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Afrouxamento do isolamento social: uma tragédia anunciada

Publicado em quarta-feira, Abril 15, 2020 ·

Que a pandemia está dia a dia causando espanto e medo na população brasileira isso é inegável. O grande desafio das autoridades é trabalhar enfrentando seriamente a crise e evitando que o cidadão se sinta desamparado e, por isso, inseguro. Líderes de dezenas de nações têm conduzido a pandemia com serenidade, seriedade e dando a real dimensão do problema, com discursos uníssonos destacando que a vida está acima dos prejuízos para a economia. Na contramão desse contexto sério e responsável, nadamos na lama da desfaçatez e da irresponsabilidade do chefe maior da nação.

O ponto nevrálgico da pandemia nunca foi a contaminação pelo vírus em sí, pois o percentual de letalidade é relativamente baixo em relação a outras doenças. Mas, supondo que a letalidade fosse de 100%, ser infectado pelo vírus seria garantia de morte. No entanto, resta comprovado por estudos que o índice de letalidade do COVID-19 varia de 5% a 20% dos infectados. Mas então porque é imprescindível o isolamento social?

O cerne da questão é o número de leitos disponíveis no Brasil, de equipamentos para exames e monitoramento, medicamentos, EPI’s, e profissionais de saúde em número suficiente para atender uma contaminação em massa. Portanto, não se trata do contágio em sí, mas do contágio de um número maior do que o sistema de saúde pode suportar. Diante dessa realidade é que no mundo inteiro o isolamento social foi reconhecido como a principal medida para evitar uma tragédia.

Um exemplo de como a falta de estrutura e precaução de um país pode causar verdadeiro genocídio vê-se a triste situação do Equador. O ministro da saúde Juan Carlos Zevallos pediu desculpas ao povo pelo que está acontecendo em Guayaquil, pois segundo ele, no começo havia 35 mortes por dia e agora já passam de 150. No Equador o governo recolheu em apenas cinco dias 300 cadáveres das ruas, sem contar os mortos que ficam dentro das casas e os que ainda estão dentro dos hospitais. Não há mais caixões e os parentes estão tendo que enterrar seus entes em caixas de papelão, isso quando encontram local para enterrá-los.

Segundo dados atualizados ontem (14/04), há no mundo 1.884.863 milhão de pessoas infectadas e 117.021 mil mortos. No Brasil já são 25.262 casos confirmados e 1.532 mortes. Se com o isolamento social o gráfico do nosso país está subindo, imagina com o afrouxamento do isolamento. O primeiro caso confirmado no Brasil foi em São Paulo em 26 de fevereiro. O segundo em 02 de março. O terceiro dia 04/03. Dia 05 já eram 8 casos. Em apenas duas semanas subiram para 286 casos em São Paulo. Dia 20/03 havia 396 casos e 11 dias depois já eram 2.339.

Trazendo os números para nível nacional, no dia 20/03 havia 904 casos confirmados. Em apenas 11 dias esse número subiu para 5.717 infectados. De acordo com dados do Ministério da Saúde (MS) atualizados também em 14/04, foram 1.832 novas confirmações em 24 horas. São Paulo concentra a maior parte das notificações da lista nacional e apenas Tocantins ainda não tem óbito pela doença no país. Os números são precisos, oficiais e devem servir de parâmetro para a tomada de decisão dos gestores estaduais e municipais, que em alguns municípios estão cedendo à pressão imposta pelo presidente Jair Bolsonaro e pelos empresários, a favor do afrouxamento do isolamento social. Não bastasse o afrouxamento ser flagrantemente um contrassenso absoluto num contexto de calamidade pública, o Ministério Público Federal já publicou entendimento de que afrouxar o isolamento sem garantir número de leitos e equipe médica para atendimento dos casos pode levar à propositura ação de improbidade administrativa contra o gestor.

QUESTÃO DE VIDA OU MORTE

É necessário que as autoridades atentem para o fato de que para um percentual que varia de 5% a 20% dos infectados os sintomas são graves e conseguir uma vaga de UTI pode ser uma questão de vida ou morte. E tem mais, em geral, o tempo médio de internação em uma UTI pública brasileira é de seis dias e meio. No caso da COVID-19 a média de internação sobe para 15 dias, podendo chegar até a 21 dias. Segundo dados do Ministério da Saúde atualizados em 14/04, há no Brasil apenas 30.623 leitos de UTI disponíveis. Verifica-se uma disparidade na distribuição desses leitos, sendo que do total, mais da metade desses leitos estão na rede particular num cenário em que quase 80% da população brasileira depende do SUS. Então, enquanto os hospitais particulares têm uma média de 49 leitos por 100 mil habitantes, o SUS tem uma média de 14 leitos por cada 100 mil habitantes. A região sudeste concentra a maior parte dos leitos, ou seja, caso a pandemia avance para o norte e o nordeste eles vão ter menos leitos disponíveis em relação ao tamanho da sua população.

Outra questão que precisa ser levada em conta diz respeito ao número de profissionais da saúde para atender a demanda. Além dos leitos, outra grande preocupação é a de que falte médicos e enfermeiros suficientes com o alto grau de especialização que é exigido para acompanhar os pacientes de UTI. Segundo a Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), trata-se de um atendimento de alta complexidade que envolve muitas áreas da medicina e já existem muitos casos confirmados de profissionais na linha de frente da pandemia estão sendo infectados. A AMIB afirma que tem planos de contingência, tanto treinando mais médicos quanto adaptando os que já estão disponíveis e alerta que todo esse esforço de conseguir mais leitos e recrutar mais médicos só vai funcionar se for mantido o número de infectados dentro de um limite que o sistema de saúde aguente, sendo vital que se evite que muita gente fique doente ao mesmo tempo e precise de tratamento médico simultaneamente. Se isso acontecer, e o isolamento é justamente para evitar que isso aconteça, o sistema de saúde pode entrar em colapso. O mundo viu o que aconteceu na Itália onde médicos tiveram que fazer a terrível escolha de que pacientes salvar diante de tantos precisando dos mesmos cuidados.

Temos uma população estimada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2019 na ordem de 211 milhões e, segundo dados do MS, dispomos apenas de 1.071.880 kits de teste de COVID-19, o que é outro alerta para a população e para os governantes: as subnotificações. O diagnóstico da doença só está sendo confirmado em pessoas internadas com sintomas graves, as demais seguem suas vidas e são potenciais transmissores da doença. Todo cuidado é pouco diante de tamanha ameaça à saúde pública. Por essa razão, é imperativo que os gestores não ignorem os números, a ciência e as experiências de outros países no combate ao coronavírus, sob pena de serem responsáveis pela morte de centenas de milhares de pessoas.

ESTADO N.O DE CASOS N.O DE MORTES N.O LEITOS DO SUS KIT TESTE POPULAÇÃO (IBGE)
ACRE 99 3 33 4.280 881.935
AMAZONAS 1.484 90 17 17.800 4.144.597
RORAIMA 113 3 17 3.640 605.761
RONDÔNIA 64 2 159 8.700 1.777.225
AMAPÁ 307 6 12 4.020 845.731
PARÁ 323 19 348 32.920 8.602.865
MARANHÃO 478 32 303 30.860 7.075.181
MATO GROSSO 138 4 198 15.200 3.484.466
MATO GROSSO SUL 115 4 189 13.520 2.778.986
TOCANTINS 26 0 73 9.100 1.572.866
GOIÁS 284 15 516 30.080 7.018.354
PIAUÍ 58 8 140 17.480 3.273.227
CEARÁ 2.005 107 430 42.880 9.132.078
RIO GRANDE NORTE 376 8 211 18.060 3.506.853
PARAÍBA 152 21 290 21.380 4.018.127
PERNAMBUCO 1.284 115 755 45.460 9.557.071
ALAGOAS 72 4 176 15.180 3.337.357
SERGIPE 45 4 146 11.740 2.298.696
BAHIA 759 22 774 71.120 14.873.064
MINAS GERAIS 884 27 2.013 111.900 21.168.791
ESPÍRITO SANTO 463 17 318 19.060 4.018.650
RIO DE JANEIRO 3.410 224 1.175 88.580 17.264.943
SÃO PAULO 9.371 695 3.506 236.840 45.919.049
PARANÁ 791 36 1.218 57.420 11.433.957
SANTA CATARINA 826 26 533 35.840 7.164.788
RIO GRANDE SUL 700 18 985 84.500 11.377.239
DISTRITO FEDERAL 651 17 181 24.320 3.015.268

Dados oficiais do Ministério da Saúde atualizados em 14/04/2020.

Na Paraíba a Secretaria de Saúde atualizou em 15/04 que já são 152 casos confirmados e 21 mortes. Os casos estão distribuídos em 13 municípios: João Pessoa (115), Santa Rita (12), Campina Grande (3), Cabedelo (5), Bayeux (4), Junco do Seridó (3), Patos (4), Serra Branca (1), Sape (1), Sousa (1), Igaracy (1), Taperoá (1) e São João Rio Do Peixe (1). 

*Marla Bitencourt é moradora de Solânea-PB, graduada em Jornalismo e Direito.

 

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