Alex Silva, o Pirulito, reencontra o doce da vida no Fla: ‘Estou renovado’

Publicado em sábado, agosto 27, 2011 ·

O começo foi tenso. Alex Silva estreou pelo Flamengo justamente na primeira derrota da equipe no Brasileirão. A goleada de 4 a 1 do Atlético-GO marcou o zagueiro, que, sem ritmo, acabou substituído no primeiro tempo daquela partida. Na rodada seguinte, atuou o tempo inteiro no empate em 2 a 2 com o Inter. O panorama já não era mais tão sombrio. Na última quarta, participou da primeira vitória rubro-negra sobre o Atlético-PR na Arena da Baixada. Mais confiante, Alex Silva terá neste domingo o teste mais difícil neste recomeço. Contra o Vasco, disputará seu primeiro clássico pelo novo clube.

– Estou na minha forma física ideal e chego 100% para o clássico – garante

Especial - Alex Silva, Pirulito, Jogador do Flamengo (Foto: André Durão/Globoesporte.com)Alex Silva, o Pirulito: apelido pegou para valer entre os boleiros (Foto: André Durão/Globoesporte.com)

Alex recebeu a reportagem do GLOBOESPORTE.COM na casa luxuosa que escolheu para viver no Rio com a esposa Kellen e o filho Miguel, de dois anos, pelos próximos três anos. É o tempo de contrato com o Rubro-Negro, que ele espera renovar. A residência fica no mesmo condomínio de Ronaldinho, na Barra da Tijuca, na Zona Oeste. Foi o craque quem a indicou.

Em uma conversa franca de pouco mais de uma hora, Pirulito não fugiu das perguntas. Muito pelo contrário. Falou da saudade que tinha de entrar em campo, desabafou sobre o clima ruim que viveu na segunda passagem pelo São Paulo, confessou que se arrepende de ter saído do Brasil para jogar no Hamburgo, da Alemanha, e garantiu que não quer voltar para a Europa. Talvez nunca mais.

A proposta salarial do Flamengo, segundo ele, foi a mais baixa que recebeu. Grêmio e Sporting-POR também tentaram contratá-lo. A escolha pelo Flamengo se baseou na força do grupo, no histórico imponente de Vanderlei Luxemburgo e na boa fase da equipe no Brasileirão.

Abaixo, o internauta confere a íntegra da entrevista:

GLOBOESPORTE.COM: Que avaliação você faz desse início de trabalho no Flamengo?
Alex Silva: A estreia não foi muito boa. Era o primeiro jogo depois de 90 dias parado, estava sem ritmo de jogo, e também foi complicado por estar jogando numa formação diferente (três zagueiros) do que a equipe vinha fazendo. Isso também atrapalhou um pouco. Foi um jogo em que toda a equipe não foi bem. Contra o Inter pude fazer uma boa partida, consegui jogar os 90 minutos com mais desenvoltura. Contra o Atlético-PR, mais solto também, senti que estou na minha forma física ideal e chego 100% para o clássico contra o Vasco.

Está na expectativa de ver o Engenhão lotado pela primeira vez? Está vivendo o clima do seu primeiro clássico aqui no Rio?
Desde quinta-feira, depois do jogo contra o Atlético-PR, comecei a viver o clima do clássico. Sou um jogador que gosta deste tipo de partida. Espero ver a torcida do Flamengo lotar o Engenhão. Tenho certeza que será o 12º jogador, e temos tudo para vencer.

Vanderlei Luxemburgo não confirmou, mas a tendência é que o Welinton seja o seu parceiro. Já deu para conseguir o entrosamento?
Jogamos contra o Inter e, na minha maneira de ver, os dois gols saíram mais por mérito da equipe deles, principalmente o segundo, do Leandro Damião (bicicleta). E também o toque de calcanhar dele no primeiro gol. O entrosamento com o Welinton foi bom, positivo, é um jogador rápido e jovem. Ele ouve bastante a gente ali atrás. Joguei com o Angelim também contra o Atlético-PR, é um jogador experiente, que tem a confiança do grupo. Vamos procurar falar bastante ali atrás para conseguir a vitória para começarmos o segundo turno na ponta.

Você, com sua experiência, vai ser aquele cara que pode orientar o Welinton?
Com certeza. Quando cheguei no São Paulo em 2006, cheguei cheio de defeitos. Tinha expulsões bobas. Mas acabei aprendendo com o Lugano, com o André Dias. O Fabão também. Espero poder ajudá-lo. Às vezes, o treinador pede para não ter brincadeira atrás. Torcedor tem que entender isso. Vi o jogo dele contra o Palmeiras e foi uma partida perfeita no Pacaembu (empate sem gols). Vejo nele um Miranda hoje. Acho que pela recuperação rápida, ele é muito rápido. O cara dribla, você acha que ele não vai chegar, mas chega. Vejo-o com chance de servir à Seleção Brasileira e espero poder ajudar com a minha experiência. É um cara jovem, com o tempo tem tudo para ser um dos grandes zagueiros do futebol brasileiro e espero que a torcida tenha paciência. É um grande jogador.

Você tem uma derrota, um empate e uma vitória no Flamengo e chegou a hora do primeiro clássico. Já pensa no primeiro gol?
Com certeza. Em todos os jogos entro com essa expectativa de ajudar a equipe com gols. Se fizer no primeiro clássico com a camisa do Flamengo, será maravilhoso.

Como foi sua negociação com o Flamengo? Você chegou a falar com o Ronaldinho antes de acertar?
Falei com ele uma vez no telefone. Falava mais com o Junior Cesar. Quase todos os dias.

Pedia referências?
Nunca pedi. Ele já tinha me falado no São Paulo que viria para cá, que já tinha falado com o Vanderlei, que as coisas estavam em ordem aqui no Rio. A primeira coisa que o cara pensa do Rio de Janeiro são as questões contratuais. Mas está tudo em ordem. O Vanderlei pesou bastante. Falei com ele no telefone também. Pesou bastante o time do Flamengo. Vem bem na competição. Eu tive proposta do Grêmio. Se tivesse ido para lá, talvez estivesse brigando para não cair. Fiz a coisa a certa.

Você chegou a falar que estava quase acertado com o Grêmio...
Estava quase. Depois acabaram desistindo porque não houve acerto entre eles e o Hamburgo, da Alemanha. O Grêmio na verdade queria o empréstimo. Só que o Hamburgo queria a venda. Por isso não deu certo.

Não foi uma negociação fácil com o Flamengo. Foi arrastada, durou cerca de um mês. O que houve?
Eu fiquei muito longe das negociações. Tanto que fui para a minha cidade (Amparo-SP) até pela polêmica, as coisas que aconteceram em São Paulo, todo mundo me procurando. Muita gente não entendeu a minha saída. Mas o interesse do Flamengo é antigo. Lembro que antes de vir para o São Paulo tinha recebido a proposta do Flamengo. E acabei optando pelo São Paulo. Estendeu-se assim porque tinha negócio com o clube alemão, né? Cláusulas com o clube alemão, e o Flamengo se interessou em comprar 50%. Só que na verdade 50% eram do Hamburgo, mas tinham os outros 50%¨que eram do Iraty-PR. Houve uma negociação e por isso demorou. Também troquei de empresário, antes era o Juan Figger, agora é o (Luiz) Taveira. Por isso que houve esse impasse. O São Paulo também deu uma embaçada. Tinha contrato até 31 de julho. Dificultou na papelada.

Você acha que tem a cara do Flamengo?
Pelo meu estilo de jogo, sim. Estou no lugar certo. Tenho um espírito guerreiro, não gosto de ficar fora. Tomei várias cotoveladas aí já e joguei. Acho que meu estilo de jogo é a cara do Flamengo. Por isso escolhi vir para cá. Não consigo jogar calado, sempre fui o cara que fala o tempo todo. É uma cobrança positiva, animar, contagiar os outros jogadores. Gosto de falar bastante.

Por que você acha que o Flamengo encanta tanto? Foi assim com o Fábio Luciano, com o Renato, que também saiu do Corinthians, com o Ronaldinho…
Torcida. Essa torcida é encantadora. Tive a felicidade e o prazer de vir aqui em 2007 onde estavam 68 mil pessoas dentro do Maracanã. Perdemos de 1 a 0, aquele canto da torcida conta bastante. Acho que pelos jogadores que por aqui passaram, como Adílio, Zico. Fizeram história no Flamengo. Jogar no Flamengo é o sonho de qualquer um. Pode perguntar para qualquer jogador. E hoje, e quando eu parar, posso dizer que vesti a camisa do Flamengo. Estou feliz, meu irmão feliz, minha família também. Acho que o que encanta é a torcida mesmo. É uma coisa que pesa bastante.

Jogador repara na torcida adversária?
Repara, sim. Em alguns jogos você sabe que não vai ser fácil. Para você ter ideia, ano passado jogamos contra o Ceará lá (em Fortaleza), e a torcida é encantadora.

Comenta com o companheiro?
Comenta. Entrar no Maracanã e ver o estádio cheio um logo olha para o outro e já sabe que não vai ser fácil. E a torcida ela influencia, sim. Ganha jogo. O Fluminense, na Libertadores (2008), também ganhou da gente. Fizemos um gol, a torcida poderia ter desistido, mas apoiou e no fim o Washington fez o gol de cabeça e acabamos sendo eliminados (nas quartas de final). Acho que a torcida é o 12º jogador. Como é a do Flamengo, a do Corinthians. Aquela torcida que durante o jogo ela apoia. Deixa para criticar depois da partida. É importante.

Você reencontra um Ronaldinho em alta, depois de conviver com ele nas Olimpíadas, num período em que ele não estava bem. O que tem sentido de diferente?
Vejo-o feliz. Vejo um Ronaldo diferente, reencontrou o futebol dele. Está diferente das Olímpíadas, mais alegre. O Flamengo ajudou muito nisso, o Vanderlei. E quando é craque e está feliz, vai embora, tem tudo para ser o melhor do campeonato como ele tem provado a cada jogo, subindo de produção.

Quando você chegou, o Flamengo estava muito atrás do Corinthians. E agora encurtou essa distância…
É aí que está a responsabilidade. Uma situação que você se pergunta e pensa: e se as coisas derem errado? O problema vai ser comigo. Estou feliz por entrar num momento em que a equipe está com o objetivo de título. Duro é entrar na zona de rebaixamento. O Flamengo está no caminho certo. Brasileiro você vence com vitórias fora de casa, foi o caso que fizemos quando estava no São Paulo. Ganhamos do Inter no Beira-Rio, do Grêmio no Olímpico, do Cruzeiro, que o Flamengo ganhou agora fora. O Palmeiras. Esses jogos fazem a diferença para ser campeão.

O gol ainda não saiu, mas há a expectativa de que o time ganhe força na bola aérea ofensiva com você. É por aí?
Vejo isso, sim. Não basta ter só o tamanho (1,93m). Os batedores que estão aqui são fora de série. Ronaldo e Thiago Neves colocam a bola com a mão. Espero fazer meus golzinhos aqui como fiz no São Paulo. Em 2007, fiz 13 gols na temporada, a maioria de cabeça. Espero ajudar na defesa, que é minha função, mas fazer uns golzinhos. Com o Ronaldo, já tive experiência nas Olimpíadas a nas Eliminatórias e já sei onde ele gosta de bater faltas e escanteios.

O que não funcionou na segunda passagem pelo São Paulo?
O torcedor tinha em mente ganhar a Libertadores. Aí acabamos perdendo, houve a mudança de treinador, o Ricardo Gomes saiu. Acabaram trazendo o da categoria de base, o (Sérgio) Baresi. Não tinha experiência para lidar com pressão, a torcida já tinha ido ao CT, já tinha cobrança. Ele acabou não segurando. Depois veio o Carpegiani, acho que não teve um planejamento como os outros. Nós vencemos três Brasileiros com o Muricy Ramalho. Mudou muita coisa, saída de treinador, o Marco Aurélio Cunha também. As coisas fora de campo atrapalharam o São Paulo, perdemos a vaga na Libertadores, tentamos a Copa do Brasil, mas também não conseguimos. Mas no meu caso foi mais a cobrança por ser um jogador identificado com a torcida. Eu também tive um problema com o presidente (Juvenal Juvêncio). No jogo contra o Goiás, eu tinha uma proposta do Sporting de Portugal, oficial, pela boca do presidente do Sporting, e ele disse que eu estava inventando essa proposta. Ali houve um desentendimento, ele falou através da imprensa, e eu acabei respondendo através do Twitter. Não gostei porque era um jogo de mata-mata importante, se as coisas dessem errado (…) Talvez por essa declaração eu fui um dos mais cobrados pela torcida com a eliminação na Copa do Brasil. Eu e o Miranda, porque o Miranda já tinha um pré-contrato com o clube espanhol, o Atlético de Madrid, e o Muricy Ramalho para ajudar, acabou dando a declaração de que gostaria de contar comigo no segundo semestre, no Santos. O torcedor leu aquilo e achou que eu estava trocando o São Paulo pelo Santos. E aí começou a cobrança da torcida, muita gente foi ao CT me chamar de mercenário, que eu queria jogar no rival e tal. Isso já foi uma coisa pensada por mim, por ter uma história bonita no São Paulo, três títulos brasileiros, e não queria sair pela porta dos fundos. E o presidente também prometeu me comprar na época, disse isso publicamente, e depois desistiu. Talvez por esse desentendimento aí. Mas o São Paulo hoje é um página virada.

Por que você acha que ele falou que você inventou a proposta?
Talvez para desvalorizar, né? Não foi para mim. Ele disse publicamente, para a torcida. Se não me engano, era ano de eleição, ele foi reeleito. Trouxe o Luis Fabiano e disse que ia me comprar. Ele fez essa promessa. E vi que meu contrato estava acabando e nada de resolver, e eu não tinha vontade nenhuma de voltar para a Alemanha. Se eu cumprisse meu contrato com o São Paulo, eu cumpriria sete partidas e não poderia sair para nenhum clube do Brasil. Aí tivemos uma conversa com o presidente, nos entendemos e achamos melhor dessa maneira.

Ele chegou a dar motivo para essa mudança de ideia?
Creio que no São Paulo não é o presidente. Tem uma pessoa da diretoria, não vou citar nome, e acho que essa pessoa não foi com a minha cara. Pelo presidente, eu teria permanecido. Só que tem essa pessoa dentro da diretoria que talvez não vá com a minha cara. E eu também estava meio estressado com o tempo passando, as promessas de que ia me comprar, me comprar… Também fiquei chateado com muitas coisas que foram ditas por parte da diretoria, que eu era um jogador-problema, que faltava à fisioterapia, essas coisas todas. Que eu ia para os pagodes e tal. Só que aí eu também fiquei chateado porque é impossível no São Paulo, um clube que diz que não aceita indisciplina, eu ter sido sempre titular lá dentro. Se tivesse sido esse jogador que eles falaram, talvez eu teria sido afastado, como aconteceu com o Carlos Alberto na época das confusões. O São Paulo nunca aceitou indisciplina. Mas eu creio que isso foi mais uma forma de querer desvalorizar, porque sabia que havia clubes brasileiros interessados no meu futebol. Até porque, quando fui fazer a rescisão do contrato, a primeira coisa que disseram foi que eu não poderia acertar com clube rival nenhum. Até o dia 31 de julho. E eu não iria acertar também pelo respeito que tenho pelo São Paulo, não daria certo sair do São Paulo e ir para um Corinthians, porque iria ser cobrado pela torcida do São Paulo e pela do Corinthians também por ter jogado no rival. Então, optei pelo Flamengo e estou feliz aqui.

Nesse período aí no São Paulo aconteceu algum tipo de atraso, de indisciplina?
Aconteceu um episódio que meu filho tinha passado mal uma noite e coincidiu com a expulsão contra o Palmeiras e por ser carnaval. Muitas pessoas começaram a falar coisas, acabei entrando ao vivo em alguns programas e esclarecendo a situação. Minha esposa esclareceu a situação. Disse também que todo mundo tem problema. Mas só o Alex Silva que não podia ter ali no São Paulo. Isso também pode não ter pegado bem. Eu sou um cara que fala o que pensa. Não faço média com diretoria, com treinador. Se eu tiver que jogar, não vou conquistar posição com nome e sim com meu potencial. Não uso o Twitter para falar que fui comer um cachorro-quente na esquina, que estou andando no shopping. É uma maneira de o torcedor saber muitas coisas. O dirigente fala através da imprensa. Só que se o jogador falar do dirigente através da imprensa o jogador está errado. E através do Twitter acabei esclarecendo muitas coisas. Isso também ajudou em várias sequências de problemas, com o Valdivia também. Acho que tudo isso aconteceu, acumulou, e foi o fato da desistência do São Paulo.

Você acha que para um jogador como você, que gosta de falar o que pensa, o Twitter é ruim?
Não. No caso, como eu disse, nesse jogo contra o Goiás o presidente deu essa declaração na hora do almoço. O jogo era 21h50m. Para o torcedor que lê o que ele disse, não ia saber a minha versão. E através do Twitter eu expliquei. É uma maneira de você interagir, dar sua opinião. Como o Kleber do Palmeiras já falou pelo Twitter, o Valdivia também. Para o torcedor ficar sabendo o nosso lado também. Às vezes, pode ter uma imagem de nós jogadores que não é a verdade. Por isso que através do Twitter eu me manifestava e explicava tudo o que estava acontecendo. Muitos estavam dizendo que eu era mercenário, que queria ir para outro clube e que eu não queria acertar a renovação. E através do Twitter eu explicava. “Não tem nada a ver, estou só aguardando”. Acho que o Twitter é um boa, sim. Mas ao mesmo tempo atrapalha, porque cria uma série de coisas dentro do clube, às vezes atinge muita gente e ele atrapalha. Por isso que eu cancelei.

O atual perfil no Twitter então é fake?
É um fake, por incrível que pareça. Muita gente pergunta para mim. Até porque acho que tem duas frases por dia lá. Se fosse meu, já estaria bombando. Alguma pessoa que deve ter feito. Espero que esteja respondendo algumas coisas legais (risos). Se falar que está indo ao pagode, aí vai me complicar.

Você disse que foi considerado um jogador-problema, que gosta de noitadas. O Flamengo, e isso é algo histórico, é considerado um clube que dá muita liberdade para os atletas. Aconteceu num momento com o Ronaldinho, quando as coisas não estavam andando. Como você lida com isso?
Na folga, como disse na entrevista no São Paulo, o jogador tem o direito de fazer o que quiser. É claro que existem momentos. Se você perde um clássico, ou um jogo, tem de ter respeito pelo torcedor. Mas se você ganha um jogo, no outro dia tem a folga ou vai treinar só à tarde, a vida segue normal, como de qualquer trabalhador. O episódio do Fred foi mais complicado. Parece que ele ia jogar na quinta e estava (em um bar) na terça. Já é muito próximo do jogo, talvez por isso os torcedores tenham se irritado. Eu nunca neguei que gosto de tomar minha cervejinha nas minhas folgas e curtir o meu pagode. Só que hoje mesmo sou um cara que fica mais em casa. Gosto de ficar ouvindo um DVD de samba, fazendo um churrasquinho com os amigos. Todo esse período aqui não conheço nada do Rio de Janeiro.

Especial - Alex Silva, Pirulito, Jogador do Flamengo (Foto: André Durão/Globoesporte.com)Alex Silva curte o conforto da nova casa, no Rio
(Foto: André Durão/Globoesporte.com)

Acha mais prudente fazer isso em casa do que na rua?
Acho que é a privacidade, né? Melhor o cara ficar em casa fazendo o que gosta para não ter esse tipo de polêmica. É complicado. Hoje o futebol virou um Big Brother. Jogador está ali, já estão batendo foto dele, colocando na internet ou mesmo no Youtube tocando um pandeiro numa rodinha de samba. É melhor evitar, prefiro evitar. Até porque o Luxemburgo é linha-dura (risos).

Você disse que não pretendia voltar para a Alemanha. Qual o motivo?
Primeiro pelo meu filho, que tem apenas dois anos. E também não me adaptei ao futebol alemão. Para você ter uma ideia, jogava de volante. E lá também não tinha os meus “dvdzinhos” de pagode. Por isso que preferi voltar para o Brasil.

A vida era difícil? Não tinha um brasileiro que pudesse ajudar?
Tinha o Thiago Neves, mas depois ele foi para a Arábia Saudita. Acabei ficando sozinho. Tem algumas manias lá que no jantar tem de esperar o capitão levantar da mesa para subir para o quarto. Os alemães conversando, e eu lá, sentado, esperando o capitão sair e não conseguia interagir. Isso atrapalha muito também, conta muito no desempenho em campo. Eu saía para treinar meio desanimado, louco para voltar para casa. Não entendia a língua, era muito difícil. Vou ser sincero com você. Tenho apenas 26 anos, mas vontade nenhuma de voltar para a Europa.

Mas você cogitou ir para o Sporting?
Na verdade, não cogitei, recebi a proposta do Sporting, mas seria uma opção se tivesse completado sete partidas pelo São Paulo e não pudesse me transferir para outro clube brasileiro. E não queria voltar para o Hamburgo. A única alternativa seria o Sporting. Mas graças a Deus tivemos um final feliz, um contrato de três anos e, dependendo do meu desempenho, espero renovar por mais tempo.

Há cinco, dez anos, jogadores saíam para a Europa falando de independência financeira. E agora vemos você, com 26 anos, dizendo que não tem vontade de voltar para lá. Os clubes brasileiros já garantem isso?
Mudou muita coisa. O investimento dos clubes brasileiros hoje está muito bom. Por isso que todo mundo está voltando, caso do Luis Fabiano (São Paulo), Robinho esteve aqui também (no Santos, em 2010). O próprio Ronaldinho Gaúcho. E acho que por ser um dos campeonatos mais disputados do mundo, e a visibilidade para a Seleção Brasileira hoje é maior aqui no Brasil do que lá na Europa. Tem de ter um time certo para jogar lá. Claro que se vier uma coisa de um Milan, de um Barcelona, é difícil recusar. Mas quando eu fui para o Hamburgo, perdi a oportunidade na Seleção Brasileira. Se pudesse voltar atrás, não teria ido.

Alex Silva com o filho Miguel e com a esposa Kellen (Foto: Arquivo Pessoal)Alex Silva em família: o filho Miguel, de 2 anos,
e a esposa Kellen (Foto: Arquivo Pessoal)

Como recebem os brasileiros lá?
São frios e existe um pouco de ciúmes com brasileiros e ao mesmo tempo preconceito. Alguns brasileiros vão para lá, acabam fazendo coisas erradas e na contratação já ficam com o pé atrás. Não é como no Brasil. Cheguei no Flamengo e já parecia que estava no clube há um tempão. As pessoas te cumprimentam, recebem, convidam para tomar um café. Isso na Europa não existe, é a cultura deles. Por exemplo: lá tem a mania de no horário do almoço usar um tipo de camisa e para ir para o jogo é outro. O cara está vendo que você está com a camisa errada. No caso, eu e Thiago Neves chegamos, todo mundo de branco e nós de preto. E ninguém vai ali dar um toque. É um povo frio. Não sei se é em toda a Europa, falo mais da Alemanha. Lá, cada um faz o seu.

O salário é semelhante? Dá para competir de igual para igual?
É parecido. Às vezes, em termos de valores, é a mesma coisa. Muitos jogadores que estão aqui no Brasil ganham a mesma coisa da Europa. Eu tinha um salário alto também no Hamburgo, por isso que optaram por me negociar. Confesso que a do Flamengo, em termos salariais, foi a menor que recebi. Mas Flamengo é Flamengo e eu conversei com meus empresários e preferi vir para cá.

Foi a menor proposta?
A menor em termos salariais, mas foi a única equipe que se dispôs a comprar 50% do meu passe. As outras queriam empréstimo.

E aí quando você viu Ronaldinho, Thiago Neves e o próprio Vanderlei também contou?
Contou bastante. O Vanderlei é um cara que sabe o caminho dos títulos. Também a colocação em que o Flamengo estava. Vinha acompanhando e vejo no Flamengo hoje uma possibilidade muito grande de vencer o quarto título brasileiro na minha carreira e também voltar à Seleção Brasileira.

Jogador olha o elenco da equipe? Olha a tabela também?
Olha, olha. O futebol tem umas coisas engraçadas. Eu tenho 26 anos de idade. Talvez se eu chegasse no Grêmio, como foi o caso do Gilberto Silva, brigaria para não cair. É complicado. A cobrança seria maior do que no Flamengo agora, com o time arrumado. Vou ter que ralar bastante na defesa ali pelo fato de ela estar bem. Contou muito o Ronaldinho por ter trabalhado com ele em 2008 na Seleção, Thiago Neves também, Junior Cesar também. Só me falaram coisas boas do Flamengo. Desde a chegada do Vanderlei, da entrada da Patricia (Amorim), o Flamengo mudou bastante o pensamento de administração. Isso ajudou bastante.

Permanecer no eixo Rio-São Paulo era importante?
É. Acho que eu ficaria no foco ainda. São Paulo e Rio de Janeiro você está sempre perto da Seleção Brasileira, que é o meu foco hoje. Quero vencer o título brasileiro e voltar à Seleção. A Copa de 2014 está aí, testes estão sendo feitos. Acho que no Flamengo tenho tudo para ter uma oportunidade na Seleção.

O Flamengo tem um projeto de um moderno Centro de Treinamento. Isso fez você olhar diferente também?
Não. Sempre digo que estrutura a gente tem de ter em casa. Vestir a camisa do Flamengo para mim já é um sonho. Claro que é importante você ter uma estrutura como a do São Paulo, que é muito grande. Você chega a estranhar um pouco. Mas pelo que sei aqui no Flamengo mudou bastante com a chegada do Vanderlei. Tanto que fizeram os quartos para dias de treinos em dois períodos. E eu vi o projeto do CT. Se ficar pronto, vai ficar show de bola.

Você já fala do Flamengo com muito carinho, da mesma forma que o Ronaldinho falou. Você tem um time de coração?
Eu tive uma identificação muito forte com o São Paulo pelo fato de ter conquistado tudo que tenho pelo São Paulo. O carinho enorme que tenho hoje é pelo São Paulo. Pode ser que daqui a três anos, aqui no Flamengo, eu vire flamenguista. Como o Fábio Luciano quando parou. Foi um cara que jogou no Corinthians e se você perguntar para ele, virou flamenguista. O Ronaldinho é gremista, mas hoje tem um carinho pelo Flamengo. Tenho carinho pelo São Paulo por tudo que passei lá.

A torcida da infância ficou na infância?
Ficou. Quando eu era criança era palmeirense, cara. A família da minha mãe é descendente de italianos. Por isso. Não só eu como o Luisão (seu irmão, zagueiro do Benfica). E hoje ele é corintiano. Quando está de férias, ele vai na quadra da Gaviões da Fiel, mas a alegria que encontrei no Flamengo, os funcionários, o jeito como me receberam, tem tudo para dar um casamento perfeito aqui.

E como era a infância do Alex?

Eu apanhava bastante, viu? O Luisão sempre foi um cara mais tranquilo, eu fui mais levado. A minha infância foi mesmo bola, jogando no campinho. Nunca tive essa coisa de pipa, carrinho de rolimã, videogame. Sempre foi na rua jogando boa, vendia salgados quando era pequeno, trabalhei de servente de pedreiro, tenho umas histórias boas.

Apanhava de quem?
Eram duas surras por dia (risos). Uma da minha mãe e quando meu pai chegava do trabalho. Era levado demais. Graças a Deus por isso eu sou o que sou e minha família está muito feliz.

Era namorador?
Era feinho, tinha o cabelo black power e ninguém me queria naquela época. Mas meu negócio era futebol mesmo. Entrava 7h30m no colégio e chegava 6h30m com os amigos para jogar bola antes de entrar na sala. No intervalo, entrava todo suado ali. Nunca fui bom também na escola, não. Esse foi um dos motivos para tomar uns tapinhas de vez em quando.

Sempre foi o mais alto da turma?

Sempre fui o mais alto. No futebol de salão me colocavam lá na frente de pivô para trombar um pouquinho.

Era bom pivô?

Era. Acho que isso me ajudou bastante. Dentro de campo tenho aquela coisa de pensar rápido. Eu fiz um gol maravilhoso no São Paulo no Campeonato Paulista contra o Rio Claro. Saí driblando de antes do meio-campo, acho que foi o gol mais bonito da minha carreira. Ajudou bastante. Principalmente para zagueiro naquele momento da área em que a bola está pipocando. Tem de dar um jeitinho de pensar rápido, né? O futebol hoje mudou. Antigamente, era zagueiro-zagueiro. Hoje, o zagueiro tem de ter um pouco de técnica, saber passar a bola, saber a hora de um lançamento. Mudou bastante o futebol.

Como é que você começou a carreira?
Comecei na Ponte Preta. Inclusive apanhei de novo também, porque peguei o ônibus escondido para fazer teste e todo mundo achou que eu tinha sumido. Poxa, cheguei todo feliz em casa porque tinha passado, mas não teve jeito. Da Ponte Preta tive a passagem pelo Vitória, onde joguei com o Felipe (goleiro do Fla). De lá passei seis meses no Rennes, da França, retornei ao Vitória e fui para o São Paulo. Aí vivi fases maravilhosas, felicidade em 2007 de fazer parte da melhor defesa da história do Campeonato Brasileiro, com poucos gols sofridos. E hoje estou no Flamengo.

Lembra do gol contra que fez pelo Vitória a favor do Flamengo?
Lembro, lembro. O Felipe era o goleiro. Ele deu um soco na bola, ela pegou na minha cabeça, no Maracanã. Eu lembro desse gol (assista ao vídeo). Agora tenho que fazer a favor. Pelo amor de Deus. Contra deixa para lá.

Você falou do estilo black power. Há quanto tempo adotou o estilo zero?

Foi no São Paulo, em 2006. Antes deixava um pezinho e tal. Aí no São Paulo comecei a raspar e por isso também surgiu o apelido Pirulito. Magro e careca, surgiu esse apelido.

Quem foi que te deu esse apelido?
Souza (hoje no Fluminense). Ele nem gosta de dar apelido para os outros, né? Acabou dando esse apelido, caiu na boca do Mucicy, que gostou, aí ficou Pirulito para cá, Pirulito para lá.

Não devolveu?
Se apelar no apelido é pior. Nem devolvi. Agora já pegou também. Achei que ia chegar no Flamengo e ia voltar a ser Alex Silva, mas entre os jogadores é Pirulito também. Pegou, não tem jeito.

Você curte?
Eu não tenho problema nenhum. Ainda bem que pirulito é doce, né? Não tira mais, não tem como. Quando vi, a própria imprensa já estava colocando nas matérias. Aí ferrou.

Você já falou do Fábio Luciano mais de uma vez, inclusive na sua apresentação. Chegou a falar com o Fábio? Vocês têm até trajetórias parecidas.
É verdade. Não tive oportunidade de conversar com ele, mas sempre o tive como um dos meus ídolos. O acompanhei na Ponte Preta, no próprio Corinthians vendo ele jogar. Tive a felicidade de jogar contra ele aqui no Flamengo. Pretendo seguir os mesmos passos. Espero encontrá-lo para ele passar um pouquinho dos atalhos do Flamengo. Tenho o Fábio como um dos meus ídolos.

Qual foi o atacante mais difícil que você marcou?
Kleber (Palmeiras). Cara chato, não desiste, guerreiro, trombador. Para mim, foi o mais difícil. Preferia um cara driblador do que o Kleber, que não desiste das jogadas. Driblador é um pouco preguiçoso. O Kleber não. Ele é chato. O segundo foi o Liedson (Corinthians). Outro jogador chato que não desiste em momento nenhum da bola.

Como é a relação entre zagueiro e atacante durante 90 minutos? Muita provocação, cotovelo para cá, para lá?
Sempre fui mais concentrado para o jogo. Sempre com aquele negócio de não tomar o gol. Às vezes, o bicho pega. Mas hoje com câmeras para todo lado não tem mais como dar aquela chegadinha. Mas nunca tive problema com nenhum atacante, não. Houve uma polêmica num jogo com o Kleber em que ele me deu uma pisada, aí o André Dias foi na imprensa, falou dele. Ele acabou dizendo que o André Dias tomou as dores, era minha namoradinha. Aí teve uma resposta. Mas jogamos várias vezes depois disso, enfrentei ele pelo Cruzeiro. Não tive nenhum tipo de problema. Se viesse para cá, ia ser bem-vindo. Era melhor ter ele do nosso lado.

Você falou da cobrança que existia no São Paulo pela Libertadores. E a torcida do Flamengo também quer uma segunda Libertadores, já que o time foi campeão brasileiro recentemente. Você também persegue a sua, certo?
É um desafio. É uma coisa que quero ter antes de parar de jogar. E vejo ela próxima aqui no Flamengo também. O cara que ganha uma Libertadores no clube fica marcado para o resto da vida. E eu quero ser marcado aqui no Flamengo.

Já deu para sentir a diferença entre Rio e São Paulo?

Os caras aqui são mais animados. É diferente. Aqui no Rio, as pessoas são mais receptivas. Eu senti. Outra diferença é que a cobrança aqui é grande.  A cobrança é maior que em São Paulo.

Sente o torcedor mais próximo?
Sinto. Em São Paulo cobra mais se você perde três jogos e está em má fase. Aqui não adianta. Se perder três seguidas depois de tudo o que o Flamengo já fez, a pressão já é grande. É um grande clube, mas com responsabilidade muito grande.

Quantas cirurgias no joelho direito, Alex? Ficou alguma sequela?

Duas. Duas no ligamento cruzado. Uma em 2007, colateral medial, e essa em 2009. Sempre depois da cirurgia você sente uma dorzinha, incha o joelho. Por isso tive esse tempo parado e tive de fortalecer a coxa. O que segura o joelho é ter o músculo forte. Mas o cara que operou o joelho sempre tem uma dorzinha aqui, outra ali. Mas estou me sentindo bem. No primeiro coletivo contra os juniores, ainda estava meio preso, meio com medo. Mas já me soltei mais, fiz um jogo-treino de 90 minutos. Fiquei feliz.

E o número 44. Algo especial?
Nada. Ofereceram-me, e eu peguei. Isso não importa. O importante é que estou feliz. Sinto-me outra pessoa. No último período no São Paulo, vinha triste, muita coisa acontecendo. Estou renovado, louco para dar alegria aos torcedores do Flamengo. Isso conta bastante. Você acordar com disposição para trabalhar. Estou feliz aqui.

Globoesporte.com

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