“O bom jornalista é o que sabe que sempre tem algo a aprender”, diz Vera Araújo, de “O Globo”

Publicado em terça-feira, Fevereiro 28, 2012 ·

Vera Araújo
Vera Araújo

Chegando aos 24 anos de profissão, Vera Araújo – vencedora da categoria “Repórter de Jornal” do Troféu Mulher IMPRENSA – se tornou uma referência quando se trata de jornalismo investigativo no Brasil. Atuando no Rio de Janeiro, na área de segurança pública, a jornalista pode acompanhar todos os percalços de uma cidade marcada pelos contrastes e registrar de perto o momento em que o Estado dá claros sinais de retomada do controle nesta área, especialmente pelas políticas de pacificação das comunidades.


Seu trabalho já foi reconhecido em muitos outros espaços, sendo premiada duas vezes com o prêmio Tim Lopes de Jornalismo Investigativo, além do prêmio Esso Sudeste (2010). Foi ela a primeira repórter que denunciou a existência dos grupos paramilitares que se “arvoram de defensores” da comunidade, mas que na verdade querem assumir o controle e cobrar por serviços aproveitando da fragilidade do Estado nestas comunidades sendo, inclusive, a primeira a nomear tais organizações como “milícias”.

Mesmo com toda essa bagagem, Vera acredita na importância de conservar um lado meio “foca”, ou seja, a humildade de reconhecer que não se sabe tudo. Para ela, uma postura que junta muito compromisso com muita humildade são ingredientes principais do bom jornalismo.
“Parece papo de falsa modéstia, mas não, quem me conhece vai saber que não é por que sou assim no dia a dia. Aprendi a ouvir muito e perguntar sempre, o bom jornalista é aquele que sabe que sempre tem algo a mais para aprender. Isso sempre foi tão importante para mim que, por estar na área de segurança pública, voltei para a faculdade para fazer o curso de Direito e poder entender sobre o que estava investigando, pesquisando e escrevendo”, argumenta.
O Troféu Mulher IMPRENSA teve dois momentos especiais para Vera: a indicação que para ela é o reconhecimento de um júri especializado e que conhece a área de comunicação e, depois, pela colocação em primeiro lugar com uma “votação tão expressiva”. Segundo a jornalista, a premiação é um reconhecimento do seu trabalho, mas, especialmente, uma demonstração de que “o público percebe a importância do trabalho investigativo para um jornalismo de qualidade”.
A seguir, veja a conversa com Vera Araújo sobre a sua carreira, a profissão e a premiação.
IMPRENSA – Como você recebeu a notícia da premiação no Troféu Mulher IMPRENSA?
Vera Araújo – Eu fiquei surpresa e muito feliz. Primeiro quando eu recebi a notícia que tinha sido indicada por um júri tão especial, especializado nesse assunto e depois pela votação tão expressiva, que até onde sei foi um recorde na votação. Fiquei feliz não só pelo reconhecimento do meu trabalho, de anos de investimento e dedicação, mas porque é um sinal que estou conseguindo me manter atualizada em tempos de notícias cada vez mais rápidas e, no qual, os jornalistas têm que ser multimídia.

Como é ser multimídia no jornalismo investigativo?
É apostar na investigação sem perder de vista as diferentes linguagens. Por isso, acho que o prêmio é um ganho também para o jornalismo investigativo, que requer muita dedicação, onde o repórter cava coisas que o leitor nem imagina que existam. Um trabalho extremamente detalhista e que é a minha verdadeira paixão. O prêmio mostra que, nesse momento de velocidade do jornalismo e da notícia, a reportagem investigativa ainda é muito valorizada pelos leitores.
Neste último ano, qual trabalho você destacaria?
Como eu estou na cobertura nesta área de segurança sempre tem algo que se destaca, especialmente no Rio de Janeiro, onde estamos caminhando para superar muitos dos problemas, mas ainda há uma longa batalha a ser travada. Mas, particularmente, no último ano, destaco a cobertura da pacificação da Rocinha como um dos trabalhos mais importantes.
Você esteve lá acompanhando todo o processo de pacificação?
No dia da ocupação eu fui chamada por moradores para acompanhar a entrada das forças policiais na comunidade com fim de pacificação. Eu fui e fiquei lá, do lado dos moradores e atendendo o pedido deles, que de certa forma se sentiam mais seguros com a nossa presença lá. Muitos moradores me ligaram dizendo que a minha presença era a garantia de que tudo ia correr bem, o que de cara já demonstra a importância do bom jornalismo para a qualidade de vida das pessoas. Foi muito emocionante ver o Estado de Direito se impondo em uma comunidade que há mais de quarenta anos estava entregue ao tráfico. Eu me senti escrevendo a história daquela comunidade e sei da importância da cobertura que fizemos naquele dia.
Que conselhos você daria para quem está começando agora?
Ouvir, se informar antes de ir para o local da cobertura e não ter vergonha de tirar dúvidas com os jornalistas mais experientes. Eu, particularmente, procuro sempre ajudar porque eu me lembro muito bem de como é ser “foca” porque eu ainda me sinto um pouco foca. Acho que a gente tem que sempre conservar esse lado foca de ter curiosidade, querer entender e saber que não sabe tudo. Parece papo de falsa modéstia, mas não, quem me conhece vai saber que não é por que sou assim no dia a dia. Aprendi a ouvir muito e perguntar sempre, o bom jornalista é aquele que sabe que sempre tem algo a mais para aprender. Isso sempre foi tão importante para  mim que, por estar na área de segurança pública, voltei para a faculdade para fazer o curso de Direito e poder entender sobre o que estava investigando, pesquisando e escrevendo
Como você vê a nova geração que está entrando nas redações?
É uma geração dedo na tomada. Muito antenada, com uma capacidade de ler varias coisas, uma geração incrível! Por outro lado, eu sinto que às vezes falta concentração e perder o receio  de perguntar. Eu quando estava começando perguntava muito e fui formada em uma escola maravilhosa, com jornalistas veteranos que me ajudaram muito. Mas é uma geração maravilhosa!
Como você avalia o jornalismo hoje?
Um mercado cada vez mais fechado. Aqui no Rio, por exemplo, a gente perdeu o Jornal do Brasil e aumentaram as mídias pela internet, mas o público quer o jornalismo bem feito. A gente sabe que a concorrência é sadia ao jornalismo e quem ganha com isso é a sociedade. Acredito muito que o jornais precisam investir cada vez mais em matérias especiais, se pautar em coisas diferentes e inéditas, é justamente este tipo de trabalho que vai promover uma renovação do público consumidor de jornais.
Qual a importância do prêmio para você?
Descobrir que tem tanta gente que gosta do meu trabalho e que tenho tantos amigos! Acho que isso parte do que conversamos: da humildade, de você fazer um trabalho legal e  partilhar estes trabalhos com os seus amigos e público. Teve rede social? Sim, teve. Mas  os amigos entraram de cabeça na campanha, por isso que te digo: é muito bom ter amigos!
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