Arquivo Nacional recebe acervo de Prestes com lista de torturadores

Publicado em quarta-feira, Janeiro 4, 2012 ·

arquivoSão Paulo – O Arquivo Nacional recebeu na terça-feira (3) documentação do acervo do político e líder comunista brasileiro Luís Carlos Prestes, que traz uma lista com 233 nomes de torturadores feita por presos políticos, durante a ditadura militar. O acervo pessoal, entregue no dia em que Prestes completaria 114 anos, estava sob custódia da viúva dele, Maria Prestes. A cerimônia de doação do acervo ocorreu às 15h na sede do Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro.
Parte de um documento – datilografado – chamado de Relatório da 4ª Reunião Anual do Comitê de Solidariedade aos Revolucionários do Brasil, datado de 1976, essa lista foi elaborada em 1975, por 35 presos políticos que cumpriam pena no Presídio da Justiça Militar Federal.
Na ocasião, o documento foi enviado ao presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Caio Mário da Silva Pereira, mas só foi noticiado pela primeira vez em junho de 1978, no semanário alternativo “Em Tempo”.
Segundo o periódico, “na época em que foi escrito, o documento não teve grandes repercussões, apenas alguns jornais resumiram a descrição dos métodos de tortura”. O Major de Infantaria do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra é o primeiro da lista de torturadores, segundo o relatório
Ivan Seixas, ex-preso político e membro do Núcleo de Preservação da Memória Política, destacou a importância dessa relação de nomes para a história do país. “Esse é um documento vivo porque foi escrito na época em que as pessoas estavam sendo torturadas e assassinadas ou desaparecendo. As pessoas que estavam presas tinham o compromisso de denunciar os autores e os crimes desses torturadores. Quem está assinando esse documento foi torturado”, disse.
De acordo com Seixas, muitas das informações que constam no documento foram mais tarde complementadas. “Uma boa parte [da lista] era apenas de apelidos. Depois se fez um cruzamento de informações e se conseguiu chegar ao nome completo dos torturadores”, contou.
Nessa lista, Seixas conseguiu identificar várias pessoas que o torturaram durante a ditadura militar. “Aqui tem vários nomes de pessoas que trazem péssimas lembranças. Mas é um dever nosso denunciar e dar os nomes principalmente para que as famílias saibam que ele é um torturador.” Segundo ele, na lista há também os nomes dos torturadores da presidenta da República, Dilma Rousseff.
A expectativa de Seixas é de que essa relação de nomes também sirva para ajudar a punir os torturadores. “Acho que é uma obrigação se fazer uma condenação porque o Estado Democrático de Direito não pode ter pessoas acima da lei. Não é uma questão de vingança, é uma questão de justiça. Os policiais que hoje por ventura queiram torturar precisam saber que isso não vai ficar impune. Se você deixa impune, com que moral você condena um torturador hoje?”
Segundo o Arquivo Nacional, o acervo doado é composto por documentos escritos e iconográficos, produzidos ou acumulados pelo casal Maria e Luís Carlos Prestes entre as décadas de 1970 e 1990. Entre os documentos estão também correspondências trocadas entre Prestes e parentes, amigos e líderes políticos de várias nacionalidades; aulas e textos referentes ao Partido Comunista Brasileiro. Há também documentos que registram o empenho de Prestes, no período em que ele esteve exilado em Moscou, na década de 70, em denunciar à comunidade internacional a tortura e os assassinatos que eram praticados no Brasil à época.
O acervo, doado pela viúva de Prestes, vai receber primeiramente um tratamento e só então estará disponível ao público. Segundo a assessoria do Arquivo Nacional, ainda não há uma data para que esse material seja disponibilizado.


Fonte: Vi o Mundo

Com Elaine Patricia Cruz, da Agência Brasil

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