As pessoas precisam diferenciar jornalismo de entretenimento

Publicado em segunda-feira, novembro 19, 2012 ·

O último final de semana confrontou claramente dois modos de tratar o Esporte na televisão. Começo a falar da espetacular cobertura da ESPN Brasil em mais uma final da Liga dos Campeões da Europa. O principal produto da emissora é tratado de forma jornalística exemplar. Um ou outro pode dizer que é demais ficar horas e horas comentando antes e depois da partida se o Bayern de Munique deveria jogar no 4-4-2 ou no 4-2-3-1. E se é correto um russo torrar um bilhão de euros para fazer o Chelsea campeão. A pessoa pode até não gostar, é claro, mas isso é Jornalismo, assim mesmo com ‘J’ maiúsculo. Narradores, apresentadores, comentaristas e repórteres conhecem o que estão falando, sabem a trajetória de cada um dos jogadores em campo, dos treinadores fora e o que representa uma conquista para aqueles torcedores. Dá um orgulho danado ser jornalista e acompanhar uma transmissão dessas.

Pouco mais de 24 horas depois tivemos contato com a informação esportiva tratada de outra maneira. O argentino German Herrera, atacante do Botafogo, marcou três gols diante do São Paulo, na goleada por 4 a 2. Todo mundo que acompanha futebol sabe que o cara que faz três gols no Brasil pede música no Fantástico, da Rede Globo. Não sabemos ainda se o Herrera não curte o programa, a Globo ou mesmo se curte música. Também não lembro se o próprio Herrera já foi sacaneado no mesmo quadro, que utiliza um tal mustela para fazer piada dos jogadores que cometem erros durante as partidas. O lance é que ele não quis pedir a música e virou notícia. Como assim o Herrera não quis pedir a música, vira notícia e o ‘fato’ se torna mais importante do que os três gols marcados?

A recusa de Herrera ganhou destaque em chamadas entre dois blocos e foi a maior atração da parte dedicada aos gols. A produção do programa aproveitou uma palavra dita pelo argentino, buscou uma música do Chiclete com Banana e colocou no ar. Os três gols do Herrera tiveram, na verdade, menos espaço do que a recusa em pedir um sucesso de Luan Santana, Thiaguinho ou da banda Calypso. E aí é que fica clara a diferença entre Jornalismo, com ‘J’ maiúsculo, e entretenimento, que é o que o Esporte da Globo faz há muitos anos. Um repórter da Globo chamou Herrera de ‘babaca’ no Twitter. Esqueceu que é jornalista e incorporou o tom de entretenimento da empresa em que trabalha.

Vou usar como exemplo jogos hipotéticos, mas isso já aconteceu no programa. O Atlético-MG fez 5 a 2 no Uberlândia pelo Campeonato Mineiro e por causa do tempo, os gols foram resumidos, tipo passaram três gols do Galo e um do Uberlândia. Na sequência, um atacante do Ananindeua meteu três gols no Fast Club pelo Campeonato Amazonense. O programa passou todos os gols e o rapaz pediu a música dele. Nada tenho contra o Amazonas. Mas queria ver os gols do Amazonense todo domingo e não só quando o cara dá uma sorte danada e faz três gols. O Ananindeua nunca mais teve gol no Fantástico. Eu fico imaginando o desespero do pessoal do programa quando ninguém faz três gols.

A recusa do Herrera me lembrou do Dunga. Quando treinador da Seleção, ele achou por bem não conceder exclusivas para a Globo e proibiu o livre trânsito dos repórteres da empresa nos corredores da concentração. Jornalisticamente foi uma decisão acertadíssima. Tratamento igual para todos. O final você deve lembrar: o técnico batendo boca publicamente com um dos apresentadores da Globo em uma entrevista coletiva na África do Sul durante a Copa de 2010.

Já escrevi aqui e repito: a emissora tem o direito de usar a linha editorial que quiser. Se a Globo prefere passar os três gols do cara do Ananindeua e a música que ele quis ouvir em detrimento dos cinco gols do Galo é problema dela. O que não pode é o público não conseguir diferenciar que isso não é jornalismo. Li gente demais na internet escrevendo sobre o estágio do ‘jornalismo esportivo’. Minha gente, Luan Santana, banda Calypso, Padre Fabio de Mello, João Sorrisão, Inacreditável Futebol Clube, João Bolinha nada têm a ver com Jornalismo. Isso é entretenimento. E quase sempre a Globo faz entretenimento muito bem.

Mais um exemplo para deixar clara a diferença entre os dois mundos. Em meio a uma crise entre Vanderlei Luxemburgo e Ronaldinho Gaúcho, o Flamengo entrou em campo para uma partida decisiva na fase preliminar da Taça Libertadores. Antes do jogo, com os times em campo, o repórter se dirigiu ao treinador e disse. “Eu não vou fazer aquela pergunta”. A pergunta em questão era o problema entre técnico e estrela, que acabou com a demissão do primeiro. Uma briga que claramente influenciava no desempenho da equipe. O Rubro-Negro venceu aquele dia na bacia das almas e acabou eliminado do torneio pouco depois. Um estagiário em início de carreira deveria fazer a pergunta; um editor poderia pensar seriamente em demitir um repórter que bobeasse e não fizesse a pergunta. Perceberam o momento em que o Jornalismo acaba e entra em campo o entretenimento?

O Jornalismo de verdade não precisa ser chato, pode ter humor, pode ter diversão. Tem um monte de gente que faz ainda bom jornalismo esportivo, na TV, no rádio, nos jornais e na internet. Profissionais preparados fazem isso calmamente, sem perder o foco na informação, em qualquer meio. Só falta o público perceber.

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