona.
A exploração sexual é uma das principais atividades e vias de acesso para o
tráfico de seres humanos. As cidades de Portel, Breves, Belém, Ilha de Marajó,
no Pará, Oiapoque no Amapá e países como Guiana Francesa e Suriname, se destacam
como rotas de intensa atividade desses crimes na região.
Para ele a ausência de embarcações da Marinha na costa brasileira deixa o
Brasil desprotegido e vulnerável às atividades das redes internacionais do crime
organizado. "É uma problema de segurança nacional. Desde o Amapá até o Pará não
se vê nenhum barco da Marinha fazendo fiscalização e apreensão. É uma área
aberta para o mundo e de fácil presença de traficantes", criticou. "Do Amapá
para a Guiana Francesa a Marinha não se faz presente nunca", reforçou.
De acordo com o religioso a situação da cidade de Breves é muito semelhante à
de Portel, onde é comum encontrar crianças e adolescentes circulando entre as
embarcações. Os barcos são locais onde acontecem abuso e exploração sexual e
também são meios de transporte das vítimas do tráfico de pessoas.
"Em Breves, toda a orla é indicada por moradores como local de concentração
de adolescentes exploradas sexualmente. É algo notório, é uma realidade pública,
qualquer um pode ir lá comprovar, a área é escura, sem policiamento e com
cenário incentivador de situações de abuso e exploração", relatou.
A ilha do Marajó, por estar em região fronteiriça e próxima da Guiana
Francesa, apresenta uma situação de fragilização social. "Marajó está se
convertendo num lugar de perversão, de criminalidade precisamente pela ausência
do Estado. O Brasil tem que olhar para toda essa Região da desembocadura do
Amazonas".
Rotas do tráfico humano saem de Marajó em direção à Guiana Francesa e ao
Suriname. Ele enfatizou que o arquipélago está abandonado pelas autoridades e a
impunidade impera no local.
O bispo Azcona atua no enfrentamento ao tráfico de seres humanos e combate à
exploração sexual com ações, principalmente, no município de
Breves.