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Articulista



                             Ramalho Leite - Bananeiras
                             Advogado, jornalista e escritor, ex-deputado federal
                             ramalholeite@uol.com.br




                                                                 

O PADRE QUE VIROU CAPELÃO

 

 

Em um sábado do distante ano de 1987 do século passado, fui solicitado pelo advogado Paulo Freire para que passasse em sua casa, na cidade de Belém. Lá  estava  guardado o Padre Adelino, receoso  de ser eliminado por integrantes da Policia Militar encastelados em Guarabira, sede do famoso Esquadrão da Morte denunciado com coragem e destemor pelo religioso nas emissoras de radio  e no púlpito.


A minha convocação tinha um objetivo: levar o Padre Adelino até o Chefe do Governo do qual eu era líder na Assembléia, para que pudesse, de viva voz, relatar diretamente ao Governador Burity  as provas da existência do esquadrão e a individualização dos seus principais membros. Se é que daria tempo, pois o padre estava ameaçado de morte.


Estava prevista uma visita do Governador a Alagoa Grande no dia seguinte. Marquei a audiência com o Governador, mesmo sem consultá-lo,  na residência do então prefeito Bosco Carneiro, onde ocorreu o encontro. Na ocasião, o Padre Adelino apresentou ao Governador do Estado e ao Secretário de Segurança as provas sobre o esquadrão e exemplos de suas façanhas, com  detalhes ouvidos ainda pelo dono da casa e por esta testemunha da história.


O governador mandou tomar  providências a respeito do assunto e garantiu proteção ao padre-denunciante.


Algum tempo depois fui chamado para uma missão inesperada. Para minha surpresa, ouço do Governador mais ou menos o seguinte:


- Procure Dom José e lhe diga para tirar o Padre Adelino da Paraíba. Se precisar o Estado ajuda, mas mande o padre para fora do País. As informações do serviço secreto da PM me dizem que ele vai ser morto e eu não tenho como evitar...


Encontrei-me com o  Arcebispo naquela casinha humilde que morava ao lado da Igreja de São Francisco e lhe transmiti o recado, diga-se, carregado de constrangimento, pois o Governador revelava a impotência do Governo diante de um grupo criminoso existente na sua própria policia. Não sei se o Estado ajudou ou não. O certo é que Adelino foi mandado para Roma e por lá passou uns dois anos, só voltando depois do esquadrão  ser desmontado e seus integrantes identificados e processados.


No rastro da sua fama de aguerrido, foi candidato a prefeito de Belém, sua terra natal e depois eleito deputado estadual e vereador na Capital. Voltou à condição de vigário e para não perder o contato com as bases, celebrava aos domingos uma missa na Câmara Municipal pedindo pela cidade, seus dirigentes e seu povo.


Soube que Adelino voltou a ler o Diário Oficial. Foi  nomeado Capelão da Policia Militar. Sempre polêmico, na política trocou de lado como quem troca de batina. Na sua missão religiosa, marca um tento. A Policia que outrora lhe metia medo, agora será o seu rebanho. Os sicários do passado  estão presos. O padre marcado para morrer continua  vivo, graças a Deus!





RAMALHO LEITE


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